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Gélido e sorrateiro
É o imaterial vento
Que suspira pelos cantos
E melindra entredentes
Os segredos desistentes
Dos secretos habitantes
Desta infinita madrugada
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Em tudo que descanso
Os olhos de além-mar
Retocam-se edificações
Quadradas, cinzentas e duras
Formas geométricas tristonhas
Que moldam meus humores
Como sendo entes outros
Denotando-me invisível
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Mas persigo a irrealidade
E prevejo a inexorável existência
Suprema, vã e absoluta
Que se reconforta magnânima
Ou que dormita impoluta
Nos vivos espaços castos
Que o homem não pensa
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São Paulo é de não ser!
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O espaço fraco sem chão
A esquina nunca virada
A parede lenta por fazer
O caos do futuro invencível
A reinvenção do homem
A transposição do cosmos
O toque da primeira divindade
E as trivialidades espalhadas
Anulando a hierarquia de Deus
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Meu eu-universo paulistano é assim
Nesta noite uterina e frígida
De uma cidade amórfica
Que se mata cotidianamente
Na esperança de vencer
Tua sina mediocrizante
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São Paulo é o terceiromundanismo
A eterna categoria insolúvel
Improfícua estrutura urbana
Intransponível irreconhecimento
Marginália esquiva desprezível
Carência ordinária escarrada
Que faz permitir a invenção
De tudo quanto se queira
De tudo que tanto mais se é
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Uma Macondo tropicalista
E assim prefiro pensá-la
Em sua metafisicalidade
Em sua metafísica-cidade
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Pensá-la-ei a meu modo
Nas pulsões das possibilidades
Que perpassam os becos e as almas
E observam o silêncio do nada
Meditando a forma inimaginada
Elaborando a perfeição destra
Esperando pacificamente
O percurso pulsante das eras
O modelar inviolável da energia
Na longitude epicêntrica dos pecados
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Pensá-la-ei por estimação
Numa forma de vivência outra
Um estado incólume de seres
Uma quase não presença
Forma intocável de matérias
De uma singeleza inédita
Nunca antes permitida
A não-palavra inexprimível
O vácuo sôfrego futuro
De uma colocação proibida
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Querê-la-ei monoliticamente
Uma pedra colossal impossível
Todo seu tempo neste exato instante
E sua urbanidade retalhada em versos
Feito invisíveis traçados rápidos
Colocados no poema em potencial
Nascido desta vibrátil atmosfera
Que por ser no não sido
Conseguiu exprimir a inexatidão
Da cidade inoculada em mim
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São Paulo é assim
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São Paulo é gerúndio perpétuo
Tudo que existe em tudo que há
E tudo foi presença nesta noite
Pois a cidade inteira coube aqui
Neste quarto noturno e vazio
Margeado incontestável
Do futuro de um qualquer
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E tantas coisas habitam o vento
O gélido e sorrateiro paulistano
Que suspira pelos cantos
E se fez presente neste laço
No redigido das possibilidades
De um significado a ser inventado
Tentando definir o que não há
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São Paulo é impropério e beleza
Ultrajante divindade mundana
O baixio das bestialidades
Num manguezal sólido porém fértil
A quintessência das antecipações
A mágica subequatorial incauta
A incredulidade do feto futuro
Ou o que ninguém nunca
Em nenhuma parte ou tempo
Chegará jamais a inventar
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São Paulo não é e nem somos...
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São Paulo não são!
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