Eu me lembro do dia em que, depois de algumas noites submergidos num mar de desvarios, tivemos que voltar à rotina das horas que fluem sem tanta euforia. Lembro-me de termos desligado de uma determinada maneira tão voluptuosa e transgressora naquele tanto de nada demais que fizemos que, voltando ao colégio, sentimos uma vaguidão dolorida que parecia nunca ter fim... Mas nós sabemos que tudo tem fim!
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Nós não acreditamos no infinito. Nós cremos no cíclico. Dentro de nós, dentro do que mais pensamos por nós mesmos, nem Deus é infinito. Deus é cíclico e seus ciclos não são sem fim. Seus ciclos possuem finalidade, possuem começo, desenrolo, finalmentes e apocalipse. Assim sempre foi com todas as coisas visíveis e invisíveis.
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E assim sempre foi conosco, sempre foi com tantas coisas que tantas e tantas pessoas conhecem por aí. Coisas que passam pelos seus dias, pelos seus mundos, pelas suas horas, pelos seus sonhos, pelos seus não sonhos, pelas coisas que vão indo embora sem que tenhamos nem mesmo sentido da maneira como esperávamos ter o direito de sentir.
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Mas desta maneira são inúmeras coisas e assim também foi aquele carnaval de 2015. Cinco dias de imenso desregrado, imenso não horário de tudo, tão inofensivas tentativas, tantas farras, tantas danças, tantos embriagados, tantos vais e vens pelos cantos dos bairros paulistanos e coisas do tipo: o baixo República, o alto Higienópolis, o miolo da Praça do Rotary e a sempre Santa Cecília.
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Mas invariavelmente chega a hora de voltar. Sempre chega a hora de respirar mais compassadamente, mais sutilmente, mais cabisbaixamente e ir adiante no serviço nosso de cada instante e assim tanto e tanto por diante.
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Chegamos como quem havia saído há séculos infinitos de um lugar ainda um pouco desconhecido e sentamos nos espaços cabíveis a um novo funcionário que ainda nem sequer havia completado uma lua grande dentro daquilo.
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Relembrar as pastas, relembrar as pessoas, relembrar o que fazer, como fazer, o tanto a se fazer, os pontos desligados, o curso que não existia, os mais de 200 alunos que invariavelmente chegariam e teriam de ser atendidos e colocados a direcionar suas energias para algo que fizesse o grande ciclo girar.
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Mas como estranho estava aquela vacuitude varrida enormemente aos cantos de nós e de onde pareciam nos cantar melodias dos cinco séculos que apartados dali estivemos ao longo daquela festividade carnal.
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Nossos olhos não se detinham no que devia, nossos pensamentos ainda estavam embevecidos das ruas, do sofá, das voltas, dos cigarros, das cervejas e dos tantos lugares de cantos que se nos habitamos.
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Olhar os pontos, sentir o espaço, os olhares que nos detinham, o volume dos ruídos, as sensações no corpo, o suor, a vontade de sair correndo, a não coisa que nos saía sem pedir permissão, uma outra coisa independente que, em nós, nos controlava, não nos deixando prosseguir naquilo que deveríamos fazer com urgência naquele espaço.
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O rastro, o rasgo, o risco, o posposto, a angústia vazia, uma negridão em nossas cabeças, em nosso corpo, em nossos dentes, em nossas mãos, em nossas unhas, o tremor nas pernas, nas pálpebras, a respiração que não saciava, o volume de tudo o que não queríamos mais, o que não suportávamos mais.
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Tivemos que levantar. Juro que sim! Tivemos que dar uma volta em algum não lugar, em alguma órbita intransponível, em algum pouco espaço permitido naquele novo emprego. E assim foi o jeito feito.
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Saímos da sala dos professores e caminhamos alguns passos pelo corredor com barulhos esparsos de crianças e jovens. Encaminhamo-nos para a direção do primeiro ponto em que lembrávamos de termos estado ali: a janela do segundo andar. Paramos, nos viramos sem querer virar, sem querer nada, sem saber porque estava fazendo aquilo. A única coisa que sabíamos era que aquilo doía e deveria parar.
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E foi então que tive a sensação de ter sido levemente subdividido em duas esferas. Algo em minha memória profunda brotara e eu recobrei de lugares em que me parece que já estive nessa vida, mas lugares que não parecem estar aqui na Terra.
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Campos e profundezas que não pertencem a este mundo, mas são palpáveis. Não fazem parte do plano espiritual, fazem parte de algum outro plano, talvez material, e que, por vezes, fui levado para lá.
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Imagens vagas que para mim, mesmo estando no corredor de olhos abertos, pareciam assaltar-me a vista aberta e me colocarem de frente para tão reconhecível local ao qual era impossível se chegar.
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Um sentimento de engrenagem profunda, de cratera dentro-fora, uma instância silenciosa, um local de gestação de vida, de coisas basilares, colunas que de tão longe-perto nos processam calcadas em outros rincões.
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E foi quando, subitamente, toda a angústia foi exorcizada de minha pele, de minha carne. Senti, de dentro para fora, uma força inundando todo o possível de mim, limpando e dominando meus pensamentos, renovando fortemente toda minha alma que, em segundos, pareceu ter sido profundamente transformada.
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Entendo que tudo possa parecer um grande desvario aos olhos dos que me leem, mas, impressionou-me a intensidade das imagens que vi, o poder da sensação de transformação que se fez mais forte dentro de mim do que a totalidade do que eu poderia realizar. Uma sutil sensação de ter estado lá, de ter sido levado para lá como se fosse uma outra dimensão em que estive algumas vezes.
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Seria, mais ou menos como se, quando eu dormisse, eu acordasse em outro canto e vivesse um pouco aquela realidade, no entanto, eu não teria permissão de trazer as lembranças do que se passou. Sei que existem sonhos que podem parecer tão reais que juramos termos vivido e pode este ser mais um caso, mas enfim... Algo bastante difícil de entender!
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Voltamos então ao local de onde havíamos saído, ao nosso espaço que nos resta e sentimos uma sensação que nos remetia a alguma pessoa que conhecíamos, mas que não estávamos conseguindo reconhecer.
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Quem era aquela pessoa? De quem era aquela energia? Aquela presença? Aquela alma? Nós podíamos reconhecer aquilo como sendo de alguém próximo, mas não conseguíamos dar nome e rosto àquilo que estávamos sentindo.
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E foi quando, de repente tive a plena convicção de que alma era aquela, de que alma estava ali, de qual ente havia passado naquele momento de dores para mostrar sua presença, sua força, sua continuidade em outro canto, seu amor!
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Aquela energia que senti, de repente, tão bem-acabada, tão precisa, tão pertencente a alguém que não era eu, uma energia que não havia sido inventada por mim, tão humana e tão gostosa de se sentir... Era a energia da minha avó Cândida!
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A partir desse ponto, todo o resto do dia flui bem!
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| Cândida Passos de Sousa |