outro-me
.
fui assaltado por um homem vestido de terno e gravata um dia qualquer na cidade em que vivo a quase duas décadas
.
andando pela rua à toa ele me olhou com cara de quem sabia como moldar o olhar a ponto de me fazer crer que teu olhar não estava montado
.
este olhar este homem me olhou com tanta presença e com tanta vivacidade como se não existisse um vidro entre nós
.
havia ambição e possibilidades de concretizá-la
.
seus lábios de repente começaram a balbuciar coisas que eu não entendi mas que mesmo assim de alguma maneira me tocavam
.
suas frases se fizeram vivas e condizentes com algum tipo de verdade que ainda restava dentro de mim e que se apresentavam como forma de deleite mundano
.
e a partir deste ponto por sentir que eu entregue estava ele iniciou suas injúrias mais profundas disfarçadas de alguma bendita frase feita que ainda não tinha sido feita por outro senão ele mesmo
.
inventava-me a seu bel-prazer
.
um homem de sagaz criatividade carisma e inventividade de si mesmo que estavam de acordo com os parâmetros de consciência aos quais ele chegou ao longo dos dias em que viveu
.
e eu caí
.
dei meu mais sincero sorriso acreditei nas tuas palavras e me aproximei para melhor entender
.
no entanto quando bem próximo estava e depois de dar-lhe minha mão para seu cumprimento ele me puxou para dentro do vidro onde se encontrava e colocou se para fora tornando ele então a minha versão macro existencial do que eu represento e sou para o todo de uma sociedade
.
tornou-se ele o protagonista e roubou de mim meu próprio encontro comigo
.
levara para bem longe minhas convicções amainando a inquietude de mundo em latência construtiva
.
tornou-se ele uma representação maior e mais poderosa do que eu sou dentro do conjunto de todos nós
.
senti-me traído e indefeso porém neste momento agora preso eu simplesmente podia sorrir na esperança de que alguém não prisioneiro pudesse me olhar abrir o vidro da daquela esfera inócua em que fora capturado e me retirasse para fora de volta à vida
.
ninguém o fez
.
cá estou desde então estático enquanto o homem de terno e gravata perambula por minha rotina matando cotidianamente o artista que em mim um dia pulsou

Nenhum comentário:
Postar um comentário