segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Resta pouco a dizer

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Há alguns dias atrás fui ver a peça “Resta pouco a dizer” no teatro Anchieta do SESC Consolação, aqui perto de casa. Trata-se de um projeto dos irmãos Adriano e Fernando Guimarães que reúne montagens do dramaturgo Samuel Beckett. As peças são: Catástrofe, Ato Sem Palavras 2 e Jogo. Intercalado a elas, tem-se algumas performances: Respiração Mais, Respiração 1 e 2 e Respiração Embolada. A tradução é de Bárbara Heliodora e o conjunto foi indicado a diversos prêmios, dentre eles, o Shell de 2008.
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Beckett foi um dos criadores do teatro do absurdo que propunha trazer para o palco os desencontros e a falta de nexo do dia-a-dia, daí surgiram infinitas possibilidades de montagens e propostas de cenas dentro desta ampla temática da arte que buscava ser absurdamente real.
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Logo de início, na cena “Respiração Mais”, que acontece do lado de fora do teatro, dois homens de terno e grava colocam-se dentro de dois tanques com água e começam a falar sem parar sobre os perigos de ficar sem ar. O entra e sai de cada um, submergindo e emergindo, não depende deles, mas sim de um terceiro elemento que conta os segundos no relógio e, arbitrariamente, vai dando toques na campainha para indicar as trocas de fala que vão se tornando mais longas até que um dos atores não agüenta e salta fora antes da hora, iniciando uma falação simultânea alucinada que novamente é cortada pela campainha e assim por diante, sempre com intervalos cada vez maiores.
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A respiração é bastante trabalhada nas performances, tendo a água como elemento constante, seja em tanques ou em baldes.
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Catástrofe, a primeira das três peças já listadas, mostra uma diretora manipulando um ator estático sobre um pedestal. Para isso, são utilizados os mais estranhos argumentos e a mulher mantém-se completamente inflexível aos palpites de sua ajudante.
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No Ato sem palavras 2, dois atores, que moram em dois sacos de pano, devem realizar as mesmas tarefas, que fazem alusão ao nosso dia-a-dia, num mesmo período de tempo. A diferença é que um é todo atrapalhado e o outro é organizado. Nenhuma palavra é dita. É impressionante como, no silêncio, a mínima reação do ator cria grande impacto. Depois de cenas onde as palavras jorram, esta silenciosa gera um contrate muito tocante.
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A terceira cena, Jogo, é a mais absurda de todas, se é que é possível afirmar isso. Um homem e duas mulheres estão colocados em caixas, o foco de luz é que indica a intensidade e a vez de cada um. Toda a fala é muito rápida, dita sem pausa, e numa tonalidade constante. Eles contam o caso de um adultério. O texto é dito duas vezes. É impressionante a capacidade que esta cena tem de envolver. As palavras ditas velozmente, as luzes acendendo e apagando, aquelas cabeças se acabando de falar no meio de um palco vazio, é muito engraçado. Eu ri muito!
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O teatro do absurdo também é para isso. Ele tem o intuito de gerar o riso, perante situações que nos fazem refletir sobre nosso ridículo pessoal.
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A performance final, Respiração embolada, mistura o elemento água ao elemento da fala rápida. Todos os atores de todas as cenas anteriores entram no palco e colocam suas cabeças nos baldes. É tocado um ritmo nordestino, meio forró ligeiro, e eles devem manter a cadência constante do canto sem perder o fôlego, voltando constantemente as cabeças para dentro da água. Realmente é uma cena de muita energia. A frase repetida, que eu acabei gravando é: sem som, sem som, só a velha respiração... Esta, além de outras, vai num ritmo crescente até a explosão final, e a peça tem seu fim, depois 1:30 hrs de espetáculo.
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A platéia bateu muita palma. Realmente foi marcante!
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A sensação de estranheza, de desencaixe, aquele olhar meio enviesado para tudo aquilo, era constante.
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Pairava uma questão do porquê de tudo aquilo, um ambiente artificial, contrastado pela veemência com que os atores realizavam seus papéis.
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Era meio estéreo, um sanatório geral estampado na sua frente, num ritmo alucinante, avolumando pedaços de propostas malucas que procuravam esculpir o indizível risível velado de nossas vidas.
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Era o tele-transporte do mundo mais escarrado de terno e gravata para a Ágora teatral numa volúpia irônica que todos os atuantes levavam a sério demais.
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Um ar-condicionado empurrando sua nuca e você numa sala branca sendo acusado por um feto, morto na Revolução Francesa, de ser Napoleão Bonaparte. Você está acuado entre o ar que te lança e o quase humano que te acusa de assassinato, enquanto sua consciência começa a suspeitar da irrealidade como proposta reinante de toda sua vida.
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Uma encenação de Kafka! Seria correto afirmar?!
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Genial!
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Mostrou-me uma velha nova possibilidade de teatralização. Com certeza está entre as melhores peças que já vi na minha vida, junto com Hamlet com Wagner Moura e “Sonho de um homem ridículo” com Celso Frateschi.
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