quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Últimas resenhas de 2012: Romanceiro da Inconfidência


"Os fantasmas sabiam, certamente, o que queriam dizer; mas o artista deve sempre desconfiar de sua capacidade de entender essas inspirações que se referem a motivos determinados, e contêm uma verdade íntima."

  


Cecília Meireles é uma gigante da nossa poesia e este é, com certeza, uma de suas maiores obras, por muitos caracterizada como: Monumental!

O Romanceiro da Inconfidência é composto por 85 "romances", 4 "cenários" e outras passagens poéticas, compondo um imenso cenário ilustrativo do que se passou no nosso mais famoso movimento separatista: A Inconfidência Mineira.

Ao palestrar em Ouro Preto, antiga Vila Rica, cenário principal desta obra, Cecília, como bem descreve no belíssimo “Como escrevi o "Romanceiro da Inconfidência"” se encanta e se sente incumbida, pelos fantasmas desta passagem trágica da história brasileira, a retratar o acontecido.

Para isso, se dedica por mais de anos na tecelagem de um longo painel literário onde são colocadas considerações líricas sobre personagens e elementos ainda mais antigos, presentes em Minas Gerais, como: Chico Rei, o Contratador Fernandes, Chica da Silva a escrava rainha, até encontrar, pelo encaminhar deste sutil desenrolar cronológico, com a Vila Rica.

Assim dá-se uma nova fase dos romances.

Nesta nova fase, estão ditos sobre: Tiradentes, ou o Alferes, como é chamado, além de outros inconfidentes, Tomás Antônio Gonzaga, Marília de Dirceu, sua amada à qual dedica suas poesias, assim como outras personalidades como Cláudio Manuel da Costa, Bárbara Heliodora, D. Maria I a louca, que era Rainha de Portugal e que, num desatino, deferiu a pena a todos os envolvidos com o exílio, e a Tiradentes com a morte na forca e o esquartejamento.

E assim a narrativa liresca vai engendrando elementos concatenados pelo tempo e que se apresentam sob sua lógica irrefutável!

Os versos são, em sua maioria, metrificados, outros tantos também rimados e dotados de um bom gosto típico da verdadeira alma poética feminina. Algo que Cecília tinha de sobra!

Mas, além do narrado, o aspecto mítico perpetua-se pelos pontos deste arquipélago de ilhas romanescas. Desta maneira, há uma reflexão, como alguns defendem, sobre aspectos mais amplos da humanidade. Nesta proposta interpretativa, Tiradentes seria colocado como um Cristo brasileiro, sofrendo na pele a traição de seus companheiros que se calaram diante do poder instituído, dando ao Brasil o início de uma nova era que culminaria com a Independência.

Sobre este aspecto, é interessante pensar que Inconfidência aconteceu no mesmo ano da Revolução Francesa, 1789, símbolo máximo da luta contra a Monarquia Absolutista, e que, excetuando Tiradentes, 12 foram os seus companheiros, como 12 foram os apóstolos.

Eis aqui um trecho que retirei da Wikipédia, que resume o motivo maior desta obra:

"Construindo com o Romanceiro da Inconfidência um mosaico em que cristalizariam vibrações captadas na terceira margem da memória coletiva, Cecília consolidava uma teia de mitos suscetíveis de fortalecer o sentimento da identidade brasileira" (Uteza, 2006 : p. 294).

Uma passagem histórica de tamanha importância merecia ser retratada com a grandiosidade compatível que só um dos maiores poetas brasileiros, e talvez a maior poetisa nascida neste solo, poderia alcançar.

Segue o último poema e logo depois a lista geral de títulos:


Fala dos inconfidentes mortos

Treva da noite,
lanosa capa
nos ombros curvos
dos altos montes
aglomerados...
Agora, tudo
jaz em silêncio:
amor, inveja,
ódio, inocência,
no imenso tempo
se estão lavando...

Grosso cascalho
da humana vida...
Negros orgulhos,
ingênua audácia,
e fingimentos
e covardias
(e covardias!)
vão dando voltas
no imenso tempo,
- à água implacável
do tempo imenso,
rodando soltos,
com sua rude
miséria exposta...

Parada noite,
suspensa em bruma:
não, não se avistam
os fundos leitos...
Mas, no horizonte
do que é memória
da eternidade,
referve o embate
de antigas horas,
de antigos fatos,
de homens antigos.

E aqui ficamos
todos contritos,
a ouvir na névoa
o desconforme,
submerso curso
dessa torrente
do purgatório...

Quais os que tombam,
em crime exaustos,
quais os que sobem,
purificados?


FIM



Índice:


Parte 1
Fala Inicial
Cenário
Romance 1 ou Da Revelação do Ouro
Romance 2 ou Do Ouro Incansável
Romance 3 ou Do Caçador Feliz
Romance 4 ou Da Donzela Assassinada
Romance 5 ou Da Destruição de Ouro Podre
Romance 6 ou Da Transmutação dos Metais
Romance 7 ou Do Negro nas Catas
Romance 8 ou Do Chico-Rei
Romance 9 ou De Vira-E-Sai
Romance 10 ou Da Donzelinha Pobre
Romance 11 ou Do Punhal e da Flor
Romance 12 ou De Nossa Senhora da Ajuda
Romance 13 ou Do Contratador Fernandes
Romance 14 ou Da Chica da Silva
Romance 15 ou Das Cismas de Chica da Silva
Romance 16 ou Da Traição do Conde
Romance 17 ou Das Lamentações no Tejuco
Romance 18 ou Dos Velhos no Tejuco
Romance 19 ou Dos Maus Presságios

Parte 2
Cenário
Fala à Antiga Vila Rica
Romance 20 ou Do País da Arcádia
Romance 21 ou Das Idéias
Romance 22 ou Do Diamante Extraviado
Romance 23 ou Das Exéquias do Príncipe
Romance 24 ou Da Bandeira da Inconfidência
Romance 25 ou Do Aviso Anônimo
Romance 26 ou Da Semana Santa de 1789
Romance 27 ou Do Animoso Alferes
Romance 28 ou Da Denúncia de Joaquim Silvério
Romance 29 ou das Velhas Piedosas
Romance 30 ou Do Riso dos Tropeiros
Romance 31 ou De Mais Tropeiros
Romance 32 ou Das Pilatas
Romance 33 ou Do Cigano que viu Chegar o Alferes
Romance 34 ou De Joaquim Silvério Romance 35 ou Do Suspiroso Alferes ou D
Romance 36 ou Das Sentinelas
Romance 37 ou D ou De Maio de 1789
Romance 38 ou Do Embuçado
Romance 39 ou De Francisco Antônio
Romance 40 ou Do Alferes Vitoriano
Romance 41 ou Dos Delatores
Romance 42 ou Do Sapateiro Capanema
Romance 43 ou Das Conversas Indignadas
Romance 44 ou Da Testemunha Falsa
Romance 45 ou Do Padre Rolim
Romance 46 ou Do Caixeiro Vicente
Romance 47 ou Dos Seqüestros
Fala aos Pusilânimes

Parte 3
Romance 48 ou Do Jogo de Cartas
Romance 49 ou De Cláudio Manuel da Costa
Romance 50 ou De Inácio Pamplona
Romance 51 ou Das Sentenças
Romance 52 ou Do Carcereiro
Romance 53 ou Das Palavras Aéreas
Romance 54 ou Do Enxoval Interrompido
Romance 55 ou Do Preso Chamado Gonzaga
Romance 56 ou Da Arrematação dos Bens do Alferes
Romance 57 ou Dos Vãos Embargos
Romance 58 ou Da Grande Madrugada
Romance 59 ou Da Reflexão Dos Justos
Romance 60 ou Do Caminho da Forca
Romance 61 ou Dos Domingos do Alferes
Romance 62 ou Do Bêbedo Descrente
Romance 63 ou Do Silêncio do Alferes
Romance 64 ou De Uma Pedra Crisólita

Parte 4
Cenário
Romance 65 ou Dos Maldizentes
Romance 66 ou De Outros Maldizentes
Romance 67 ou Da África do Setecentos
Romance 68 ou De Outro Maio Fatal
Romance 69 ou Do Exílio de Moçambique
Romance 70 ou Do Lenço do Exílio
Romance 71 ou De Juliana de Mascarenhas
Imaginária Serenata Romance 72 ou De Maio no Oriente
Romance 73 ou Da Inconformada Marília
Romance 74 ou Da Rainha Prisioneira
Fala à Comarca do Rio das Mortes
Romance 75 ou De Dona Bárbara Heliodora
Romance 76 ou Do Ouro Fala
Romance 77 ou Da Música de Maria Ifigênia
Romance 78 ou De Um Tal Alvarenga
Romance 79 ou Da Morte de Maria Ifigênia
Romance 80 ou Do Enterro de Bárbara Heliodora

Parte 5
Retrato de Marília em Antônio Dias
Cenário
Romance 81 ou dos Ilustres Assassinos
Romance 82 ou Dos Passeios da Rainha Louca
Romance 83 ou Da Rainha Morta ou D
Romance 84 ou Dos Cavalos da Inconfidência
Romance 85 ou Do Testamento de Marília
Fala aos Inconfidentes Mortos




Nenhum comentário: