quarta-feira, 15 de maio de 2013

O sonho de Wadjda




O primeiro longa-metragem dirigido por uma mulher muçulmana.

Só isso já seria um tremendo trunfo para este filme!

Mas ele vai além!

É de uma sensibilidade tremenda, com um roteiro que explora bem o que o não-dito é capaz de dizer, a atuação concentrada, natural. Além disso, é um filme bastante corajoso, pois retrata as injustiças sofridas pela mulheres muçulmanas, de diversas idades e por diversos motivos.

O filme de passa em Riade, capital da Arábia Saudita.


Wadjda é uma menina a frente de seu tempo! Ela deseja comprar uma bicicleta para poder disputar uma corrida com seu amigo, o menino Abdallah. Mas as bicicletas são proibidas para meninas, pois, como alguns dizem, podem esterilizá-las e assim elas não conseguirão ter um marido.

Já a mãe de Wadjda é abandonada pelo pai, pois não consegue lhe dar um descendente homem e assim tem na menina sua única esperança de felicidade.


O filme segue retratando as armações de Wadjda para conseguir o brinquedo, enquanto mostra também os esforços de sua mãe para conseguir reconquistar seu marido.

O final é trágico em alguns sentidos e vitorioso em outros!


A cena das duas, mãe e filha, abraçadas e os fogos de artifício subindo ao fundo é maravilhosa, de um significado profundo, principalmente sabendo de onde vêm aqueles fogos e também pelo fato de estarmos falando do retrato de uma parte do mundo tão cruel com o sexo feminino!

Há também a cena final, silenciosa, sem palavras, emocionante, retratando o fruto do singelo amor de duas crianças, e ainda a força de uma menina que tanto lutou. Foca-se somente no olhar de Wadjda observando, com brilho, uma avenida movimentada, deixando para nós a tarefa de pensar o que poderia ela estar pensando, o que estaria a sonhar, qual a sensação de vitória ou de algum temor que possa vir a lhe ocorrer, devido a oposição do mundo no qual vive e seus anseios que estão a frente da sociedade daquele local.



PRÊMIOS
- Em 2012, ganhou os prêmios CinemAwenire, o Interfilm e o C.I.C.A.E. no Festival de Veneza

FICHA TÉCNICA
Diretor: Haifaa Al-Mansour
Elenco: Reem Abdullah, Waad Mohammed, Abdullrahman Al Gohani, Ahd, Sultan Al Assaf, Dana Abdullilah, Rehab Ahmed, Rafa Al Sanea, Mohammed Albahry, Mariam Alghamdi, Ali Algorbani, Sara Aljaber, Mohammed Alkhozain, Maram Alkohzaim, Mariam Alkohzaim, Ibrahim Almozael, Saud Alotibi, Faoziah Alyaaqop, Noura Faisal, Sami Hazim, Talal Loay, Ahmad Noman, Saud Olojayvan, Nouf Saad, Alanoud Sajini, Dima Sajini, Tahany Yusef, Mohammed Zahir
Produção: Gerhard Meixner, Roman Paul
Roteiro: Haifaa Al-Mansour
Fotografia: Lutz Reitemeier
Trilha Sonora: Max Richter
Duração: 97 min.
Ano: 2012
País: Arábia Saudita, Alemanha
Gênero: Drama
Cor: Colorido
Distribuidora: Imovision
Estúdio: Norddeutscher Rundfunk (NDR) / Bayerischer Rundfunk / Highlook Communications Group / Razor Film Produktion GmbH / Rotana Studios
Classificação: Livre



A diretora e a protagonista!!!

O Quarteto


Um filme divertido e ao mesmo tempo profundo! Não estas características se excluam...

Dois senhores e uma senhora, cantores de ópera aposentados, vivem num asilo para profissionais da música clássica que já não estão mais em atividade. Eles foram famosos pela qualidade de suas apresentações, e agora têm de se resignar ao fato de não possuírem mais os mesmo aparelhos vocais que os levaram a ser aplaudidos por multidões.

Todo ano, os moradores deste local fazem uma apresentação a fim de arrecadar fundos para a casa.

O trio, citado acima, é surpreendido pela chegada de Jean Horton, interpretada pela atriz Maggie Smith, que passa por dificuldades, apesar de ter sido uma das maiores sopranos de seu tempo.

Para piorar a situação, ela já foi casada com um dos senhores citados, e ambos ainda nutrem algum sentimento que não fora resolvido a seu tempo.

No desenrolar da estória, um dos três tem a idéia de fazer a apresentação do quarteto gravado por eles, há bastante tempo, e que alcançara tremendo sucesso com a gravação.

O problema está em convencer e treinar a traumatizada Jean Horton até a data da realização do concerto, que atrairia pessoas importantes das artes e da política do país.

As sessões de ensaios são hilárias. As figuras dos senhores e senhoras já idosos, vivendo seus últimos dias em meio aos amigos, cantado suas memórias, seu passado glorioso, desfrutando dos últimos dias, com delícia, nostalgia e pitadas de bom humor, é deveras encantador!

Um filme delicioso e baseado em fatos reais!!!

E no fim, enquanto são passadas a fotos das pessoas que deram origem aos personagens, desenrola-se ao fundo o tal quarteto vocal, de Mozart, acho... Muito bonito!!!


PRÊMIOS
- Em 2013, indicado ao Globo de Ouro de Melhor Atriz - Comédia ou Musical (Maggie Smith)

FICHA TÉCNICA
Diretor: Dustin Hoffman
Elenco: Billy Connolly, Maggie Smith, Michael Gambon, Sheridan Smith, Pauline Collins, Tom Courtenay, Jumayn Hunter, Luke Newberry, Trevor Peacock, David Ryall, Michael Volpe, Eline Powell, Sarah Crowden, Denis Khoroshko, Shola Adewusi, Kent Olesen, Patricia Loveland, Dame Gwyneth Jones, Colin Bradbury, Ronnie Fox
Produção: Finola Dwyer, Stewart Mackinnon
Roteiro: Ronald Harwood
Fotografia: John de Borman
Trilha Sonora: Dario Marianelli
Duração: 100 min.
Ano: 2012
País: Reino Unido
Gênero: Comédia
Cor: Colorido
Distribuidora: Diamond Films
Classificação: 12 anos




Antologia Poética – Fernando Pessoa


Tudo que vem de Fernando Pessoa tem alguma força diferente. Os mais simples poemas deste grande escritor, esquecido em vida, imortalizado pela partida, possuem uma capacidade tocante tremenda, por menor que seja, por mais simples, com ou sem rimas, com ou sem métrica, sobre qualquer assunto que ela tenha se debruçado.

Fernando Pessoa tinha a varinha da literatura diferenciada!

E aqui se mostrou nesta pequena antologia poética, composta de:

 - 19 conjuntos, que englobam poemas de diversos tamanhos, assinados por ele mesmo.

 - 12 conjuntos assinado por Alberto Caeiro, inclusive partes do belíssimo “O Guardador de Rebanhos” onde o autor consegue uma simplicidade de escrita que se faz forte e comovente pela criatividade, pela riqueza de temas, ritmo de apresentação de idéias e, principalmente, pela forma como ele consegue fazer coerente uma personalidade tão diversa daquela que ele era em sua essência mais profunda. Afinal, Fernando Pessoa estava longe de ser um homem de mente simplificada e prática!

 - Álvaro de Campos assina outros 10 conjuntos, dentre eles o famoso “Tabacaria” e o “Poema em Linha Reta”.

 - E por fim, Ricardo Reis apresenta outros 10 conjuntos de Odes, entre eles o que se inicia com “Mestre são plácidas...” e outro famoso que começa com: “Para ser grande, sê inteiro: nada...”.

Um poeta que se profissionalizou solitariamente no ofício dos versos e das palavras, num ciclo de auto-didatação, vislumbrando os caminhos traduzíveis pelos homens e seus verbos: seus versos.




terça-feira, 30 de abril de 2013

O lado bom da vida



O personagem principal, Pat Solatano, interpretado por Bradley Cooper, tem que voltar a viver com seus pais após passar oito meses preso. Ele, um homem meio descontrolado, tem que manter distância de sua mulher, apesar de querer reestruturar sua vida ao lado dela.

Pat, nesta tentativa de se aproximar de sua ex, conhece a corajosa e doida Tiffany (Jennifer Lawrence). Ela está, aparentemente, disposta a ajudar Pat, desde que ele também a ajude num concurso de dança.

Daí se desenrola uma comédia, com pontos dramáticos, onde são retratados conflitos bastante contemporâneos de seres que não se encaixam, ou quando se encaixam não se acham, ou até mesmo não querem se encaixar e são marginalizados.

É uma estória de pessoas renegadas que se juntam e encontram o amor onde não esperavam haver.

Divertidíssimo! Aliás, uma comédia que é indicada aos Oscars de:

- Melhor filme
- Diretor: David O. Russell
- Roteiro adaptado: David O. Russell
- Ator: Bradley Cooper
- Atriz: Jennifer Lawrence
- Ator coadjuvante: Robert De Niro
- Atriz coadjuvante: Jacki Weaver
- Edição: Jay Cassidy e Crispin Struthers

não pode ser ruim! Pode até não ser uma grande maravilha, mas entendiante, muito provavelmente não.

Nota-se que não são Oscars técnicos. É um filme bem dirigido, cru, de atuações e climas intensos conseguidos sem grandes recursos tecnológicos.

É isso que dá o tom da obra!

Quatro atores com indicações ao Oscar, fato um pouco raro de acontecer, sendo que Jennifer Lawrence ganhou o de melhor atriz. A película é direta, bem colocada, com piadas bem contadas, cenas bem montadas, situações inusitadas, corriqueiras, banais, cotidianas de uma família norte-americana quase “normal”.


PRÊMIOS
- Em 2013, ganhou o Oscar de Melhor Atriz (Jennifer Lawrence). Também foi indicado a Melhor Filme, Diretor, Ator (Bradley Cooper), Ator Coadjuvante (Robert De Niro), Atriz Coadjuvante (Jacki Weaver), Roteiro Adaptado e Edição

- Em 2013, ganhou o Globo de Ouro de Melhor Atriz - Comédia ou Musical (Jennifer Lawrence)

- Em 2013, ganhou o SAG Award de Melhor Atriz (Jennifer Lawrence)


FICHA TÉCNICA
Diretor: David O. Russell
Elenco: Jennifer Lawrence, Robert De Niro, Bradley Cooper, Julia Stiles, Chris Tucker, Shea Whigham, Dash Mihok, John Ortiz, Anupam Kher, Jacki Weaver, Montana Marks, Bonnie Aarons, Romina, Jessica Czop, Paul Herman, Matthew James Gulbranson, Jeni Miller, Luisa Diaz, Patrick McDade, Brea Bee, Vaughn Goland, Thomas Walton, Jen Weissenberg, Regency Boies, Tiffany E. Green, Marty Krzywonos, Todd Anthony, Cindy Engle, Kirk Kelly, Samantha Gelnaw, Ryan Tygh, Jade Froeder, Volieda Webb, Mihir Pathak, Rick Foster, Susanne Sulby, Phillip Chorba, Richard Clabo, Nikki Corinne, Richard Adams, Cheryl Williams, Rick Russo, John G. England IV, Jerry Perna, Robert Bizik, Alan Davis, Tom Delconte, Debra Efre, Liam Ferguson, Shawn Gonzalez, Cody C. J. Greene, Jae Greene, Andrea Havens, Ian Jarrell, Dennis Jeantet, Benjamin Kerr, JaQuinley Kerr, David Kneeream, Michael J. Kraycik, Tom Leonard, Raymond Mamrak, Erica Lynne Marszalek, Carol Anne Mueller, Jason Mullen, Luis Pacheco, Charles Pendelton, Pete Postiglione, Chuck Rayner, Vincent Riviezzo, Sherri X. Russo, Michelle Santiago, Ryan Shank, Kenny Shapiro, Rita Soto, Will Souders
Produção: Bruce Cohen, Donna Gigliott, Jonathan Gordon
Roteiro: David O. Russell, baseado na obra de Matthew Quick
Fotografia: Masanobu Takayanagi
Trilha Sonora: Danny Elfman
Duração: 122 min.
Ano: 2012
País: EUA
Gênero: Drama
Cor: Colorido
Distribuidora: Paris Filmes
Estúdio: Mirage Enterprises / The Weinstein Company
Classificação: 14 anos

O Beco dos Gatos



Peça da qual faço parte.

Uma trupe de três gatos: Penélope (Daniela Mota), Edgar (Maurício Colantoni) e Mortadela (Lucas Lentini), vivem num beco junto com Seu Zé (Vitor Meneghetti), um homem já velho que entende a língua dos bichanos e traz comida para eles.

Certo dia, eles recebem a visita de uma nova gatinha vinda do interior, Socorro (Leila Bass), que resolve se mudar pra a cidade para ficar mais culta, ou, como ela mesmo diz: currrrta.

O conflito se instaura quando homens chegam e vistoriam o beco, pois pretendem construir ali um prédio. Os gatinhos não entendem o que os homens disseram, mas vendo a tristeza do Seu Zé, resolvem fazer uma peça de teatro para alegrá-lo. Para isso eles precisam de um diretor, que é quando eu entro em cena.

Meu personagem é um músico marginal que toca piano nas ruas e ensaia neste beco. Ao ver que os gatos precisam de uma solução para a peça, ele apresenta as partituras de uma musical e ensaia a gataria, sem deixar de lado Seu Zé, que neste ponto vai se saber que foi um ex-cantor de ópera muito famoso, capaz de atingir notas agudíssimas.

Enquanto todos estão apresentando o musical, novamente o conflito se instaura com a nova visita dos homens de negócios. Então Seu Zé explica a seus amigos humanos e animais o que está acontecendo e eles saem do beco tristonhos, cantando o principal tema musical da peça.

Nisso dá o grande milagre que só a arte das fábulas mágicas pode permitir. E daí por diante, não vou mais contar, pra não estragar o desfecho.

“ - Veja, nós temos público!”

É sempre emocionante, este que é o momento alto da peça, onde tudo faz sentido!

Tem muita música animada e melodiosa, jazz, samba, balada, rock, valsa, blues, interferências sonoras, trilhas compostas por mim, outras pelo diretor musical Adilson Rodrigues, há também paródias feitas por Vitor Meneguetti e ainda outras compostas por Maurício Colantoni. O texto é de Lívia Gaudencio, com grandes modificações livres feitas ao longo dos ensaios. A direção é de Juliano Barone, a preparação corporal foi feita por Bruna Longo, além das coreografias que ela ajudou a formular, juntamente com Daniela Mota e Leila Bass.

Enfim, uma grande criação coletiva que emocionou bastante todos os espectadores que nos viram até hoje. Uma apresentação que fala para as crianças, de todas as idades, de maneira direta, não infantilesca, numa linguagem ágil, inteligente e moderna!

E, pra mim, uma gostosa experiência com uma equipe muito bacana!!!



No – Adeus senhor Pinochet



Baseado na história real de um plebiscito realizado no Chile no ano de 1988, onde a insatisfação da população com o ditador estava incomodando a comunidade internacional. Para amenizar as revoltas, o governo propõe uma votação aberta a todos, onde os chilenos deveriam votar Sim (caso defendessem a permanência de Pinochet) e Não (caso quisessem o ditador fora do poder)

Nisso entra em cena René Saavedra, interpretado por Gael Garcia Bernal. René é um exilado que está de volta ao Chile, trabalha em campanhas publicitárias e é chamado para fazer parte da equipe do Não, daí o nome: No

Para isso ele tem que enfrentar seu próprio chefe, que pede que ele se cale, e o próprio governo que, percebendo ser ele um dos cabeças, começa a pressioná-lo, espionando-o. Paralelo a isso, ele tem que lidar com o fato de estar separado da mulher e seu filho ser um dos possíveis alvos dos militares.

A campanha vai se desenvolvendo, enquanto é também mostrado o universo criativo dos publicitários, suas reuniões por vezes improdutivas, as discussões vagas de idéias sem fundamentos, onde se leva em consideração somente a intuição dos criadores. Neste processo, dá-se a construção do conceito modernista que os defensores do Não pretendem levar à televisão estatal, retratando sua estética inovadora no tempo de campanha destinado àqueles que defendem a saída do ditador.

Achei um filme com mensagens bastante sutis. O personagem principal mostra ter uma insatisfação com sua profissão, pois sabe dos jogos de interesses e de quantas inverdades maquiadas são colocadas à população por meio da publicidade que ele mesmo realiza.

A campanha do Não é um hiato em sua rotina, onde ele pôde realizar, usando as ferramentas da propaganda, algo que realmente daria frutos mais nobres.

Ao fim, ele retorna a sua rotina, mostrando novamente a construção artística medíocre que rodeia algumas campanhas publicitárias.


Duração: 115 minutos
Estilo: Drama, Ficção
Direção: Pablo Larraín
Roteiro: Pedro PeiranoElenco:
Alfredo Castro (Lucho Guzmán)
Antonia Zegers (Verónica)
Diego Muñoz
Gael García Bernal (René Saavedra)
Produtores: Daniel Marc Dreifuss, Diego Luna entre outros.
Países de Origem: Chile
Estréia Mundial: 2012
Estréia Brasil: 21 de Dezembro de 2012


Itaema



Mais um livro de Benita Carneiro que tomo contato este ano. Uma boa surpresa que a própria poeta me emprestou!

Um livro de poesias maduras, de metáforas intrincadas, onde ela leva a pontos mais altos uma característica que já vi presente em outras de suas obras: o Animismo ou Personificação, onde objetos inanimados ganham vida e tomam características próprias dos humanos. Há também a Zoomorfização, que é quando animais realizam coisas que cabem aos homens. Nesta obra estas são recursos constantes. O universo escrito cresce de tamanho, justamente por esta quantidade de personagens de diversos tipos, animados e inanimados, pessoas e não-pessoas que vão passando pelos episódios vividos por Benita.

É também um livro que retrata Itanhandu de antigamente com mais detalhes. Lá estão várias passagens da cidade como: as festas da Santa Casa, a frustrante promessa de um presidente que por lá passaria, carnavais, encontros culturais no CRI (Clube Literário e Recreativo de Itanhandu), descrições do comércio local, entre outros elementos municipais que em Itaema estão mais concentrados e alinhados.

Possui 49 poemas em 65 páginas, e foi prefaciado pelo então jovem, retratado num dos poemas, Luciano Pinho Nilo, filho da saudosa poeta Dilza Pinho Nilo.

Há também um texto, nas orelhas do exemplar, assinado por Max de Figueiredo Portes, amigo de longa data da escritora.

Foi publicado em 1991, por uma editora de Belo Horizonte.

Uma obra singela, profunda e mais complexa dos que outras dela que já tomei contato.


Irmãs Jamais



Uma película filmada durante 10 anos, de 1999 a 2008.

O diretor envolveu suas irmãs e parentes de diversas gerações de sua família para retratar cenários de sua vida, a casa de sua família em Bobbio, os espaços que ele viveu, numa obra meio ficção, meio realidade, meu documentário, enovelados por uma narrativa que tem dois irmãos como centro.

Elena Bellocchio vive um personagem de mesmo nome: Elena que no início do filme tem apenas 5 anos. Sua mãe Sara (Donatella Finocchiaro), se muda para uma cidade maior (Milão), a fim de seguir carreira de atriz. Seu tio Giorgio (Pier Giorgio Bellocchio), que também vive um personagem de mesmo nome, irmão de Sara, não concorda com a atitude da irmã, que deixa a menina aos cuidados das tias, que são irmãs verdadeiras do diretor.

Enfim, um longo projeto que envolveu várias pessoas e uma mesma família que existe fora das telas.

Ao longo da narrativa, algumas coisas acontecem. Elena se muda para junto de sua mãe, e seu tio, depois de casar, descasar, se endividar, sonhar demais, gravar filmes, numa eterna insatisfação, tem que esconder de seus credores em sua cidade natal: Bobbio.

Pra falar a verdade, não gostei deste filme! Não via a hora de acabar. Achei a proposta interessante e por isso fui ver. Filmar um filme durante 10 anos, onde os personagens realmente se tornam mais velhos e diferentes pela vida que eles realmente viveram ao longo do processo, é bastante legal!

Além disso, quando são retratados alguns processos de atuação dramática dentro da própria película, como: gravação de filme, testes para elenco, entre outras coisas; essas passagens de um ator de um filme, para um ator que faz um papel de ator dentro de um filme, se dá de maneira bastante sutil e bem feita! A forma visceral e de poucos recursos tecnológicos também confere uma atmosfera mais crua aos personagens, que parecem mais vivos que os filmes convencionais

Estes são os pontos altos da obra... Mas, por incrível que pareça depois dessas colocações, eles não foram suficientes para transformar o todo numa grande contagem de estórias semi-documentais.

A narrativa maior, que envolve todos os 10 anos, é bastante monótona, sem grandes acontecimentos. Há também muitas cenas paradas, sem significância para o desenrolar da trama, coisas de difícil entendimento, ou simplesmente a utilização de recursos de desconstrução que não funcionam realmente dentro da proposta. Uma pena! Angariar recursos humanos e vitais para um projeto tão longo e pecar justamente em coisas menos difíceis como a construção do roteiro e a edição é algo imperdoável.


PRÊMIOS
- Em 2011, indicado ao David di Donatello Awards de Melhor Diretor e Melhor Edição


FICHA TÉCNICA
Diretor: Marco Bellocchio
Elenco: Pier Giorgio Bellocchio, Elena Bellocchio, Donatella Finocchiaro, Letizia Bellocchio, Maria Luisa Bellocchio, Gianni Schicchi, Alba Rohrwacher, Valentina Bardi, Silvia Ferretti, Irene Baratta, Alberto Bellocchio, Anna Bianchi, Lou Castel, Liliana Gerace
Produção: Irma Misantoni
Roteiro: Marco Bellocchio
Fotografia: Gianpaolo Conti, Marco Sgorbati
Trilha Sonora: Carlo Crivelli, Enrico Pesce
Duração: 110 min.
Ano: 2010
País: Itállia
Gênero: Drama
Cor: Colorido
Distribuidora: Filmes da Mostra
Estúdio: Rai Cinema / FareCinema / Kavac Film / Provincia di Piacenza / Comune di Bobbio
Classificação: 12 anos


Cartas Chilenas



Um dos livros mais importantes de Tomás Antônio Gonzaga e um das mais importantes obras da literatura brasileira. Gonzaga é natural de Portugal, mas viveu no Brasil na época em que éramos colônia. Inclusive esteve envolvido na Inconfidência Mineira. Residiu em Vila Rica, atual Ouro Preto e lá escreveu este grande poema narrativo, em que fantasia estar no Chile, e de lá escreve cartas para um amigo, narrando as barbaridades que ocorriam naquele local.

Gonzaga define logo no início a proposta imaginária da narrativa:

“Cartas Chilenas – Em que se contam os sucessos de todo o governo de Fanfarrão Minésio, general de Chile. Escritas na língua Castelhana pelo Poeta Critilo. Traduzidas em Português e dedicadas aos Grandes de Portugal por um anônimo.”

Os versos são brancos, de escrita relativamente simples. Não são metrificados, apesar de possuírem um ritmo de linguagem típico da poesia. As cartas são num total de 13, sendo que há partes que foram perdidas ao longo dos anos.



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As partes se intitulam como:


Prólogo

Epístola a Critilo (atribuída a Cláudio Manuel da Costa)

Carta 1: “Em que se descreve a entrada que fez Fanfarrão em Chile” (291 versos)

Carta 2: “Em que se mostra a piedade que Fanfarrão fingiu no princípio do seu governo, para chamar a si todos os negócios” (306 versos)

Carta 3: “Em que se contam as injustiças e violências que Fanfarrão executou por causa de uma cadeia, a que deu princípio” (296 versos)

Carta 4: “Em que se continua a mesma matéria” (354 versos)

Carta 5: “Em que se contam as desordens feitas nas festas que se celebraram nos desposórios do nosso sereníssimo infante, com a sereníssima infanta de Portugal” (342 versos)

Carta 6: “Em que se conta o resto dos festejos” (434 versos)

carta 7: “Em que se trata da venda dos despachos e contratos” (365 versos)

Carta 8: Sem título (incompleta) (93 versos)

Carta 9: “Em que se contam as desordens que Fanfarrão obrou no governo das tropas” (404 versos)

Carta 10: “Em que se contam as desordens maiores que Fanfarrão fez no seu governo” (319 versos)

Carta 11: “Em que se contam as brejeirices de Fanfarrão” (433 versos)

Carta 12: Sem título (incompleta) (299 versos)

Carta 13: Sem título (incompleta) (29 versos)

Há algumas versões que terminam com: Epístola a Critilo (208 versos)

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O livro tem mais de 4300 versos, se contarmos as partes iniciais. É bastante extenso e profundo em alguns pontos.

É notório o sentimento de revolta expressado por Gonzaga ao longo dos casos descritos. Ele constantemente se expressa através de palavras de fortes, de ímpeto revolucionário e interjeições sentidas, em frases que deixam claro o horror que sentia diante de todo o quadro vivenciado por ele na colônia.

É certo que o tom caricatural das descrições, ao longo do poema, abre espaço para a criação poética de tipos e passagens que não necessariamente ocorreram ou existiram da maneira como são contados. Talvez também por isso a colocação de um reino distante, uma terra eira, não pisada pelo escritor. Desta maneira ele dava a si mesmo o aval para criar livremente, não se preocupando em realizar tanto um escrito documental dos acontecidos nas antigas terras do centro de Minas Gerais. Além disso, isso também pode ter servido de uma proteção para o poeta, já que os governantes tinham suas formas de controlar a opinião pública.

Gostei muito do que li!

Pena estar faltando partes e por isso a obra não tem um fim determinado, ficando algumas estórias sem desfecho.