domingo, 17 de setembro de 2006

DO CONCURSO QUE NÃO GANHEI

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Casa
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I
Onde moro eu enfim?
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Onde poderei eu morar um aconchego sem resquício?
Sem terço de quinto andar do vazio precipício?
Sem começo de todo sonho mudo vociferado interno em comício?
Sem término que cada punho que se soca emana em corte de cilício?
Ou sem tristeza torta vinda do penar altivo do edifício?
Onde posso eu morar enfim?
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Uma gruta num lugar?
Uma sala de espera, consultório-compulsório, doutorada em me des-esperar?
Um quarto sem lar?
Ou um quarto de tempo sem espaço nenhum?
Um átomo de horas sem vértices de algum?
Retas e traços desléxicos de mim?
Curvas de côncavos regaços convexos por mim?
Onde moro eu enfim?
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Não sei ainda dos lugares que me detêm
Nem mesmo dos momentos que de dentro vêm,
Tantos são os grotões de minhas vielas
Que em velas se iluminam em parafinas escorridas
Espalhadas apagadas ex-paralelas,
Mas que ainda enfeitam as cerâmicas frágeis,
Embalando de luz-lembrança o leito de cetim
Onde durmo pensando nas cascas d`alma
Que se encasulam e repousam em mim.
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II
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Lá há
Panelas de alumínio feito espelhos refletores,
Lustrosos de feijão e seus sabores,
Sazon de temperos de amores,
Sazonalidades de cortes e cores,
Vermelho-sangue-vivo-pomarolas,
Amarelo-doença-crença-virgem-que-me-enrolo-enrola,
Verde-vivo-vasto-vício-de-olho,
Florestas de ervas, tempero de molho
Num molho cosido cosendo o restolho
Que me resta das ervas loucas de uma infância não-fui-pimpolho.
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De molho cerzido o terno triste resiste em remendo,
Cortinas aladas dançam a música do fraco ao fortíssimo crescendo,
Frangalhos de colchas sábias retalhadas adotam-se de sereno,
Camisas dormitam no tanque alvejado do me redimo vivendo,
Sapatos dançam livres pela trilha que abri ainda pequeno
Entre altares que repartem espaços com memórias eternas do sendo.
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Lavrada lavanda lapida lavando os lençóis das bênçãos alvejantes
Que re-esfregam e secam refrescantes nos ventos zunidos cantantes
Que por entre frestas de madeira velha sapientizam corredores
Num mantra azulado de sóis e clamores
Que por nós lamentam-se sadista de dores
Num prazer fantasma clarividente em pavores.
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Cada canto sem espaço ecoa em coro meu coral primário
Num harmônico de vozes criadas por um companheiro ausente e solidário.
O misticismo do nunca conversa fiada com xale-escapulário,
E as horas arrastam-se temerosas em silêncio solitário
Por saberem da fraqueza das mobílias e armário
Que resistem não sei como aos avanços dos templários.
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III
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Peço perdão aos companheiros enrustidos neste lar,
Mas preciso dizer das maravilhas deste mim no sem lugar.
Um espaço feito estantes escaldantes de figuras
Que errantes embelezam os meus erros de auguras
Que habito em multidão intensa de poemas transbordantes,
Pois a lua vem sorrir misteriosa na janela exorbitante.
As florestas se estendem pelas salas das lembranças,
As escadas se suspendem pelas buscas das andanças
Minha infância é menina e dorme quieta sob o sol,
As janelas bailam soltas pelos ventos de arrebol
E se batem de alegria na folia destes dias
Que se expandem em cantorias cintilando harmonias.
Os meus sonhos brincam leves pelo ar em raro efeito
Num enfeite feito nuvem que se deita em peito leito.
Tantas artes se eternizam neste lar que habito eu,
Tantos olhos choram soltos por um tombo que doeu.
Os moleques criam asas na esperança de um sonho,
As bonecas saem livres pra dançar o som que ponho,
As estrelas me visitam na cadência do piano
E me falam da beleza que existe em outro plano,
Os meus dias são eternos neste tempo que habito,
Minha pressa foi-se embora, pois fundiu-se no sem grito,
Meus fantasmas foram loucos habitar outras paragens,
Os meus medos moram longe num lugar que é só miragem.
Minha dúvida finda certa na resposta dita assim:
Sei que moro entre morros nos cercados dos sem fim,
Sei que hoje moro manso nesta casa feita em mim.
Sei que agora posso dizer onde moro eu enfim.
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