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A crise da cultura na Pós-modernidade
se reflete na música como uma nítida tendência a voltar aos padrões antigos,
traduzidos numa sonoridade que tenta se distanciar do pop vendável, quase de
maneira caricatural.
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Prova disso é o grande destaque e
a ampla aceitação, por parte de um público seleto e de uma grande maioria dos
críticos, de artistas que procuram produzir obras de estética retrô como: Amy
Winehouse, uma precursora desta tendência juntamente com Norah Jones; Jamie
Cullum, numa proposta um pouco mais mesclada; Esperanza Spalding, e seu jazz com
garras femininas; Adele, não por acaso afilhada de Amy; e a mais nova sensação do
universo cultural legitimado pelos intelectuais, o Alabama Shakes que, no próprio
nome, já deixa uma dica da sua proposta: balanços vindos de um dos estados mais
conservadores dos Estados Unidos.
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O interessante é que, como Adele
e sua cintura avantajada, Amy e sua atitude auto-destrutiva que rendeu tristes
fotos desdentadas e descabeladas, e outras quebras de regras a qualquer custo,
a vocalista do Alabama Shakes também se distancia dos ideais de beleza pregados
pela indústria da moda, bem como pela indústria do pop que, não por acaso,
andam de mãos dadas.
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Fico pensando como isso pode soar
estranho, e ainda mais estranho, quando pessoas ditas esclarecidas, modernas,
antenadas e cultas entram neste mesmo esquema de aceitação, necessitando desta
prova de rebeldia para crerem mais nos seus ídolos, ou mesmo para permitirem
que estes artistas se tornem dignos de sua admiração.
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É como se a legitimidade da
atitude só se fizesse convincente quando alguma regra básica, ligada ao ideal
de sucesso contemporâneo, fosse quebrada. É como se uma quebra específica, e
por vezes bizarra, fizesse do personagem, e o pior, de sua própria criação
artística, um conjunto no qual se pode dedicar tempo e sentimento com a certeza
de que não se está sendo enganado por mais um totem midiático que fala de
rebeldia, mas quer somente usufruir do dinheiro e da fama conquistados do seu
público enganado.
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Fico pensando como é triste
chegarmos novamente a esse ponto em que o artista deve ser a negação, não só criativa,
como também física, de uma realidade imposta para muitos. Mas o pior de tudo
não é isso. O que mais me admira é que, muitos destes que os admiram, não
quebram suas próprias vidas, preferindo suplantar seu ideal de rebeldia num ser
distante, mas capaz de conferir a seus admiradores, a sensação de serem participantes
destas manifestações legítimas de seus egos.
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Acredito que este talvez seja um
fato bastante recente.
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Nas décadas passadas, anos 60 e
70, principalmente, não apenas os artistas espelhavam em suas vidas um ideal de
choque geral contra uma sociedade opressora, por vezes ditatorial, ou metida
numa eminência de guerra que abalava o descanso de todo o planeta.
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Nos anos 80, a estética
espalhafatosa, bem como outras vestimentas inspiradas em clipes do Michael Jackson
e Madonna, por exemplo, se manifestaram não só nos palcos, mas também no povo.
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Já nos anos 90, o Grunge tomou
conta da cena, assim como outras modas que desciam dos altos patamares da fama
para o dia-a-dia dos jovens que admiravam e consumiam seus ícones de maneira
mais intensa, pessoal, individual.
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No entanto, após a virada do
século, um grande vazio de rebeldia se alastrou e se legitimou em artistas que
procuravam não mais quebrar, mas resgatar sonoridades antigas como: o jazz, o
funk e o rock feito décadas antes.
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No entanto, esta falta de
novidades sonoras, já que as novidades se espelhavam no passado como forma
possível de dar um passo adiante, acabou dando vazão a uma quebra estética peculiar.
A arte não bastava mais. Fez então necessário um comportamento que sinalizasse na
procura dentro de uma indústria cultural que aprendeu a jogar com as regras, gerando
de maneira milimetricamente planejada o que era considerado cultura de
qualidade, como é o caso da Joss Stone, por exemplo.
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Não que não hajam artistas dos mais
variados tipos e posturas, como sempre existiu, mas o sensacionalismo encima da
perdição de Amy Winehouse, os apoios dados a Adele em suas declarações sobre
não emagrecer e o comportamento da vocalista do Alabama Shakes, faz crer que a necessidade
de quebra, não mais totalmente realizada pela produção artística, refletiu-se
no próprio artista como uma forma de legitimar sua arte e não só complementar
sua criação, como já vindo sendo feito.
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Acredito que isto ainda seja, de
alguma maneira, um reflexo de uma crença secular de que o artista é o avesso
das coisas, o solitário, o problemático, o louco que rebenta maravilhas de uma
realidade dolorosa. Crença esta, vinda dos antigos compositores, escritores e
outros, passando por ícones do jazz, culminando nos desvarios dos anos 70 e as
overdoses constantes, abrandando nos anos 80, intensificado na figura de Kurt
Cobain e adquirindo novas roupagens nos discos sofridos e na subversão, ainda eternamente
legitimadora, das divas dos anos 2000.
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Uma forma de conferir verdade,
quando a mentira aprendeu as regras para se vender.
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O diferente é que, agora, não os
seguimos, não os copiamos, apenas os queremos assim, já que não temos a coragem
de nos expressarmos fora dos padrões, preferindo, portanto, que nossas escolhas
culturais dêem voz às coisas que se calam dentro do peito.
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