quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Resenhas 2013 - Palavras Desavisadas de Tudo – Vol. II


Neste segundo volume, são 69 escritores.

Alguns de nomes anônimos, por mais estranho que esta combinação possa parecer.

Como é o caso de, por exemplo, o autor dos textos “Quem é esse homem?” e “Qual a sensação de ser feliz?” que assina como APP.

Ou como é o caso também dos autores: AGP Brasil, J. C. Maranhão e P. Viajei.

Enfim, é um território livre para a experimentação, afinal: “Tô pagando”!!!

Mas, independente disso, participar de um projeto como este, é fixar seu nome numa comunidade que nunca se encontrou, mas partilhou da concretização de um sonho comum, que se firma num mesmo objeto, num mesmo momento, mesmo que muitos de nós nunca tenhamos nos conhecido.

Digo tenhamos, pois, também participei dessa Antologia.

Meu nome é o último (mais uma vez) deste Segundo Volume, ou seja, meu nome é o último dentre os 154 publicados.

Isso ocorreu, não pela ordem alfabética, afinal, no volume I tem até uma Yara e uma Zilda, mas, pelo acaso da vida, acabou que fiquei lá no fim.

E foi interessante! Quando, na ocasião do lançamento, me perguntavam onde estava meu escrito, eu simplesmente falava que era o último de todos! E assim logo achavam minha criação!

Ia enviar uns poemas, mas quis mudar um pouco. Enviei, depois de algumas revisadas, meu conto que, já há um tempo, está aqui no blog.

Pra facilitar, copio-o aqui, novamente.

Mas antes, para finalizar, gostaria de dizer que é muito satisfatório pegar um livro que, dentre suas muitas páginas, algumas delas levam algo saído de dentro de mim.

Foi uma grande alegria!!!


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O CACHORRINHO E A DONA SUA


Uma volta. Uma ligeira volta na rua. Um frio de paulistano. Seco. Noite de início. O fluxo de carros era intenso. Corria sempre a vontade de chegar logo. Eu também. Fui comprar crédito na farmácia mais próxima. Nem sinal do sistema. Andei mais alguns momentos procurando outro ponto. Mas o sistema estava realmente: nem sinal. Resolvi. Então. Voltar.

Como se pudera existir em seu ombro um bocado de ternura que arfasse, a dona seguia seu animal pelas ruas escuras do bairro Vila Buarque. Colocou-o no chão, entre travecos, futebol e bêbadas travessuras de universitários de classe média. Seu todo corpo rebaixado, e do tempo que lhe escorria no vão cansaço da consciência, consentia. Ela quase olhava seu cão. Experimentava olhá-lo. Não olhava nada realmente. Resignava não conceber. Reclinava num aspecto de carinho por aquele bichinho pequeno que vestia roupas mais coloridas que as dela, e continuava seu semblante estático pelas ruas lotadas de jovens no início da noite de uma pré-sexta-feira.

Refleti-me dela: o tempo é o senhor da verdade! Disso todos nós saberemos, mais cedo ou mais tarde e, talvez, por apropriação indigesta e embriagada, tentamos nos fazer dele segundo nossas corriqueiras vontades. É a razão e sua escória jogatina. Brinquei uma vez com um amigo de infância sobre sua crença profunda de que não existia Deus e de como seu Niilismo era fanático religioso. A crença no não crer jamais, de maneira alguma, nunca. Ele, por sua vez, vendo minha ironia primitiva, pegou-me de surpresa ao dizer que eu não tinha talento suficiente para uma liberdade descompromissada como aquela. E pra ser sincero, ainda não sei se tinha razão!

O cachorro nunca se desviava de sua falta de compromisso libertino. Quanto talento, meu Deus! Mancava em três pernas. Fixava-se sobre sua própria Trindade. Não tinha rabo e nem porque preservá-lo. Tropeçava em alguma lajota solta, cheirava, lambia alguma poça e continuava seu caminho, guiando a dona sua, cegos da velhice. Arfava de esforço, teimava com ganas de vencer na vida pequena de sua memória instantânea, e ditava, a duras penas, o ritmo da descoberta conjunta. Tentava, por sobremaneira, chegar a qualquer custo monocromático do seu restrito universo de estímulos, e sempre, sempre era capaz de almejar. Um grande vencedor! O macho da casa! O dono da dona!

 - Oww dona, me vê um pão?
 - Não posso. Totó adora o tempero do padeiro!

Um real tempero do desespero. A canil esperança que sobrepuja a hierarquia das espécies. Acredito que esta contra-força meu antigo amigo não conhecia em si. Cachorros que seguem. Humanos que arcam.

Encarregada até as últimas fraquezas com sua falta de gente, continuava a dona acompanhando, sem deixar rastro. Ela também cheirando aqui e ali, ainda que dotada de menos felicidade. Somos muitos iguais! Cutucava uma lata, mexia numa folha, experimentava uma poça. No fundo, todos fazemos isso, com a diferença de que alguns acreditam nas latas, nas folhas e nas poças. Mas ela relutava não latir. Também roía unhas como ato de manutenção independente, coisa que até hoje nunca vira um cão fazer. Restolhos líquidos de uma tátil sanidade roída a custo de solidão. Sua humanidade estava na ponta dos dedos, mas, ainda assim, rosnava de cansaço por algum motivo que lhe afligira há alguns ditames atrás. Ecos da prisão não-verbal e seu calabouço de sensações inconclusas que podem nos levar a balbuciar palavras muito próprias no meio de uma avenida lotada. Era o corpo todo resquício, os seios sem vírgula, a barriga servindo de apoio para as costas, que se apoiavam na barriga, que se apoiava no ventre, que descia aos joelhos e aos não-pés. A personificação do tempo. Era o próprio tempo que ali escorria, sem vírgula, no rosto onde não couber mais. Acalentaria-se, se soubesse, em algum respiro que nunca deu.

O que seriam aquilo?! Cabelos mal tingidos. Raízes brancas de grosso calibre. Mãos inválidas, mas firmes. A derradeira humanidade. Do cachorro ela não se escaparia... Mas nunca completava. Não consegui captar seu olhar, tamanha a distância que lhe parecia existir entre seu mundo e este outro que não é de ninguém. Já o cachorro era o rei. Animalzinho que alavancava uma felicidade o mais profundo que pudesse. Era todo ele um êxtase que demarcava seu território reinado. Encontrou qualquer coisa que o satisfez e seus olhos brilharam no meio das sombras noturnas das árvores ainda possíveis. Assim puderam de novo prosseguir e passaram por mim.

Eles vadiavam no vazio da idade daquele bairro tão conhecido por todos nós. O cachorrinho labiríntico e os subsequentes de si, a dona seguinte, a próxima e a outra, e ele, e mais uma nova, e ainda outra que não se lembrava de nenhuma das suas nas quais ela mesma havia se sentido. Os desdobramentos imediatos do vocabulário sublingual tão comum aos que se esquecem de como se faz para lembrar. Todos dois tão quase iguais, tão diametralmente infelizes. Iam indo, sem se haverem para outros de nós.

Fiquei olhando, só. Já estavam longe por aquelas grades todas enferrujadas da Praça do Rotary. Um grande corrimão do desvão fastio naqueles arredores. O desvão bemol. Era o fumódromo mais soberano e/ou o mictório mais sagrado. As cercanias do cão e sua senhora que ali não restaram, perto da Biblioteca Monteiro Lobato, num país São Paulo que se faz de homens-livros que vencem: futuros velhos de estimação adotados por seus bichos. O tempo é mesmo o senhor da verdade. Mais cedo, saberemos disso mais tarde!

Depois que os senti, não havia mais crianças e nem jovens jogando bola, nem universitários, nem travecos, nem bares. Nem pressa. Não havia mais ninguém. Havia somente uma pessoa de casaco preto que passava de madrugada e agora escreve. Fez-se o fim em mim!

 - Quantos anos tinha o cachorro?! Não sei. Talvez a mesma idade dela! Existe aquela fórmula humano-canina de multiplicar por sete a idade do animal pra descobrir quanto ele teria se fosse gente. Paralelos temporais. Mas isso é mentira, pois se fosse gente já teria morrido igual a senhora. Só acredita viver porque é cachorro e tem a covardia de crer num Niilismo feliz que se esgueira por entre buracos, poças e lixos jogados na calçada de uma praça desvão. Meu amigo venceu! Eu. Não...

O cachorro prosseguiu até o ponto de táxi mais próximo. Eu olhava de longe e a velha sempre olhava assim: de longe. Perguntou algumas coisas pros taxistas passados que não estavam mais. Virou a esquina, e indo, se foi. Só eu estive lá. Latia. Seu cachorro queria continuar. E ela obedeceu. Eu também. Não os vejo nunca mais. E pra dizer a verdade, às cinco da manhã de sexta-feira, nem sei se eram realmente de se existir.



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