quarta-feira, 27 de março de 2013

Prefácio revisado: "Nasce uma flor daqui"


É interessante como este livro, desde muito antes de lê-lo, desde muito antes de conversar pessoalmente com sua autora, chamava-me a atenção. Foi uma identificação instantânea com o título. Achei simples, forte, convidativo. Promessas de uma boa leitura... E assim aconteceu!
Não busco aqui explicações para tamanha afeição e magnetismo sentidos por mim, pois o que nos toca, toca, e isso basta. Mas, se não bastasse esta empatia, quis o destino, e a escritora, que fosse eu a pessoa a escrever o presente prefácio, selando mais um dos felizes acasos da vida. Senti tal pedido como uma bela oportunidade para acrescentar, uma pétala que fosse, nesta flor literária.
O próprio título já é um sutil convite: “Nasce uma flor aqui”. É como se estivesse subentendida uma continuação, uma assinatura: “Nasce uma flor daqui” - Venha presenciar seu nascimento!
Ou, talvez, também seja algo além... Parece-me que o título, “Nasce uma flor daqui”, pode ser mais que um simples batismo de obra. O livro seria, em si, uma busca que faz florescer, e não uma referência a uma flor que nasceu. O próprio processo de busca pela flor faz nascer a flor enquanto processo de busca: o livro. O local da flor é o livro. Ele é a própria flor que nasce e renasce aí, aqui, na mão do leitor.
Este livro e seu título formam um constante ciclo de semeadura e desabrochar. Ciclo este que, assim como toda a obra da autora, é um processo extremamente pessoal. Isso fica evidente pela intensa presença do “Eu” que a lança constantemente dentro de sua literatura. O criador entorna-se em sua própria criatura. Esta constância faz transparecer sua franqueza poética, ao mesmo tempo frágil e corajosa. Assim, Benita Carneiro se coloca num ponto intermediário entre a menina moça e a mulher experiente. Ou talvez seja, sempre e sempre, a eterna garota a rimar suas iluminações em versos de simplicidade profunda.
Neste uni-verso a parte, a nostalgia é cíclica: o dourado natural das lembranças passadas, a infância e a inescapável comparação do atual frente àquilo que já se viveu, a saudade do que não volta jamais. Neste contexto, a figura paterna se faz presente em dois pontos do livro, e a mãe, “perdida” quando a autora ainda era muito pequenina, surge num singelo poema de desfecho tocante. Além desses dois ícones naturais, personagens lendários de uma Itanhandu que não existe mais, bem como sua avó, que se esquecia das coisas com facilidade, estão aqui em poemas intitulados por nomes próprios.
No entanto, talvez a pilastra mais profunda seja mesmo o Cristianismo, perpassando o Supremo e seu Filho, gerando a simbiose cíclica culpa-perdão, fé-alento, pois é a este arcabouço religioso que Benita recorre diante das dores. Fato nada incomum para a maioria de nós, porém muito caro à nossa autora, a quem o refúgio da solidão, ainda que por vezes cercada de amigos, se fez no papel, na caneta e também nas orações mineiras de um povo tão místico. Assim, nesta oração poética, Deus e Jesus são os dois personagens que mais vezes a salvam dos males. Jesus pela sua missão de perdão e Deus por possuir todo o poder e ser o dono profundo de nossos destinos.
Sendo plural, por vezes positiva e crendo num mundo melhor que virá, noutras um pouco pessimista, Benita é uma sonhadora convicta, ou talvez uma senhora que se entrega conscientemente a uma partícula de ilusão, procurando suprir o desencaixe da realidade que se ameniza pela divina beleza da arte e da natureza.
Também há algumas nuances de cultura oriental, a sabedoria colocada em coisas simples, animais ou insetos, um detalhe perfeito que faz o momento transcender e se fazer inspiração poética registrada, levando-a, num curto e suspiro compasso, para longe dos sofrimentos cotidianos.
E, por fim: o AMOR. Amor confessado, diversas vezes colocado com uma espécie de dor irrealizável ou algo simplesmente belo e superior. Às vezes fechado, outras vezes como uma grande entrega, uma libertação ou um sacrifício. São muitas as confissões amorosas que mostram a coragem da poeta. Como esta, no final do poema Xilogravura, quando diz que: “... todo artista/ É muito egoísta/ No jeito de amar”.
E é por meio desta pluralidade de visões sobre o mais inspirador dos sentimentos humanos, que a autora, num ápice sucinto, nestes versos que, para mim, são o centro da obra, registra: “... que o amor e a flor/ São dois complementos/ Muito indispensáveis/ Em meus sentimentos”. Como seria bom se todos fôssemos assim!
Eis a flor-amor que nasce/ E se nos convida/ Enquanto processo/ De literatura sentida// Um manual registro/ De amplificada sobrevivência/ A catarse secreta/ Em sua mais ventral essência// Escritos de uma senhora/ Que como parte de nós/ Prefere manter seu sonho/ Seu sonho em sua hora// Para poder se transpor/ Absorver a ferida/ “Buscando na flor/ A essência da vida”.



Um comentário:

Anônimo disse...

cadê a tecla curtir?