quinta-feira, 15 de maio de 2014

Os Bandos


O fim de toda moral, a inversão de toda ética segundo a própria vontade do sujeito, a colocação de pequenas estruturas sociais segundo a vontade, ou a má vontade, dos bandos.

Os bandos que tentam gritar nos becos, nos locais podres. Os bandos que tentam impor sua mísera ditadura localizada nos desvãos de uma sociedade estruturalmente doente, que tentam forçar a ordem por meio do apedrejamento das possibilidades, um anarquismo sem fundamento, sem ciência, sem compaixão.

Qualquer possibilidade deve ser posta abaixo, menos aquela na qual o bando costuma acreditar. E os bandos acreditam por pouco tempo, por quase nenhum tempo sequer. Os bandos não acreditam em absolutamente nada, a não ser na não crença em todas as coisas, em todas as formas de governança, de filosofia ou de arte que se levanta um pouco acima da invisibilidade absoluta.

Os bandos não querem a arte, não querem as ruas para todos, não querem o mundo aberto. Querem, sim, o mundo arrasado, o mundo implodido, para que possam usufruir dos destroços e ver que todos estão submissos a ordem da desordem completa, pela qual eles tanto lutam, sem nem mesmo lutar de verdade.

Os bandos lutam pela luta. Brigam pela briga. Gritam pelo grito. Batem por bater. Quebram pela quebra. Fazem por fazer. Tentam sem tentar.

Os bandos não se unem. Os bandos não se traduzem, para eles próprios, algo mais profundo, algo que possa perdurar além do aglomerado instantâneo que vai como vem, como nunca foi. Os bandos não tentam registrarem-se nos meios em que vivem. Registram-se pelo não registro, pela não feitura de nada. Os bandos não querem nada. Não ocupam espaços com consistência, não dão a cara a tapa. Dão, sim, suas máscaras a tapa. Escondem suas faces no escuro, no escudo, no capuz, na fumaça, na invasão, na bandalheira, na bandidagem, no apedrejamento do que não faz sentido.

Os bandos se escondem, querendo ser enxergados de maneira covarde. Vistos como corpos amórficos dotados de diversos seres incompletos, que se pulverizam em correrias pelos centros das capitais, pelas vielas mais esquivas, pelos caminhos mais improváveis.

Os bandos querem que a mídia os queira. Querem que não pareça que eles querem que a mídia esteja encima deles. Querem desviar suas caras das câmeras sorrateiramente, para que apareçam sem seres reconhecidos. Não deixam transparecer sua vontade de espaço, de fama, de aplauso. Exercitam as vontade de arruaça, de baderna, de pirraça, de vilania.

Os bandos são fracos, ainda que aos milhares. Não gritam em uníssono. Fazem estardalhaço em qualquer momento, perdem sua moral, perdem seus ouvidos. Fazem com que os outros deixem de quererem ouvi-los. Os bandos subestimam a história, a democracia, as ciências políticas, os sábios e filósofos, a República, Platão, Marx, Nietzsche, Foucault e tantos outros.

Os bandos não têm a capacidade de ver a capacidade de construção de outras mentes. Estão cercados pelas suas próprias incapacidades de verem mais adiante, de seguirem alguma linha de conhecimento, de pensarem por caminhos já pensados, ponderados e testados.

Os bandos acreditam na utopia do pesadelo. Na posse do vácuo. No lugar dos totalmente perdidos. Na colocação dos irrisórios. Na vitrine dos invisíveis. No campo das impossibilidades. Na tentativa dos que já perderam. Na semeadura das pragas. Na construção dos que cedem sem saber. Na propriedade dos destroços. Os bandos não se acreditam.

Eles não acreditam no tempo, na razão, na macro-estrutura. Tudo deve se voltar a eles. Tudo deve se voltar ao nada que eles creem, que eles querem crer, que eles fazem parecer, que eles deixam não transparecer em suas faces de olhares arredios, nas suas faces de não olhares, nas suas não faces, no seu nada, nunca, em tempo ou lugar nenhum, jamais!

Tudo está perdido e é assim que desejam que o mundo fique, pois assim estaremos todos nas mesmas condições de suas mentes. Os bandos não existem realmente.

Os bandos são carentes de governo, são carentes de serem gente. Os bandos são carentes de carinho, de lar, de voz, de vez, de personalidade. São carentes de educação, de perspectiva, de emprego, de moradia, de crenças, de espiritualidade, de Deus e de paz. São carentes de colo, de família, de amor, de mundo. São carentes de si. Eles não se pertencem e assim seguem.

Os bandos simplesmente perpetuam o vácuo sem lugar, o vácuo da deturpação de qualquer tentativa de construção. O vácuo da ilusão de que qualquer coisa dita é expressão respeitável, simplesmente por parecer legítima e sincera aqueles que a realizam, não realizando nada de verdade.

Burlar a lei, reverter as tentativas de algo mais, fazer da lei da destruição a maior das leis obsessivas de um conjunto de mentes quaisquer. A não mentalidade, a não arte, o não mundo, o não espaço, a não expressão. O nada, nascido do nada, feito de nada, colocado ao nada, para ninguém, e assim, jamais deixar perpetuar, nem nunca existir. Nem nunca deixar acontecer. 

Os bandos, em verdade verdadeira, são muito infelizes!


Destruição de uma arte de rua.


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