quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Resenhas 2013 - Marília de Dirceu


Famoso livro do inconfidente e poeta, formado em Direito: Tomás Antônio Gonzaga.

Trata-se de um conjunto de poemas que Gonzaga fez para a brasileira Maria Dorotéa Joaquina de Seixas, de quem fora noivo na época em que morou na Vila Rica, atual Ouro Preto.

Publicou a obra em Portugal quando partiu para seu exílio em Moçambique. Fora deportado, pois, ainda que pequeno, teve envolvimento com a Inconfidência Mineira.

Marília de Dirceu pertence ao Arcadismo, um movimento que prezava por versos simples, que narrassem uma vida sem luxos, ligada a natureza, rebanhando ovelhas, no alto das montanhas e procurava tratar com a realidade, sem grandes assombros romantinescos.

No entanto, segundo alguns lugares que li, Gonzaga, neste livro, já se aproximou um pouco da tendência que sucederia este movimento: o próprio Romantismo, pois ia contra o movimento vigente ao idealizar a mulher amada.

Há uma grande preocupação com a forma. A maioria dos versos são rimados e, mesmo sem ter parado para escandir, acredito que todos eles sejam metrificados.

O livro é dividido em três grandes partes, totalizando 93 poemas:

A primeira delas contém 33 liras, de ritmos semelhantes e frases que se repetem em diversos pontos, dando uma idéia de canto, algo para ser cantado, declamado, acompanhado de algum instrumento, talvez!

A segunda, maior delas, possui 38 liras, que acreditam terem sido escritas na prisão. Nesta parte um teor menos romântico toma conta do escritor. Aqui ele fala um pouco mais da vida, da situação do amor que não pôde se realizar, mas que fica guardado dentro de seu peito.

Já a terceira parte contém, além de 9 liras, uma forma diferente de poema: os sonetos, que totalizam 13.

Apesar de prezar pela simplicidade, ainda assim, o autor mostra um vocabulário extenso e rico em metáforas. É tocante o colorido das palavras de Gonzaga, o quanto ele se mostra engajado na arte da poesia, o quando se preocupa com o bem fazer poético, mostrando um discurso com começo, meio e fim, que se desenrola sutilmente ao longo das liras.

Passagens de narrativas ricas em detalhes da vida, mostrando uma sabedoria inspirada, que nos encanta pela forma como são postas as observações. A incansável exposição de um amor, inserido num contexto, por vezes desestimulante, devido às intempéries da vida e que acabam por levar o autor a um lugar muito distante de sua amada, firmando, na realidade, aquilo que viria a ser um dos temas do Romantismo que se avizinhava.

Alguns a consideram a obra máxima de Tomás Antônio Gonzaga.

E Manuel Bandeira, em suas pesquisas, chega a dizer que nenhum poema escrito em língua portuguesa, a não ser Os Lusíadas de Camões, teve tantas edições.

Apesar de ter sido lançada em Lisboa, no ano de 1792, e ter sido escrita por um português, é considerada um das obras fundadoras da literatura brasileira, pois grande parte da inspiração se deve a uma brasileira e também ao local onde ela fora idealizada: Ouro Preto, a nossa Arcádia, a terra dos poetas pastores brasileiros.

Segue o penúltimo poema do livro, o Soneto XII, onde Gonzaga fala de Vila Rica:


Obrei quanto o discurso me guiava,
Ouvi aos sábios quando errar temia;
Aos bons no gabinete o peito abria,
Na rua a todos como iguais tratava.

Julgando os crimes nunca os votos dava,
Mais duro, ou pio do que a lei pedia:
Mas devendo salvar ao justo ria,
E devendo punir aos réu chorava.

Não foram, Vila Rica, os meus projetos,
Meter em ferro cofre cópia de ouro,
Que farte aos filhos, e que chegue aos netos:

Outras são as fortunas, que me agouro,
Ganhei saudades, adquiri afetos,
Vou fazer deste bens melhor tesouro.




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