sábado, 11 de maio de 2019

Água de Sarjeta

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I
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Lascas de sentido
Respingam na minha mediocridade
Devaneando palavras escassas
Que prefiro esquecer
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Sintomas trêmulos de vontade
Arriscam se aproximar sutil 
Neste átomo da estanque rotina
Onde a poeira fez habitat
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Refluxos da madrugada gélida
Vociferam balburdias belas
Nesta câmara de energia vital
Que prefiro chamar de quarto
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II
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Mas arranco a centelha incauta 
Que teima no arrebate
De pés e mãos cotidianos
Ainda magoado do que fui
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Expulso a inspiração lisonjeira
Que me acaricia os ombros
E aquece minha alma vadia
Preferindo não me fazer melhor
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Esgarço o expoente da prontidão
Neste sujo enlevo cínico e egóico
Que lanço por sobre as horas
Tecendo o homem do não-fazer
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E me faço falsamente pleno
Adulando a minha desistência
Estimando a complacência cárcere
De minhas capacidades quiméricas 
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III
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Sinto um sentido esquivo
Que demais me regurgito
E que sagaz me renego
Supervoluntariamente
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Eis o revés de uma culpa 
Que imputei aos céus
Pelos trôpegos martírios
De insolúvel sufoco passado
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Eis a prostração da mágoa
Alargada nos altares virtuais
Preguiçosamente silente
Amalgamadamente errante
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Eis a fraca e retrátil proposta
Desta suposta não carência de arte
Que enraízo fundo em minha mente
Como tentativa de se me mentir
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IV
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Passos destilados fiz trôpegos 
Sapateando as calçadas
Feito nuvens de esquecer
Que um dia sonhei demais 
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Rápido fiz sortidas formas
Rabiscos fracos de situações 
Que enovelei e desgarrei
Para mudar os meus registros
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Andanças tão inconclusas
Formatadas feito água 
Respingando o artífice
De fingir estar indo além
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V
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Era a busca do anonimato
Que em qualquer viela 
Instaurava a novidade
Numa osmose de multidões
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Era a delícia de estar vago
Feito um labirinto de mim
Que desenhei abstrato
Como para não conseguir entender
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Fui proposital no erro genérico
Quimérico mínimo na esfera da polis
Maciço convicto de não tentar
Respiro renegado de um alimento bom
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VI
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Por tanto disso é que não sei sabendo   
Onde quedaram minhas auguras verbais
Meus assombros noturnos insaciáveis
Minhas escritas qualqueres de esparramos
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Por tanto disso é que não digo dizendo
Qual foi o movimento interno intenso
De abafar a catarse dos vocábulos
Gerando quietude ruidosa nas entranhas  
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Não sei realmente sabendo se foi por não querer
Ou por não tentar fazer destrinchar
Ou por preferir esquivar de tanto trabalho
Ou por um pouco do tanto que aqui já disse
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VII
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Sou sim o reverso do não saber
Posto que sei e como sei
O que no neste silêncio fingido
Espera na eterna verdade translúcida
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E sei que minhas instâncias internas
Permanentemente indecisas
Assaltam a agonia da existência
E arrebatam-me para o medo do fim
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Para o muro invisível onipresente
Para a invalidez do vácuo posterior
Para a inconclusão aerada
Que alguns acreditam formatar
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Para a pulsão arfante do minguado peito
Para o caos instante que nunca se espera
Para a eternidade delirante e silenciosa 
Que quase nunca faz questão de se mostrar 
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VIII
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Eis a significante perversa de mim 
Aquela que nunca diz e tanto muda
Aquela que se esgueira por entre todos
Enquanto possibilidade de fronteira
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Aquela que sobrepassa pelos cantos
Que transmuta a validez ou o inverso
Aquela que transfigura o mundo
E nos leva ao bel prazer do Deuses
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Aquela que salta dos retratos antigos
Das memórias mais inspiradoras
Dos recantos mais colocados de profundez
Ou do descampado mais agônico do humano
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IX
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A MORTE!
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X
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Este é o grande elemento significador 
Que surge nas intempéries imundas
Impulsando do enovelado mais interno
A vibrátil neoforma deste homem ex-poeta
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Este é o grande ventre metafórico
Que em sonho de criança se me mostrou
Feito núcleo inalcançável por mim
Ainda que instado na terra de meus ancestrais
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Esta é a dona permanente do bafio vaporoso
Fantasmagórica alegoria do carnaval-vida
Suplente possível da realidade táctil
Reversa raiz inarrancável da árvore carnal 

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XI
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Agora vejo com a claridade suficiente
O coração amedrontador da eterna luz
A máquina perpétua da energia cambiante
Capaz de exponenciar o niilismo da fisicalidade
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Agora pressinto a despretensão de suas ações
O intrínseco vazio de seu semblante
E vejo no vácuo de seus olhos murchos
A tristeza de ser algo tão absoluto
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Ela é como uma inescapável água de sarjeta 
Que carrega o fardo de ser renegada 
Mas que, no entanto, lava, leva e até humedece
Detendo, em si, todo fim e todo recomeço
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XII
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O MAIOR ANTÍDOTO PARA A ENTROPIA HUMANA!
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