Um
dos principais livros de Carlos Drummond de Andrade e tido, por alguns, como sua
melhor obra. Obra esta que ajudou a lançar ainda mais o escritor de Itabira no
cenário nacional e, posteriormente, no cenário mundial, já que foi traduzido
para outros idiomas e lançado numa dezena de países.
Não
encerra, mas, facilita este alcance, o estilo de sua poética que não se utiliza
de palavras complexas e por vezes desconhecidas. Além disso, auxilia na
tradução de seus versos, o fato de serem, em sua maioria, livres de rimas,
metrificações e outras características da estética poética que por vezes poderia
entravar o processo de tradução e a posterior aceitação dos pensamentos líricos
de Carlos.
No
entanto, nada disso explica seu amplo sucesso! O poeta não era um facilitador,
sua poesia soa, antes de tudo, legítima!
Drummond
era um homem de pensar profundo, de poemas modernos, por vezes incompreendidos,
mas de poética que foge ao óbvio, à palavra óbvia, à análise comum, ao dizer
que se espera que seja conjugado e expressado por determinados caminhos. Nele
há, constantemente, algo se desdobrando, se refazendo, e saltando para
consecutivas colocações surpreendentes.
Seu
pensamento, ainda que não verborrágico, era assombrosamente fluído e perpassava
com facilidade, pelo menos aparente, por diversos vieses impensados até o
momento de tua pena entrar em vigor.
A
obra é composta de 55 poemas de diversos tamanhos, sobre os mais variados temas
que giram em torno da realidade do mundo àquela época de seu elemento humano.
Publicado em 1945, ano do fim da Segunda Grande Guerra, o conteúdo mostra um
autor atormentado com os rumos da humanidade, mas ainda dotado de uma procura
poética profunda, ainda convicta, apesar de já endurecida e maculada.
O
autor parece sempre buscar a beleza em coisas mínimas, singelas, como na flor,
na sua própria infância, tema bastante recorrente em seu universo criativo.
Além disso, a arte é uma grande paixão, pela qual ele não se abre em amores,
talvez por sua timidez minimamente arrojada. Mas, ela, é sim, sua forma de
salvação e expressão mais profunda, a qual o amadurece sutilmente, mas não sem
dureza, em seu interior resguardado.
Há
poemas narrativos, contanto casos que caberiam perfeitamente numa crônica.
Há
poéticas dotadas de aliterações quase intrínsecas que nos surpreendem por sua
quase não presença.
Há
referências explicitas a elementos de guerra como a Rússia, Stalingrado,
Moscou, a Alemanha, Berlin.
Mas
há muito ainda mais a referência a uma esperança em relação ao povo, daí “A
Rosa do Povo”, uma rosa que nasce rompendo cascas de concreto, de ódio, a casca
bélica, a casca do início da pós-modernidade, ou da pré-pós-modernidade.
Resumindo
todos estes elementos e, acredito que por isso, Drummond escolhe como poesia de
encerramento, uma que fez chamada: “Carta ao homem do povo Charlie Chaplin”
escrita assim mesmo, sem dois pontos, como se este artista acumulasse em si o
protótipo de uma raça na qual o autor brasileiro depositava suas mais profundas
inspirações de um futuro possível.
Já
li este título com hífen, com dois pontos, mas acho que não deva ter, já que no
livro, ao contrário da internet, não tem.
Segue!!!
É grande mais vale muito a pena ler! Uma poesia arrebatadora!!!
Canto ao Homem do Povo Charles Chaplin
I
Era
preciso que um poeta brasileiro,
não
dos maiores, porém dos mais expostos à galhofa,
girando
um pouco em tua atmosfera ou nela aspirando a viver
como
na poética e essencial atmosfera dos sonhos lúcidos,
era
preciso que esse pequeno cantor teimoso,
de
ritmos elementares, vindo da cidadezinha do interior
onde
nem sempre se usa gravatas mas todos são extremamente polidos
e
a opressão é detestada, se bem que o heroísmo se banhe em ironia,
era
preciso que um antigo rapaz de vinte anos,
preso
à tua pantomima por filamentos de ternura e riso dispersos no tempo,
viesse
recompô-los e, homem maduro, te visitasse
para
dizer-te algumas coisas, sobcolor de poema.
Para
dizer-te como os brasileiros te amam
e
que nisso, como em tudo mais, nossa gente se parece
com
qualquer gente do mundo - inclusive os pequenos judeus
de
bengalinha e chapéu-coco, sapatos compridos, olhos melancólicos,
vagabundos
que o mundo repeliu, mas zombam e vivem
nos
filmes, nas ruas tortas com tabuletas: Fábrica, Barbeiro, Polícia,
e
vencem a fome, iludem a brutalidade, prolongam o amor
como
um segredo dito no ouvido de um homem do povo caído na rua.
Bem
sei que o discurso, acalanto burguês, não te envaidece,
e
costumas dormir enquanto os veementes inauguram estátua,
e
entre tantas palavras que como carros percorrem as ruas,
só
as mais humildes, de xingamento ou beijo, te penetram.
Não
é a saudação dos devotos nem dos partidários que te ofereço,
eles
não existem, mas a de homens comuns, numa cidade comum,
nem
faço muita questão da matéria de meu canto ora em torno de ti
como
um ramo de flores absurdas mando por via postal ao inventor dos jardins.
Falam
por mim os que estavam sujos de tristeza e feroz desgosto de tudo,
que
entraram no cinema com a aflição de ratos fugindo da vida,
são
duras horas de anestesia, ouçamos um pouco de música,
visitemos
no escuro as imagens - e te descobriram e salvaram-se.
Falam
por mim os abandonados da justiça, os simples de coração,
os
parias, os falidos, os mutilados, os deficientes, os indecisos, os líricos, os
cismarentos,
os
irresponsáveis, os pueris, os cariciosos, os loucos e os patéticos.
E
falam as flores que tanto amas quando pisadas,
falam
os tocos de vela, que comes na extrema penúria, falam a mesa, os botões,
os
instrumentos do ofício e as mil coisas aparentemente fechadas,
cada
troço, cada objeto do sótão, quanto mais obscuros mais falam.
II
A
noite banha tua roupa.
Mal
a disfarças no colete mosqueado,
no
gelado peitilho de baile,
de
um impossível baile sem orquídeas.
És
condenado ao negro. Tuas calças
confundem-se
com a treva. Teus sapatos
inchados,
no escuro do beco,
são
cogumelos noturnos. A quase cartola,
sol
negro, cobre tudo isto, sem raios.
Assim,
noturno cidadão de uma república
enlutada,
surges a nossos olhos
pessimistas,
que te inspecionam e meditam:
Eis
o tenebroso, o viúvo, o inconsolado,
o
corvo, o nunca-mais, o chegado muito tarde
a
um mundo muito velho.
E
a lua pousa
em
teu rosto. Branco, de morte caiado,
que
sepulcros evoca mas que hastes
submarinas
e álgidas e espelhos
e
lírios que o tirano decepou, e faces
amortalhadas
em farinha. O bigode
negro
cresce em ti como um aviso
e
logo se interrompe. É negro, curto,
espesso.
O rosto branco, de lunar matéria,
face
cortada em lençol, risco na parede,
caderno
de infância, apenas imagem
entretanto
os olhos são profundos e a boca vem de longe,
sozinha,
experiente, calada vem a boca
sorrir,
aurora, para todos.
E
já não sentimos a noite,
e
a morte nos evita, e diminuímos
como
se ao contato de tua bengala mágica voltássemos
ao
país secreto onde dormem os meninos.
Já
não é o escritório e mil fichas,
nem
a garagem, a universidade, o alarme,
é
realmente a rua abolida, lojas repletas,
e
vamos contigo arrebentar vidraças,
e
vamos jogar o guarda no chão,
e
na pessoa humana vamos redescobrir
aquele
lugar - cuidado! - que atrai os pontapés: sentenças
de
uma justiça não oficial.
III
Cheio
de sugestões alimentícias, matas a fome
dos
que não foram chamados à ceia celeste
ou
industrial. Há ossos, há pudins
de
gelatina e cereja e chocolate e nuvens
nas
dobras do teu casaco. Estão guardados
para
uma criança ou um cão. Pois bem conheces
a
importância da comida, o gosto da carne,
o
cheiro da sopa, a maciez amarela da batata,
e
sabes a arte sutil de transformar em macarrão
o
humilde cordão de teus sapatos.
Mais
uma vez jantaste: a vida é boa.
Cabe
um cigarro: e o tiras
da
lata de sardinhas.
Não
há muitos jantares no mundo, já sabias,
e
os mais belos frangos
são
protegidos em pratos chineses por vidros espessos.
Há
sempre o vidro, e não se quebra,
há
o aço, o amianto, a lei,
há
milícias inteiras protegendo o frango,
e
há uma fome que vem do Canadá, um vento,
uma
voz glacial, um sopro de inverno, uma folha
baila
indecisa e pousa em teu ombro: mensagem pálida
que
mal decifras
o
cristal infrangível. Entre a mão e a fome,
os
valos da lei, as léguas. Então te transformas
tu
mesmo no grande frango assado que flutua
sobre
todas as fomes, no ar; frango de ouro
e
chama, comida geral, que tarda.
IV
O
próprio ano novo tarda. E com ele as amadas.
No
festim solitário teus dons se aguçam.
És
espiritual e dançarino e fluido,
mas
ninguém virá aqui saber como amas
com
fervor de diamante e delicadeza de alva,
como,
por tua mão a cabana se faz lua.
Mundo
de neve e sal, de gramofones roucos
urrando
longe o gozo de que não participas.
Mundo
fechado, que aprisiona as amadas
e
todo o desejo, na noite, de comunicação.
Teu
palácio se esvai, lambe-te o sono,
ninguém
te quis, todos possuem,
tudo
buscaste dar, não te tomaram.
Então
encaminhas no gelo e rondas o grito.
Mas
não tens gula de festa, nem orgulho
nem
ferida nem raiva nem malícia.
És
o próprio ano-bom, que te deténs. A casa passa
correndo,
os copos voam,
os
corpos saltam rápido, as amadas
te
procuram na noite... e não te vêem,
tu
pequeno, tu simples, tu qualquer.
Ser
tão sozinho em meio a tantos ombros,
andar
aos mil num corpo só, franzino,
e
ter braços enormes sobre as casas,
ter
um pé em Guerrero e outro no Texas,
falar
assim a chinês a maranhense,
a
russo, a negro: ser um só, de todos,
sem
palavra, sem filtro,
sem
opala:
há
uma cidade em ti, que não sabemos.
V
Uma
cega te ama. Os olhos abrem-se.
Não,
não te ama. Um rico, em álcool,
é
teu amigo e lúcido repele
tua
riqueza. A confusão é nossa, que esquecemos
o
que há de água, de sopro e de inocência
no
fundo de cada um de nós, terrestres. Mas, ó mitos
que
cultuamos, falsos: flores pardas,
anjos
desleais, cofres redondos, arquejos
poéticos
acadêmicos; convenções
do
branco, azul e roxo; maquinismos,
telegramas
em série, e fábricas e fábricas
e
fábricas de lâmpadas, proibições, auroras.
Ficaste
apenas um operário
comandado
pela voz colérica do megafone.
És
parafuso, gesto, esgar.
Recolho
teus pedaços: ainda vibram,
lagarto
mutilado.
Colo
teus pedaços. Unidade
estranha
é a tua, em mundo assim pulverizado.
E
nós, que a cada passo nos cobrimos
e
nos despimos e nos mascaramos,
mal
retemos em ti o mesmo homem,
aprendiz
bombeiro
caixeiro
doceiro
emigrante
forçado
maquinista
noivo
patinador
soldado
músico
peregrino
artista
de circo
marquês
marinheiro
carregador
de piano
apenas
sempre entretanto tu mesmo,
o
que não está de acordo e é meigo,
o
incapaz de propriedade, o pé
errante,
a estrada
fugindo,
o amigo
que
desejaríamos reter
na
chuva, no espelho, na memória
e
todavia perdemos
VI
Já
não penso em ti. Penso no ofício
a
que te entregas. Estranho relojoeiro
cheiras
a peça desmontada: as molas unem-se,
o
tempo anda. És vidraceiro.
Varres
a rua. Não importa
que
o desejo de partir te roa; e a esquina
faça
de ti outro homem; e a lógica
te
afaste de seus frios privilégios.
Há
o trabalho em ti, mas caprichoso,
mas
benigno,
e
dele surgem artes não burguesas,
produtos
de ar e lágrimas, indumentos
que
nos dão asa ou pétalas, e trens
e
navios sem aço, onde os amigos
fazendo
roda viajam pelo tempo,
livros
se animam, quadros se conversam,
e
tudo libertado se resolve
numa
efusão de amor sem paga, e riso, e sol.
O
ofício é o ofício
que
assim te põe no meio de nós todos,
vagabundo
entre dois horários; mão sabida
no
bater, no cortar, no fiar, no rebocar,
o
pé insiste em levar-te pelo mundo,
a
mão pega a ferramenta: é uma navalha,
e
ao compasso de Brahms fazes a barba
neste
salão desmemoriado no centro do mundo oprimido
onde
ao fim de tanto silêncio e oco te recobramos.
Foi
bom que te calasses.
Meditavas
na sombra das chaves,
das
correntes, das roupas riscadas, das cercas de arame,
juntavas
palavras duras, pedras, cimento, bombas, invectivas,
anotavas
com lápis secreto a morte de mil, a boca sangrenta
de
mil, os braços cruzados de mil.
E
nada dizias. E um bolo, um engulho
formando-se.
E as palavras subindo.
Ó
palavras desmoralizadas, entretanto salvas, ditas de novo.
Poder
da voz humana inventando novos vocábulos e dando sopros exaustos.
Dignidade
da boca, aberta em ira justa e amor profundo,
crispação
do ser humano, árvore irritada,
contra
a miséria e a fúria dos ditadores,
ó
Carlito, meu e nosso amigo, teus sapatos e teu bigode
caminham
numa estrada de pó e de esperança.

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