"Os
fantasmas sabiam, certamente, o que queriam dizer; mas o artista deve sempre
desconfiar de sua capacidade de entender essas inspirações que se referem a
motivos determinados, e contêm uma verdade íntima."
Cecília
Meireles é uma gigante da nossa poesia e este é, com certeza, uma de suas
maiores obras, por muitos caracterizada como: Monumental!
O
Romanceiro da Inconfidência é composto por 85 "romances", 4
"cenários" e outras passagens poéticas, compondo um imenso cenário
ilustrativo do que se passou no nosso mais famoso movimento separatista: A
Inconfidência Mineira.
Ao
palestrar em Ouro Preto, antiga Vila Rica, cenário principal desta obra,
Cecília, como bem descreve no belíssimo “Como escrevi o "Romanceiro da
Inconfidência"” se encanta e se sente incumbida, pelos fantasmas desta
passagem trágica da história brasileira, a retratar o acontecido.
Para
isso, se dedica por mais de anos na tecelagem de um longo painel literário onde
são colocadas considerações líricas sobre personagens e elementos ainda mais
antigos, presentes em Minas Gerais, como: Chico Rei, o Contratador Fernandes,
Chica da Silva a escrava rainha, até encontrar, pelo encaminhar deste sutil
desenrolar cronológico, com a Vila Rica.
Assim
dá-se uma nova fase dos romances.
Nesta
nova fase, estão ditos sobre: Tiradentes, ou o Alferes, como é chamado, além de
outros inconfidentes, Tomás Antônio Gonzaga, Marília de Dirceu, sua amada à
qual dedica suas poesias, assim como outras personalidades como Cláudio Manuel
da Costa, Bárbara Heliodora, D. Maria I a louca, que era Rainha de Portugal e
que, num desatino, deferiu a pena a todos os envolvidos com o exílio, e a
Tiradentes com a morte na forca e o esquartejamento.
E
assim a narrativa liresca vai engendrando elementos concatenados pelo tempo e
que se apresentam sob sua lógica irrefutável!
Os
versos são, em sua maioria, metrificados, outros tantos também rimados e
dotados de um bom gosto típico da verdadeira alma poética feminina. Algo que
Cecília tinha de sobra!
Mas,
além do narrado, o aspecto mítico perpetua-se pelos pontos deste arquipélago de
ilhas romanescas. Desta maneira, há uma reflexão, como alguns defendem, sobre
aspectos mais amplos da humanidade. Nesta proposta interpretativa, Tiradentes
seria colocado como um Cristo brasileiro, sofrendo na pele a traição de seus
companheiros que se calaram diante do poder instituído, dando ao Brasil o
início de uma nova era que culminaria com a Independência.
Sobre
este aspecto, é interessante pensar que Inconfidência aconteceu no mesmo ano da
Revolução Francesa, 1789, símbolo máximo da luta contra a Monarquia
Absolutista, e que, excetuando Tiradentes, 12 foram os seus companheiros, como
12 foram os apóstolos.
Eis
aqui um trecho que retirei da Wikipédia, que resume o motivo maior desta obra:
"Construindo
com o Romanceiro da Inconfidência um mosaico em que cristalizariam vibrações
captadas na terceira margem da memória coletiva, Cecília consolidava uma teia
de mitos suscetíveis de fortalecer o sentimento da identidade brasileira" (Uteza,
2006 : p. 294).
Uma
passagem histórica de tamanha importância merecia ser retratada com a
grandiosidade compatível que só um dos maiores poetas brasileiros, e talvez a
maior poetisa nascida neste solo, poderia alcançar.
Segue
o último poema e logo depois a lista geral de títulos:
Fala dos inconfidentes mortos
Treva
da noite,
lanosa
capa
nos
ombros curvos
dos
altos montes
aglomerados...
Agora,
tudo
jaz
em silêncio:
amor,
inveja,
ódio,
inocência,
no
imenso tempo
se
estão lavando...
Grosso
cascalho
da
humana vida...
Negros
orgulhos,
ingênua
audácia,
e
fingimentos
e
covardias
(e
covardias!)
vão
dando voltas
no
imenso tempo,
-
à água implacável
do
tempo imenso,
rodando
soltos,
com
sua rude
miséria
exposta...
Parada
noite,
suspensa
em bruma:
não,
não se avistam
os
fundos leitos...
Mas,
no horizonte
do
que é memória
da
eternidade,
referve
o embate
de
antigas horas,
de
antigos fatos,
de
homens antigos.
E
aqui ficamos
todos
contritos,
a
ouvir na névoa
o
desconforme,
submerso
curso
dessa
torrente
do
purgatório...
Quais
os que tombam,
em
crime exaustos,
quais
os que sobem,
purificados?
FIM
Índice:
Parte
1
Fala
Inicial
Cenário
Romance
1 ou Da Revelação do Ouro
Romance
2 ou Do Ouro Incansável
Romance
3 ou Do Caçador Feliz
Romance
4 ou Da Donzela Assassinada
Romance
5 ou Da Destruição de Ouro Podre
Romance
6 ou Da Transmutação dos Metais
Romance
7 ou Do Negro nas Catas
Romance
8 ou Do Chico-Rei
Romance
9 ou De Vira-E-Sai
Romance
10 ou Da Donzelinha Pobre
Romance
11 ou Do Punhal e da Flor
Romance
12 ou De Nossa Senhora da Ajuda
Romance
13 ou Do Contratador Fernandes
Romance
14 ou Da Chica da Silva
Romance
15 ou Das Cismas de Chica da Silva
Romance
16 ou Da Traição do Conde
Romance
17 ou Das Lamentações no Tejuco
Romance
18 ou Dos Velhos no Tejuco
Romance
19 ou Dos Maus Presságios
Parte
2
Cenário
Fala
à Antiga Vila Rica
Romance
20 ou Do País da Arcádia
Romance
21 ou Das Idéias
Romance
22 ou Do Diamante Extraviado
Romance
23 ou Das Exéquias do Príncipe
Romance
24 ou Da Bandeira da Inconfidência
Romance
25 ou Do Aviso Anônimo
Romance
26 ou Da Semana Santa de 1789
Romance
27 ou Do Animoso Alferes
Romance
28 ou Da Denúncia de Joaquim Silvério
Romance
29 ou das Velhas Piedosas
Romance
30 ou Do Riso dos Tropeiros
Romance
31 ou De Mais Tropeiros
Romance
32 ou Das Pilatas
Romance
33 ou Do Cigano que viu Chegar o Alferes
Romance
34 ou De Joaquim Silvério Romance 35 ou Do Suspiroso Alferes ou D
Romance
36 ou Das Sentinelas
Romance
37 ou D ou De Maio de 1789
Romance
38 ou Do Embuçado
Romance
39 ou De Francisco Antônio
Romance
40 ou Do Alferes Vitoriano
Romance
41 ou Dos Delatores
Romance
42 ou Do Sapateiro Capanema
Romance
43 ou Das Conversas Indignadas
Romance
44 ou Da Testemunha Falsa
Romance
45 ou Do Padre Rolim
Romance
46 ou Do Caixeiro Vicente
Romance
47 ou Dos Seqüestros
Fala
aos Pusilânimes
Parte
3
Romance
48 ou Do Jogo de Cartas
Romance
49 ou De Cláudio Manuel da Costa
Romance
50 ou De Inácio Pamplona
Romance
51 ou Das Sentenças
Romance
52 ou Do Carcereiro
Romance
53 ou Das Palavras Aéreas
Romance
54 ou Do Enxoval Interrompido
Romance
55 ou Do Preso Chamado Gonzaga
Romance
56 ou Da Arrematação dos Bens do Alferes
Romance
57 ou Dos Vãos Embargos
Romance
58 ou Da Grande Madrugada
Romance
59 ou Da Reflexão Dos Justos
Romance
60 ou Do Caminho da Forca
Romance
61 ou Dos Domingos do Alferes
Romance
62 ou Do Bêbedo Descrente
Romance
63 ou Do Silêncio do Alferes
Romance
64 ou De Uma Pedra Crisólita
Parte
4
Cenário
Romance
65 ou Dos Maldizentes
Romance
66 ou De Outros Maldizentes
Romance
67 ou Da África do Setecentos
Romance
68 ou De Outro Maio Fatal
Romance
69 ou Do Exílio de Moçambique
Romance
70 ou Do Lenço do Exílio
Romance
71 ou De Juliana de Mascarenhas
Imaginária
Serenata Romance 72 ou De Maio no Oriente
Romance
73 ou Da Inconformada Marília
Romance
74 ou Da Rainha Prisioneira
Fala
à Comarca do Rio das Mortes
Romance
75 ou De Dona Bárbara Heliodora
Romance
76 ou Do Ouro Fala
Romance
77 ou Da Música de Maria Ifigênia
Romance
78 ou De Um Tal Alvarenga
Romance
79 ou Da Morte de Maria Ifigênia
Romance
80 ou Do Enterro de Bárbara Heliodora
Parte
5
Retrato
de Marília em Antônio Dias
Cenário
Romance
81 ou dos Ilustres Assassinos
Romance
82 ou Dos Passeios da Rainha Louca
Romance
83 ou Da Rainha Morta ou D
Romance
84 ou Dos Cavalos da Inconfidência
Romance
85 ou Do Testamento de Marília
Fala
aos Inconfidentes Mortos








