É
interessante como este livro, desde muito antes de lê-lo, desde muito antes de
conversar pessoalmente com sua autora, chamava-me a atenção. Foi uma
identificação instantânea com o título. Achei simples, forte, convidativo.
Promessas de uma boa leitura... E assim aconteceu!
Não
busco aqui explicações para tamanha afeição e magnetismo sentidos por mim, pois
o que nos toca, toca, e isso basta. Mas, se não bastasse esta empatia, quis o
destino, e a escritora, que fosse eu a pessoa a escrever o presente prefácio,
selando mais um dos felizes acasos da vida. Senti tal pedido como uma bela
oportunidade para acrescentar, uma pétala que fosse, nesta flor literária.
O
próprio título já é um sutil convite: “Nasce uma flor aqui”. É como se
estivesse subentendida uma continuação, uma assinatura: “Nasce uma flor daqui”
- Venha presenciar seu nascimento!
Ou,
talvez, também seja algo além... Parece-me que o título, “Nasce uma flor daqui”,
pode ser mais que um simples batismo de obra. O livro seria, em si, uma busca que
faz florescer, e não uma referência a uma flor que nasceu. O próprio processo
de busca pela flor faz nascer a flor enquanto processo de busca: o livro. O
local da flor é o livro. Ele é a própria flor que nasce e renasce aí, aqui, na
mão do leitor.
Este
livro e seu título formam um constante ciclo de semeadura e desabrochar. Ciclo
este que, assim como toda a obra da autora, é um processo extremamente pessoal.
Isso fica evidente pela intensa presença do “Eu” que a lança constantemente
dentro de sua literatura. O criador entorna-se em sua própria criatura. Esta
constância faz transparecer sua franqueza poética, ao mesmo tempo frágil e
corajosa. Assim, Benita Carneiro se coloca num ponto intermediário entre a
menina moça e a mulher experiente. Ou talvez seja, sempre e sempre, a eterna
garota a rimar suas iluminações em versos de simplicidade profunda.
Neste
uni-verso a parte, a nostalgia é cíclica: o dourado natural das lembranças
passadas, a infância e a inescapável comparação do atual frente àquilo que já
se viveu, a saudade do que não volta jamais. Neste contexto, a figura paterna se
faz presente em dois pontos do livro, e a mãe, “perdida” quando a autora ainda
era muito pequenina, surge num singelo poema de desfecho tocante. Além desses
dois ícones naturais, personagens lendários de uma Itanhandu que não existe mais,
bem como sua avó, que se esquecia das coisas com facilidade, estão aqui em
poemas intitulados por nomes próprios.
No
entanto, talvez a pilastra mais profunda seja mesmo o Cristianismo, perpassando
o Supremo e seu Filho, gerando a simbiose cíclica culpa-perdão, fé-alento, pois
é a este arcabouço religioso que Benita recorre diante das dores. Fato nada
incomum para a maioria de nós, porém muito caro à nossa autora, a quem o
refúgio da solidão, ainda que por vezes cercada de amigos, se fez no papel, na
caneta e também nas orações mineiras de um povo tão místico. Assim, nesta
oração poética, Deus e Jesus são os dois personagens que mais vezes a salvam
dos males. Jesus pela sua missão de perdão e Deus por possuir todo o poder e
ser o dono profundo de nossos destinos.
Sendo
plural, por vezes positiva e crendo num mundo melhor que virá, noutras um pouco
pessimista, Benita é uma sonhadora convicta, ou talvez uma senhora que se
entrega conscientemente a uma partícula de ilusão, procurando suprir o
desencaixe da realidade que se ameniza pela divina beleza da arte e da
natureza.
Também
há algumas nuances de cultura oriental, a sabedoria colocada em coisas simples,
animais ou insetos, um detalhe perfeito que faz o momento transcender e se
fazer inspiração poética registrada, levando-a, num curto e suspiro compasso,
para longe dos sofrimentos cotidianos.
E,
por fim: o AMOR. Amor confessado, diversas vezes colocado com uma espécie de
dor irrealizável ou algo simplesmente belo e superior. Às vezes fechado, outras
vezes como uma grande entrega, uma libertação ou um sacrifício. São muitas as confissões
amorosas que mostram a coragem da poeta. Como esta, no final do poema
Xilogravura, quando diz que: “... todo artista/ É muito egoísta/ No jeito de
amar”.
E
é por meio desta pluralidade de visões sobre o mais inspirador dos sentimentos
humanos, que a autora, num ápice sucinto, nestes versos que, para mim, são o
centro da obra, registra: “... que o amor e a flor/ São dois complementos/
Muito indispensáveis/ Em meus sentimentos”. Como seria bom se todos fôssemos
assim!
Eis
a flor-amor que nasce/ E se nos convida/ Enquanto processo/ De literatura
sentida// Um manual registro/ De amplificada sobrevivência/ A catarse secreta/
Em sua mais ventral essência// Escritos de uma senhora/ Que como parte de nós/
Prefere manter seu sonho/ Seu sonho em sua hora// Para poder se transpor/
Absorver a ferida/ “Buscando na flor/ A essência da vida”.

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