quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Exercício: 120 minutos de escrita – O Menino

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Decidido estive, ao menos naquele fim de tarde de uma sexta-feira na qual me desfiz das últimas coisas que me prendiam ali. Fechei o resto do quarto pequeno e arredio que se desfazia aos poucos no lento desaguar dos últimos dias de dezembro e saí recolhendo algumas pistas do acaso que acreditei que me pudessem dar alguma resposta sobre o rumo que deveria tomar.
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A porta fechada, a mala arriada sobre o passeio e a vontade de reestabelecer alguma juventude que ficara estancada em algum ponto incerto de meus anos. Minha cabeça pesava um pouco por conta das festas de encerramento que aconteceram nos últimos dias. Do outro lado da rua estreita, alguns olhares me indagavam, sem som, sobre o que eu estaria fazendo saindo daquela maneira, sem avisar a ninguém sobre onde estaria indo.
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O sol daquela tarde de um recém inaugurado verão dourava um pouco as paredes do sobrado e, pelo tumulto das nuvens que avolumavam perto do sopé da serra, parecia que logo a chuva cairia novamente, mesmo após tantos dias de aguaceiro. E assim, brincando de ir adiante, intuí que rapidamente estivesse um pouco mais decidido a respeito de onde deveria ir. O movimento me traria a resposta de como seria feita a mudança.
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Alguns rostos possíveis começaram a aparecer por entre as lembranças: um casal de tios que moravam na primeira cidade após a divisa de estados, uma prima que há pouco havia trocado de casa e me convidara para passar uns tempos com ela, um amigo de infância que havia me chamado para trabalhar num negócio de arrumação de casas. Não possuía nada muito além disso. Sobrava a vontade de transpassar o ano novo respirando alguma coisa nova, uma nova possibilidade, um novo emprego, novas pessoas.
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A rotina de onde estava não agradava em nada minhas vontades de infância. Um descompasso profundo gritara por vários anos dentro de mim antes que eu tomasse a decisão de lagar tudo para manter alguns sonhos ainda vivos. Eram sonhos velhos, mas que insistiam em permear meu dia-a-dia naquele emprego que o destino se encarregou de me arranjar.
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Quatro esquinas depois, notei que um pequeno menino seguia a distância, procurando disfarçar seus olhares e intenções com sua pipa, como se o objeto o impusesse tais caminhos. Era criança bem pequena, mas tinha um jeito interessante de tentar velar seus reais interesses. Os olhos ligeiros, os passos miúdos, pés descalços, as roupas sujas e um constante repuxar da linha que guiava o objeto bailarino. Sorrisos também lhe escapavam sem controle naquele momento íntimo de diversão que só a ele pertencia.
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Achei leve seu semblante e, naquele momento de conflito, servia-me de alento pensar nas possíveis coisas bonitas que poderiam estar passando em sua cabeça. Moldei-me um pouco por aquilo que imaginei ele estar pensando. Na cabeça daquele garoto seria eu algo um tanto melhor do que realmente era. Por mínimo pensamento a meu respeito que pudesse estar passando dentro de sua mente, ainda assim, um homem mais bem resolvido deveria estar concretamente elaborado dentro dele. O que não acontecia aqui dentro de mim.
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Seguia-me como quem corre atrás de um trem que não pode perder. Uma ânsia de contato, um aparente interesse puro de conversar coisas triviais, traçar meia dúzia de palavras, pedir que eu amarrasse seu tênis, se ele o tivesse. Corridas e estancadas que foram aos poucos tirando-me de minhas atribulações, lançando-me naquele pequeno universo particular dentro do qual o pequeno caminhante se fazia a pessoa mais feliz do mundo.
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Bastava um pedaço pequeno do mundo e o mundo estava inteiro, repleto de possibilidades fantásticas que poderiam ser exploradas sem medo de sofrer, sem receio de que as coisas pudessem dar errado. Um constante câmbio de infinitudes que se esgueiravam por entre os paralelepípedos e as esquinas antigas. Qualquer novo movimento era apenas um relapso de possibilidade que ele deixava escoar sem dor por entre o tempo que lhe deixava intocado.
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Imensidões possíveis estavam ávidas por serem compostas dentro daquele pequeno ser humano. As casas grandes delineavam intrigantes labirintos, os muros convidativos não se faziam acanhados em serem transpostos, as árvores eram castelos naturais nos quais ele podia morar para sempre no instante repentino enquanto ali ele estivesse. Aqueles traçados que dançavam na palma de sua mão, eram os caminhos mais possíveis de serem imaginados; e a riqueza da esperança era a riqueza da esperança justamente por não se definir assim. A não definição verbal das coisas deixava as coisas em sua totalidade, ou seja, habitantes de seus espaços e de seus tempos, apropriadas das possibilidades que lhes cabiam.
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Não havia para ele o mistério por detrás dos elementos, pois para ele não existia o alheio dos elementos em si. Os elementos lhe eram compreensíveis enquanto elementos que não necessitavam de compreensão. E as coisas eram as coisas nelas mesmas. O mistério para ele não era nada. O mistério nem mesmo lhe tocava, não o angustiava, não lhe fazia sentido, pois o mistério não era mistério naquele tanto de tudo que lhe pertencia. O que ele tinha lhe era suficiente sanar os horizontes tangidos por seus olhos.
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E assim, nesse tomado completo que sua figura delineou dentro de mim, seus pensamentos foram aos poucos se cruzando com os meus por meio dos olhares que iam surgindo. Aos poucos, sua figura me era tão própria que podia jurar saber as minimalidades que lhe surgiam a cada nova revolta que a pipa traçava nos ares. Sabia já seu nome, sua idade, em que colégio estudava, onde morava, quantos irmãos tinha. Sabia, por exemplo, que aquela pipa havia sido feita por seu pai que entregou outra igual a seu irmão gêmeo que não estava andando na rua naquele momento pois tinha machucado o pé no dia anterior.
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Eram transparentes suas formas e o dourado do sol crepuscular traduzia sua alma tão intensamente que ele mesmo se desfazia de seu contorno em meio ao embebido luminoso que por aquelas ruas caminhava junto comigo. Um convite de futuro, uma nova volta que se iniciava em torno do sol. O sol sempre renovado a cada manhã que me enchia o peito de coragem quando se deixava transpassar por entre as formas daquele pequeno menino que brincava com sua pipa enquanto me seguia como a um trem que não podia perder.
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E foi assim, nesse levado inteiriço que sua coragem crescente conseguiu, constantemente elevar e suster um pouco mais sua vivacidade que foi se forcando em mim. Gradualmente ele foi deixando sua pipa de lado, descendo volta-a-volta o objeto enquanto se aproximava um pouco mais. E, na intenção de não o inibir, mantive meus passos na direção que achava melhor os dar. Na verdade, não me interessava mais o que iria fazer naquele dia, naquele início de mudança que se esvaia por entre as árvores secas que restavam em volta do campo de futebol do bairro. Interessava-me agora tomar contato com aquele interessante pedaço de gente genuinamente me fazia tão bem.
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Após alguns segundos de intensas ponderações, resolvi parar e aguardar a reação daquele intrépido acompanhante que, já naquele momento, parecia me quase um velho conhecido, mas que em pouco tempo nunca mais seria visto por mim. Desacelerei os passos vagarosamente como se estivesse lidando com um pequeno ente arisco que, a qualquer momento, se esvairia por entre as esquinas e eu não conseguiria obter algum contato real.
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Qual não foi minha surpresa quando, a despeito do que esperava acontecer, o menino acabou de recolher a pipa e veio lentamente em minha direção. Seus passos continuavam miúdos, mas, naquele instante, era como se ele deslizasse acima das pedras e chegasse sem convite, numa delicadeza exasperante, para perto de mim. E foi então que percebi que, ao contrário do que imaginava, quem ditava o ritmo de aproximação não era eu, mas o garoto em toda sua sabedoria de movimentos. Ele é que, durante todo o percurso, procurou não me assustar.
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Muito mais importante tinha ido ele para o ritmo de meus passos do que eu para os dele e, apesar do susto da conclusão, permaneci imóvel tremulante esperando o momento em que meu guia chegaria até meu encontro. E assim aconteceu.
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Sem dizer palavra, fatídico naquela réstia de ano, num átomo dourado de crepúsculo vindouro, ele estendeu-me sua pipa, olhou bem fundo nos meus olhos e simplesmente sorriu. Ficou assim por alguns instantes numa calma de passarinho por sobre os galhos e então novamente, após tantos anos, senti um mergulho de eternidade inundando meu peito.
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Naquele momento, toda as possibilidades de alvorada me pareceram reais. O tempo de um passado distante adiantou-se diante de mim e eu o podia tocar novamente. Os sonhos desabaram de dentro do sorriso daquele menino que me estendia sua pipa num ato altruísta, entregando-me aquele que deveria ser um de seus poucos brinquedos. Um ano inteiramente novo parecia estar sendo firmado naquele exato instante. Novamente senti-me seguro, homem detentor do controle de uma sensação que, mesmo ao toque de meus pensamentos, permaneceria ainda mais profundo dentro de minhas veias, alimentando algumas certezas extintas.
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Após tal mínimo relance de eternidade, ele, vagarosamente, recuou sua cabeça, fechou seus lábios, virou-se e saiu andando pela direção de onde viera. Simples, perfeito, exato e eternamente marcado dentro de mim. Meu ano novo havia se inaugurado naquele exato instante. Soube ali que havia tomado a decisão correta e que o caminho ainda me traria outras belas surpresas.
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Ergui os olhos e intuitivamente saí correndo atrás da criança quando ele virou a esquina. Chegando lá, espiando desconfiado na quebrada do muro, certifiquei me daquilo que desconfiava: o menino não estava mais ali. 
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