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Continuando os posts que falam de livros que já li, mas não resenhei, vou falar um pouco sobre o Cem anos de solidão.
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Há tempos escrevi um texto vago sobre ele. Escrevi porque o livro me tocou bastante na época, a ponto de me levar a sonhos (mais de um) em que via os personagens andando pela casa que eu morava na Vila Mariana.
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O patriarca da família que fora amarrado a uma árvore, estava lá.
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A matriarca intensamente idosa, lúcida e misteriosa estava lá.
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O filho que fazia peixes de ouro para depois os desfazer e recomeçar infinitamente o trabalho, vezes e vezes, também estava lá.
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E eu, no meio de tudo aquilo, observava o trabalho do tempo permeando o dia-a-dia de todos.
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Até onde me lembro, este foi o primeiro e único livro que me levou a sonhar com seu enredo.
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Para mim, ele tem um dos inícios mais belos da literatura. Que é o seguinte:
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“Muitos anos depois, em frente ao pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendia haveria de recordar aquela tarde remota em que o seu pai o levou a conhecer o gelo.”
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Ele apresenta um convite muito gostoso a mergulhar no universo real-fantástico que esta obra mostrou ao mundo, abrindo as portas globais para literatura latino-americana. Ou seja, a nossa literatura.
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Basicamente, a história se passa dentro de uma casa antiga, em que vive uma família condenada à solidão. A solidão está como pano de fundo dos semblantes, das passagens, dos encontros e desencontros dos Buendía.
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A quantidade de personagens é enorme. Há mapas na internet que auxiliam na leitura, localizando os muitos e muitos Buendía, seus agregados e gerações a fim de localizar o leitor neste mar de caracteres humanos. No entanto, é mais interessante ler sem estes controles. Segue um mapa:
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Como alguns supõem acontecer na vida real, também neste romance, as histórias se repetem de geração em geração. Alguns papéis familiares são cíclicos e surgem novamente na pele de um outro Aureliano (são muitos), de um outro Buendía, de um outro soldado, de um outro desgarrado, de uma outra mulher calada, de uma outra postura e vivência.
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E estes ciclos vão enovelando o leitor a ponto de nos perdermos no meio de tantas referências. Aliás, acho que esta era mesmo a intenção de Gabriel Garcia Marques: fundir pessoas numa dimensão extra corporal a fim de moldar o verdadeiro clima de um bloco de almas condenadas a cem anos de solidão.
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O fantástico permeia o real de maneira muito espontânea, e eis aí o núcleo do realismo fantástico. As passagens trafegam pelo limiar existente entre as possibilidades de realidade. A magia é parte de tudo!
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Lembro-me bem de uma parte em que um dos Buendía chega em casa, depois de muitos anos fora, e está cercado, cortejado por borboletas amarelas, entre as quais ele se enovela numa imagem alada e iluminada: o eterno retorno do filho ao ninho dos pais!
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Há passagens em que a chuva foi constante por anos e anos. A cidade na qual se situa a casa, Macondo, no início é apenas uma aldeia, depois se desenvolve, mas por uma série de pestes, vai minguando, minguando e declinando, encerrando e evaporando-se por completo da existência a ponto de não podermos afirmar se ela realmente existiu. São mais ou menos estas as palavras do autor.
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Como faz oito anos que li, não me lembro de tantos detalhes. As coisas aqui relatadas são, principalmente, diretrizes gerais da obra.
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Mas ainda sim, resta em mim o prazer de ter lido um livro que, durante todo meu intercâmbio, ficou na minha cabeça como uma das primeiras coisas que iria fazer quando voltasse pro Brasil.
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Isso aconteceu porque a música da Ana Carolina, Violão e Voz, que ouvi muito, diz: “Ficar sozinho é pra quem tem coragem/ Eu vou ler meu livro 100 anos de solidão.”
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E no intercâmbio, eu realmente tive que ter coragem de ficar só.
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Quando voltei pro Brasil, e depois de ter passado na faculdade, fui até a biblioteca e peguei o livro logo nos primeiros meses de aula.
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Foi uma experiência muito boa!
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É um dos livros mais bonitos que já li!
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