quarta-feira, 7 de maio de 2014

Não matei a formiga


I

Não matei.
Não quis matar.

Não fiz fazer.
Não quis querer.
Não tentei tentar.
Não pude poder.

Nunca mais morrer
Neste meu não matar!

II

E foi suave...

Fui suave sofreguidão ponderada,
Ânima-vida pela crueldade aflorada,
Sopro incólume da piedade escarrada
De um fundo futuro ventre
Que em mim renasceu!

Ninguém morreu,
Nem ela, nem eu!

Leve levada pela compaixão levada...

A compaixão perante uma formiga caseira,
Uma mínima pontual inteira,
Pequenina minúscula videira,
Vital insigne companheira
Que se me escolhi não matar.

Em não matando,
Não morri!

Fui formiga.
Eu nela, indo ido,
Vivendo adiante!

No entanto, lembro-me
Do martelo digital no ar desfilante,
Insistindo ao encontro com o ser ignorado
Por este ato de cólera infestado,
Mas, que num pulsar pensado,
O peso ponderado no dedo paralisado
Desfez-se do instante futuro prensado,
Tornando-se oposto recuo apiedado,
Sentimento cardíaco de meu passado,
Há trinta anos em meio peito aconchegado!

E então...

Foi-se aquele ser solitário andante,
Da própria sobre-vida ignorante,
Por entre as migalhas dispersas:
Pedaços de minha suculenta sala,
Vívida em seres fugidos
Deste assassino redimido
Que agora vos fala.

III

Em não matando a formiga,
Ganhei um poema!



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