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Tratado poético generalista
Em 10 partes
Em 10 páginas
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I
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Eu gostaria de caber-me
Em poucas palavras
Eu gostaria de ter
Sempre
A mais sublime inspiração
Em todos os momentos
Em todas as vivências
Em todos os percalços
Que a vida me apresentasse
A saída mais bela
O acorde mais confiável
Que me trouxesse
O máximo de expressão
O caminho mais amável
Aos olhos e ouvidos
De quem me detém
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Se tantos fazem
Qual seria o máximo do fazer
Quando tantas pluralidades
Desfazem a presente arte?
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Qual seria o caminho que
Contemporâneo ainda tocante
Poderia desbravar o peito
Do homem instável errante
Tão saturado de tentativas de vida?
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Qual seria o caminho que
Ainda tocante
Iluminaria novamente o novo
E o traria limpo de tamanho estado
Tão descrente de si?
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Seria a melodia?
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Seria a letra mais precisa?
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Seria o encontro mais reverberante?
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Mas
Qual
O
Encontro
Mais
Reverberante
No
Surdo
E
Cego
Coração
Do
Hoje?
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Corações e mentes
Tão mentidas para si
Tão mentidas em si
Tão metidas no em si
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Tão sem si!
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II
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Qual a diferença
Do caminho poético
Quando registrado
Em papel virtual?
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Qual a descrença
Do vocábulo estético
Quando resignado
No folhetim real?
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Qual é a vantagem
De escrever ligeiro
Num meio intangível
Por tantos acessado?
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Qual é a coragem
Do dizer fuleiro
Se num meio invisível
Definha-se minguado?
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III
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Qual a sensibilidade
Que invoca
A cada palavra
Um novo ciclo
De conseguinte informação?
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De onde vem
A palavra inédita
In-é-dita desdita
Que faz o escrever
Seguir seu quinhão?
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Onde está o misterioso
Anterior poético prostrado
Que perpetua e se renova
A cada vocábulo colocado?
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Onde está a novidade convicta
Das coisas vitais
Das coisas vitais
Que fluem nos sons
Em proto-palavras reais?
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O som é o anterior vocabular!
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O som é a matriz do dizer!
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A música é o pressuposto do verbo!
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A música é a literatura em potencial!
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IV
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Seria a música instrumental
O não verbal
O ulterior irracional
Ainda mais envolvente
Que o som organizado
No contorno
Da convenção lingüística?
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Não sei!
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Mas tudo é alimento
Àquele que escreve
Basta ter vocabulário
E permissão receptiva
Dentro de si
Para expressar aquilo que passa
Que registra com força
Nas linhas da alma viva
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V
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O que fazer quando tudo já foi feito?
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O que dizer depois que tudo já foi dito?
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Ainda vale a pena?
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Ainda vale a pena
Arriscar teus poemas ao vento?
Lançá-los aos ares sem medo?
Sem preservá-los
Dentro do círculo permissivo
Do poeta seu dono convulsivo?
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Como filhos desgarrados
Indefesos e jogados
Na corrente tirânica
Da modernidade descrente?
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Ainda vale a pena tentar?
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Ainda vale a pena dizer?
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Dizer a ninguém?
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Dizer quando nenhum será seu ouvinte?
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Dizer pelos poros
Dizer pelos olhos
Dizer pelos gestos
Dizer pelos jeitos
Dizer pelo não dito
Dizer pelo perigo
Dizer pela mudez
Dizer pela intolerância
Dizer pela inconstância
Dizer pelos versos
Dizer pelas prosas
Dizer pelos sons
Treze vezes dizer!
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VI
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Será que devo?
Ou melhor
Será que posso
Não assim ser?
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Será que posso não dizer?
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Será que posso me calar
E sublimar meus ruídos?
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Será que posso
Engolir minhas expressões
Já que elas
Não são relevantes?
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Ou simplesmente
Já foram ditas?
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Será que devo
Resignar-me em ser
Simplesmente
Uma repetição?
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Será que devo
Obscurecer o redito?
E tentar sem sentido
Procurar o inédito?
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Mas o que já não foi dito?
O que nunca foi inédito?
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O que nem sequer
Chegou a ser inédito
Pois nunca foi realmente
Pensado ou dito?
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VII
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Depois de tantos séculos
De poesias que se esmera
Depois de milênios póstumos
Às Ilíadas de cada era
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Valeria à pena abrir a boca
Deitar os dedos sobre o teclado
Rascunhar traços convencionais
Sobre o papel imaculado?
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Poderia haver alguma forma intermediária
Entre os poemas e as pinturas
Que não fosse simplesmente
A reunião pífia de miniaturas?
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Não uma poesia pintada
Ou uma pintura poética
Mas um traçado novo
De conteúdo e estética?
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VIII
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Inédito
Indito
Neolístico
Neuplástico
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Concrético
Infinito
Neologístico
Bioelástico
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Profético
Incontido
Proto-sístico
Fantástico
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Amplexo
Fundido
Artístico
Sarcástico
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IX
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Há?
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Há de haver
Enquanto houver?
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Haveria senilidade
E por anos e anos
Ainda esta novidade?
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Haveria a possibilidade
De um aglomerado mutante
Que transcendesse a fusão
Trazendo um novo semblante?
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Haveria o encaixe de propostas
Em diferentes formas inventivas
Que geraria um formato suplente
Exaurido do corpo físico presente
Em concretas catarses coletivas?
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Haveria enquanto fluida inovação
E ainda sim, seria além da aglomeração:
Seria mais que um insuficiente resto
Não a fusão simplista da forma
Mas uma nova proposta de gesto
Do povo guiando em si a re-forma?
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X
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Seria isto possível
Enquanto vital prosseguimento
Da arte?
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Infelizmente acho que não!
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Intersecções artísticas
Tentativas de superação
Sem efeito relevante!
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Isto é tudo!
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Nada a mais, ao menos
Nem nada menos!
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Nenhum artista contemporâneo
Será mais plenamente realizado!
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Mas o gosto pelo contemporâneo
Há que se manter preservado:
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Sempre!
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