Famoso
livro do inconfidente e poeta, formado em Direito: Tomás Antônio Gonzaga.
Trata-se
de um conjunto de poemas que Gonzaga fez para a brasileira Maria Dorotéa
Joaquina de Seixas, de quem fora noivo na época em que morou na Vila Rica,
atual Ouro Preto.
Publicou
a obra em Portugal quando partiu para seu exílio em Moçambique. Fora deportado,
pois, ainda que pequeno, teve envolvimento com a Inconfidência Mineira.
Marília
de Dirceu pertence ao Arcadismo, um movimento que prezava por versos simples, que
narrassem uma vida sem luxos, ligada a natureza, rebanhando ovelhas, no alto
das montanhas e procurava tratar com a realidade, sem grandes assombros romantinescos.
No
entanto, segundo alguns lugares que li, Gonzaga, neste livro, já se aproximou
um pouco da tendência que sucederia este movimento: o próprio Romantismo, pois
ia contra o movimento vigente ao idealizar a mulher amada.
Há
uma grande preocupação com a forma. A maioria dos versos são rimados e, mesmo
sem ter parado para escandir, acredito que todos eles sejam metrificados.
O
livro é dividido em três grandes partes, totalizando 93 poemas:
A
primeira delas contém 33 liras, de ritmos semelhantes e frases que se repetem
em diversos pontos, dando uma idéia de canto, algo para ser cantado, declamado,
acompanhado de algum instrumento, talvez!
A
segunda, maior delas, possui 38 liras, que acreditam terem sido escritas na
prisão. Nesta parte um teor menos romântico toma conta do escritor. Aqui ele
fala um pouco mais da vida, da situação do amor que não pôde se realizar, mas
que fica guardado dentro de seu peito.
Já
a terceira parte contém, além de 9 liras, uma forma diferente de poema: os
sonetos, que totalizam 13.
Apesar
de prezar pela simplicidade, ainda assim, o autor mostra um vocabulário extenso
e rico em metáforas. É tocante o colorido das palavras de Gonzaga, o quanto ele
se mostra engajado na arte da poesia, o quando se preocupa com o bem fazer
poético, mostrando um discurso com começo, meio e fim, que se desenrola sutilmente
ao longo das liras.
Passagens
de narrativas ricas em detalhes da vida, mostrando uma sabedoria inspirada, que
nos encanta pela forma como são postas as observações. A incansável exposição de
um amor, inserido num contexto, por vezes desestimulante, devido às intempéries
da vida e que acabam por levar o autor a um lugar muito distante de sua amada,
firmando, na realidade, aquilo que viria a ser um dos temas do Romantismo que
se avizinhava.
Alguns
a consideram a obra máxima de Tomás Antônio Gonzaga.
E
Manuel Bandeira, em suas pesquisas, chega a dizer que nenhum poema escrito em língua
portuguesa, a não ser Os Lusíadas de Camões, teve tantas edições.
Apesar
de ter sido lançada em Lisboa, no ano de 1792, e ter sido escrita por um português,
é considerada um das obras fundadoras da literatura brasileira, pois grande
parte da inspiração se deve a uma brasileira e também ao local onde ela fora
idealizada: Ouro Preto, a nossa Arcádia, a terra dos poetas pastores
brasileiros.
Segue
o penúltimo poema do livro, o Soneto XII, onde Gonzaga fala de Vila Rica:
Obrei
quanto o discurso me guiava,
Ouvi
aos sábios quando errar temia;
Aos
bons no gabinete o peito abria,
Na
rua a todos como iguais tratava.
Julgando
os crimes nunca os votos dava,
Mais
duro, ou pio do que a lei pedia:
Mas
devendo salvar ao justo ria,
E
devendo punir aos réu chorava.
Não
foram, Vila Rica, os meus projetos,
Meter
em ferro cofre cópia de ouro,
Que
farte aos filhos, e que chegue aos netos:
Outras
são as fortunas, que me agouro,
Ganhei
saudades, adquiri afetos,
Vou
fazer deste bens melhor tesouro.

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