Fiquei namorando esta peça por meses e, na última apresentação, (isso porque eu não sabia que era a última), cheguei ao teatro sem ingresso e fiquei esperando para ver se alguma pessoa desistiria de ir assistir, até porque, motivos não faltavam para isso, já que estava chovendo absurdos próximo do horário de início.
Havia duas pessoas na minha frente. Eles conseguiram dois ingressos, uma meia e uma inteira, daí fiquei eu lá esperando chegar mais gente querendo cancelar a entrada.
Quando de repente, uma mulher chega e pede o ingresso que estava reservado para ela. A moça da bilheteria mostra dois ingressos reservados. Ela pega um só e devolve o outro para o caixa.
Nessa hora pensei: vou ser cara de pau!!!
Calcei a cara e falei pra moça:
- Você não me daria este outro ingresso que você devolveu e não vai usar?!
Ela, numa boa, disse que sim e eu entrei, nestas condições derradeiras, para ver Antonio Petrin, Camila Morgado e Vera Holtz, no teatro Anchieta, sob a direção de José Wilker.
Muita sorte!!!
Uma peça que se baseia em relatos verídicos que percorreram a mídia na época da invasão do Iraque pelos americanos.
Três vidas são amarradas, mesmo sem se cruzarem, pela barbárie de uma guerra descabida.
Uma soldada americana com pouco estudo, seca, feia, maltratada pela vida, interpretada magistralmente por Camila Morgado, mostra-nos como o lado do vilão pode não ser tão vil assim. A personagem conta parte de sua vida, como engravidou, seus planos para retornar a sua nação, como ela, sem esperanças, poderia sobreviver depois da guerra, os motivos que a levaram a cometer barbaridades com os prisioneiros iraquianos. Uma mulher sem instrução, carente, feia que se deixa levar por soldados, e cai nas mãos deles, pois nunca tinha tido um homem bonito em toda sua vida.
Um segundo personagem, interpretado por Antonio Petrin, é o cientista inglês especialista em armas químicas de destruição em massa, que teve que mentir para o mundo afirmando haver tais tipos de arma em solo iraquiano, pois assim queriam os governantes. Ele se desilude das coisas, se esconde numa floresta, cometendo um velado suicídio, pensando assim poder salvar sua reputação.
Já Vera Holtz interpretou uma mãe iraquiana que vê seu marido revolucionário ser perseguido por Saddam Hussein. É levada para o tal Palácio do Fim para ser torturada, ela e seu filho, a fim de que um dos dois diga onde está o pai. Mas ambos agüentam firme. Ela cita o nome de Alá muitas vezes. Seu último monólogo é bastante tocante, encerrando a peça com chave de ouro. Nela, ela relata um sonho, no qual juntamente com seu filho, voa em direção aos olhos de Deus.
Foi muito emocionante!!!
Não há diálogos na peça! Mas os textos individuais que se revezam são extremamente bem escritos e tocantes.
Como era a última apresentação, os atores choraram, pessoas da platéia também.
Foi um momento bastante especial!!!
Texto de Judith Thompson.
Direção de José Wilker.
Com Antonio Petrin, Camila Morgado e Vera Holtz.
Cenografia: Marcos Flaksman.
Figurinos: Beth Filipecki.
Iluminação: Maneco Quinderé.
Música original: Marcelo Alonso Neves.
70min.
Teatro Anchieta – SESC Consolação




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