segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Antígona



Fui ver esta peça no projeto “Primeiro Sinal” que acontece no Espaço Beta, localizado no terceiro andar do SESC Consolação. Este projeto é uma proposta que o SESC tem de abrir portas para autores e atores iniciantes que necessitam de local para mostrarem seu trabalho.

Escrita pro Sófocles em torno do ano de 442 antes de Cristo, trata-se de um dos textos que compõem a trilogia Tebana e é um marco da literatura dramática de humanidade. Vale ressaltar que, a primeira das peças desta trilogia é, nada mais nada menos que “Édipo Rei”, que dispensa apresentações...

Narra a história de Antígona, irmã de Etéocles e Polinice, que vê seus irmãos, ambos filhos de Édipo, se matarem por interesses contrários em relação a Tebas. Sem herdeiros ao trono, é coroado o tio de ambos, Creonte. Este, por sua vez, determina que os dois irmãos devem ter sepultamentos diferentes. Etéocles terá sua sepultura normal, enquanto que Polinice será largado a esmo.

Sem aceitar esta determinação, a protagonista resolve intervir e, desrespeitando a vontade do soberano, Antígona enterra seu outro irmão, mesmo sabendo que isso poderia lhe custar a vida.

O cenário era super simples, apenas umas pedras de ruínas colocadas no chão, um biombo ao fundo do palco, e cortinas pretas que delimitavam os limites a esquerda e a direita da platéia.

O que mais me impressionou foi a atuação dos 12 alunos de Artes Cênicas da UNICAMP que estavam em cena e integram a “Honesta Companhia de Teatro”.

Baseando-se numa tradução que Bertold Brecht, datada de 1947, os atores, que se situavam muito próximos da platéia, transmitiam uma força tão grande na atuação. Eu, pelo menos, tive esta impressão.

Acredito que a platéia não tenha gostado tanto quanto eu, já que fui um dos que mais aplaudiram. Mas, a proximidade, a força do texto, a atuação dos atores principais, e mesmo o verdadeiro esforço de outros tão bons, esta conjunção de forças artísticas legítimas, na minha impressão, se juntaram num todo tão bem disposto, simples e intenso que me ganhou enquanto expectador.

O ator que fez o vilão, Creonte, estava muito bem! As atrizes que se revezavam no papel de Antígona estavam muito fortes!

E vale dar um especial destaque para a cena em que um dos atores interpreta Tirésias, um famoso profeta cego de Tebas. Este entra em cena andando vagarosamente do fundo do palco e, totalmente deformado, cego, e diz profecias apocalípticas caso o corpo de Polinice não fosse enterrado com dignidade.

Uma cena fortíssima! Um personagem sobre-humano!!!

É sempre bom tomar contato com os clássicos dos clássicos!



Aquarela



Mais um livro de poesias infantis escrito por Benita Carneiro!

Atendendo um pedido da escola Aquarela, localizada na cidade de Itanhandu, Minas Gerais, Benita escreveu algumas poesias rimadas e metrificadas a respeito de elementos do universo infantil.

Ter um livro com nome da escola era um sonho antigo desta instituição de ensino pré-escolar.

As poesias são singelas, apropriadas para crianças e foram ilustradas com desenhos de alguns alunos.

Um doce!




Balé da Cidade de São Paulo





Sempre tive o sonho de entrar no Theatro Municipal. E sempre tive o sonho de ver um espetáculo de dança contemporânea.

Um sábado de Julho, encontrava-me aqui em casa pensando onde poderia levar meus pais e minha professora de piano que estavam aqui em São Paulo. Queria fazer algo diferente, que não fosse cinema, afinal já tínhamos ido ao cinema na sexta de noite.

Procurei o Theatro São Pedro, na Sala São Paulo e nada que se encaixasse nos nossos horários e expectativas!

Lembro-me que no primeiro não havia nada acontecendo de noite, apenas um recital pela tarde. Já na Sala São Paulo, não me lembro o porquê de eu não ter escolhido nada que aconteceria naquele local. Talvez tenha sido pelo mesmo motivo, um concerto de tarde e nada de noite.

Resolvi então ver a programação do Theatro Municipal e tive uma surpresa quando vi que aconteceria lá um espetáculo do Balé da Cidade de São Paulo.

Telefonei pra saber se ainda havia lugares disponíveis, a pessoa me garantiu que sim, então partimos para lá a fim de comprar quatro cadeiras.

Logo que as luzes se apagaram, deu-se uma música futurista, com outras luzes diferentes e bailarinos entraram vestidos de terno e gravata, as mulheres com trajes finos e um emaranhado de gestos começaram a traçar um panorama não-verbal do homem no mundo atual, seus encontros e principalmente desencontros, suas múltiplas tarefas, confusões, brigas e elementos da coreografia chamada: Cidade Incerta. A coreografia, feita para o BCSP em 2011 e assinada por André Mesquita, é baseada nO Livro do Desassossego de Bernardo Soares, um dos heterônimos de Fernando Pessoa. A trilha é desconcertante!




Após o intervalo, deu-se início a segunda dança: “Paraíso Perdido”.

Para compor esta coreografia, Andonis Foniadakis buscou inspiração na obra do pintor holandês Hieronymus Bosch. Nesta, pareceu-me que estava sendo encenado uma passagem sobre a lógica da natureza e do homem. No início os dançarinos entraram vestindo máscaras de animais e simularam danças copulais, numa multiplicação aparentemente desordenadas de instintos, que trazia muito do tempo natural de acontecimento dos ciclos biológicos. Se bem entendi, num determinado momento, havia a intervenção do homem, que também adentrava e modificava este universo, perpetuando e alterando as leis já presentes ali. Depois um processo de dissolução do humano diante de forças naturais maiores, foi sendo colocado, novamente as regras animais, que ganharam nova intensidade, talvez de maneira um pouco remodeladas e assim, a companhia iniciava um longo processo de retirada e afastamento, levando embora, fazendo-nos perder o Paraíso Perdido, e lançando-nos numa ligeira sensação de abandono, enquanto toda aquela beleza e harmonia ia se encaminhando para fora da cena.




A trilha, desta vez, ainda mais distante dos padrões musicais, retratava uma atmosfera caótica, porém dotada de suas próprias leis organizadoras, os instintos, a sobrevivência, a troca ampla e perfeita que cerca tudo que é natural. As luzes e os efeitos, telas transparentes sobrepostas, eram armados de uma maneira que por vezes parecia que estávamos olhando um filme de ficção científica. O palco não estava ali, os dançarinos não estavam ali, nós não estávamos ali. Efeitos impressionantes, de uma estética que, mesmo quando se absorvia o mecanismo técnico, a essência não perdia sua magia.

Acredito que somente a dança poderia retratar tão profundamente o desenrolar dos biomas naturais, os padrões sutis de um sistema que transcende o, por vezes, estreito, mundo humano. O homem pode ser medíocre, a natureza nunca é, pois nela não há espaço para deslizes.

Não haveria, a meu ver, maneira melhor de traduzir o invisível e indizível da biosfera. Acredito que, o molde da dança é o melhor para retratar esta natureza de informações tão transcendentes em todos nós!


Balé da Cidade de São Paulo

“Cidade Incerta”
André Mesquita – coreografia
Eduardo Agni – trilha sonora
Soraya Kölle – cenografia
Cássio Brasil – figurinos 
Wagner Freire – desenho de Luz
Duração: 30 minutos

Intervalo 15’

"Paraíso Perdido"
Coreografia - Andonis Foniadakis
Música e Partitura Original - Julien Tarride
Design de luz - Guilherme Bonfanti
Concepção Cenográfica e Vídeo - Andonis Foniadakis e Julien Tarride
Figurinos - João Pimenta
Máscaras - Igor Alexandre Martins
Duração - 50 minutos




Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge



Fazer filme de encerramento da trilogia que, já tinha em seu currículo, o “Cavaleiro das Trevas” com o lendário Curinga interpretado por Heath Ledger, era tarefa pra roteirista nenhum botar defeito.

Os próprios diretores já haviam declarado, antes mesmo do filme estrear, que não pretendiam criar um vilão que superasse o Curinga. E realmente não fizeram!

Primeiro que o Curinga ganhou força com a morte trágica do ator que o interpretava, segundo que era a terceira etapa de rodagem de uma trilogia que já havia levado o ritmo narrativo a pontos extremos. Ou seja, só aí já estão perdidos dois diferenciais.

Outros pontos que reparei foram que, a utilização de elementos pouco reais (como a prisão no meio do nada, que achei meio exagerada) mesclada a um enredo que procurava fixar-se em argumentos enraizados no cotidiano mundano, estava mais presente neste episódio que no segundo.

Outra coisa que não me agradou foi que, os autores tentaram elevar os padrões interpretativos das tramas e acontecimentos, além de elevarem também o caos de Gotham City, mas, neste esforço, se perderam em alguns pontos conclusivos.

O vilão aparecia em todo lugar com uma facilidade um tanto estranha, as suas ações de vilania aconteciam sem problemas. Todo o caos montado ia acontecendo sem que a realidade estabelecida dentro do universo ficcional fizesse frente a ela.

Que eu me lembre, no segundo filme, a trama era forte, mas, talvez por não ter o compromisso de superar um padrão tão alto, fluiu de uma maneira mais coerente que esta, ainda que também com falhas.

Agora nesta, pareceu-me apelativo a forma como a realidade ampliada e aprofundada pela ficção fixou-se no duo: caos total minuciosamente construído (ou quase) + Gotham City como microcosmo do mundo atual.

Ora, este duelo de forças, que, a meu ver, era o que de mais impressionante havia no segundo filme, aqui, foi forçadamente esgarçado para superar seusmaior rival: o filme antecedente.

Além disso, um elemento surpresa que, acredito que tenha sido colocado como forma de catalisar os ânimos e suspender o espectador, serviu, na minha e também segundo outras opiniões, para aumentar a descrença na obra geral, que é a transferência de vilões próximo ao final da trama, ou a revelação do verdadeiro vilão, subjugando o monstro construído durante todo o tempo da história, a um simples coadjuvante brutamontes, pau mandado.

Tirando estes elementos, o filme é legal, tecnicamente bem feito e envolve sim! O fato é que, como ele possui estes elementos mais profundos de crítica social e de estruturação do mal, cabe sim fazer estas críticas pesadas de elementos que poderiam perfeitamente passar despercebidos!

Christian Bale é o próprio Batman! Ele cabe muito bem no papel! Isso não se discute!

Enfim, foi o que eu esperava! Um bom filme, mas não o fim de uma trilogia deste porte!


FICHA TÉCNICA

Diretor: Christopher Nolan
Produção: Christopher Nolan, Charles Roven, Emma Thomas
Roteiro: Christopher Nolan, Jonathan Nolan
Fotografia: Wally Pfister
Trilha Sonora: Hans Zimmer
Duração: 165 min.
Ano: 2012
País: EUA, Reino Unido
Gênero: Ação
Cor: Colorido
Distribuidora: Warner Bros.
Estúdio: DC Entertainment / Legendary Pictures / Syncopy / Warner Bros.
Classificação: 12 anos

Elenco Principal:

Christian Bale – Bruce Wayne/ Batman
Anne Hathaway – Selina Kyle
Tom Hardy – Bane
Gary Oldman – Comissário Jim Gordon
Morgan Freeman – Lucius Fox
Michael Caine – Alfred
Joseph Gordon Levitt – John Blake
Marion Cottilard – Miranda Tate
Josh Pence – Ra’s al Ghul (Jovem)
Juno Temple – Holly Robinson



Bem Amadas



Conta a história de uma mãe e de uma filha que vivem, cada uma a seu tempo, seus casos de amor e desilusão.

Na verdade, mais desilusão do que amor!

Acredito, se bem me lembro, que o centro da trama gira em torno do paralelo existente entre as duas personagens. É mostrando que, de certo modo, a influência da mãe e sua atuação quase recreativa como prostituta, bem como as cenas de uma posterior crise conjugal em que ela fica divida entre dois homens que a disputam, não foram boas influencias para sua filha, o que acarretou numa personalidade frívola, perdida e desregrada.

Bem Amadas é um título irônico!

Cada uma, a seu tempo, e subjugadas às características de sua época, vivem um forte desencontro.

Acredito que a filha sofra mais, já que a mãe é amada por mais de um, apesar de sofrer na mão dos dois. Já a filha não é amada, ou se amada é posteriormente dispensada, e se lança constantemente em aventuras mais esparsas que nunca dão certo.

Um filme complexo e bastante delicado, sem comparações simplistas entre as duas personagens! O eterno lance das figuras maternas e suas filhas!


FICHA TÉCNICA
Diretor: Christophe Honoré
Elenco: Chiara Mastroianni, Catherine Deneuve, Ludivine Sagnier, Louis Garrel, Milos Forman, Paul Schneider, Radivoje Bukvic, Michel Delpech, Omar Ben Sellem, Dustin Segura-Suarez
Produção: Pascal Caucheteux
Roteiro: Christophe Honoré
Fotografia: Rémy Chevrin
Trilha Sonora: Alex Beaupain
Duração: 139 min.
Ano: 2011
País: França, Reino Unido, República Checa
Gênero: Drama
Cor: Colorido
Distribuidora: Imovision
Estúdio: Why Not Productions / France 2 Cinéma / Sixteen Films / Canal+ / France Télévision / Orange Cinéma Séries / Région Ile-de-France / Negativ / Le Fonds d'Action de la Sacem
Classificação: 16 anos



Cara ou Coroa



Um filme brasileiro lado B. Ou seja, um lado B de um país que, em geral, faz um cinema lado B no mundo. É bastante lado B. Talvez um pouco demais!

Não gostei, nem desgostei! Achei um pouco amador demais, mas me soou como um filme verdadeiro, sincero! Uma tentativa engajada de fazer um longa-metragem! Pelo menos foi assim que vi tudo aquilo.

O filme se passa nos anos 70, época em que o Brasil estava sob o regime militar.

Um diretor de teatro tem ligações com o partido comunista que ajuda a bancar sua peça. Esta peça, que ainda está no período de ensaios, possui um cunho político de protesto contra a situação vigente. Este diretor, João Pedro, interpretado pelo ator Emílio de Mello, recebe com certa freqüência, a visita de um integrante do partido comunista, que questiona sobre o conteúdo de sua peça, lembra-o freqüentemente que toda a companhia recebe ajuda do partido e por isso eles devem responder por este patrocínio.

Junto ao diretor está seu parente Getúlio e sua namorada Lilian, interpretados por Geraldo Rodrigues e Júlia Ianina, respectivamente, é claro!!!

Num determinado ponto da estória, o integrante do PC pede que eles arranjem um lugar para esconder dois colaboradores do partido e diz que isso é muito importante para todos!

Getúlio e Lilian resolvem ajudar e escondem os dois guerrilheiros no porão da casa do avô da moça. O problema é que o velho é um ex-general das forças armadas e, caso fique sabendo do que os dois andaram aprontando, pode botar tudo a perder.

Então começa o suspense maior da trama. Outras tragédias acontecem, como o incêndio no teatro, e o cerco se acirra, até que, novamente o integrante do partido dá o sinal de que deveriam, enfim, retirar os dois foragidos do porão onde se encontravam e entregá-los a outros companheiros de luta, já que o esconderijo não era mais seguro.

E assim se faz.

Depois disso, a película vai se encaminhando pro desfecho e resta no ar o suspense se o general sabia ou não sabia que aqueles dois estavam escondidos na sua própria casa. Isso é reforçado por uma cena em que ele se declara abertamente anti-comunista, mas, também se diz bastante decepcionado com os militares, seus parceiros de profissão, já que, em sua época, não havia torturas, prisões por motivos político-ideológicos e outras barbaridades que chegaram até seus ouvidos por meio de soldados que ainda estavam na ativa.

Assim, ficou preparado o campo para o enigma insolúvel!

Os atores não estão todos bem! Alguns são bem fracos e, como uma das coisas que eu mais observo num filme, são as atuações, isso enfraqueceu bastante a impressão que tive sobre tudo que foi mostrado na tela.

Não recomendo 100%, mas, caso não se tenha nada pra fazer, melhor ver Cara ou Coroa do que muitos e muitos outros programas que passam na TV aberta.

Além disso, sair de casa para ir ao cinema sozinho é uma terapia altamente recomendável!



Brasil , 2012 - 110
Comédia / Drama

Direção:
Ugo Giorgetti

Roteiro:
Ugo Giorgetti

Elenco:
Emilio de Mello, Julia Ianina, Geraldo Rodrigues, Otávio Augusto, Walmor Chagas, Thaia Perez, Eduardo Tornaghi, Gabriela Rabelo, Helio Cícero, Juliana Galdino, Julia Feldens, Andrea Tedesco, Danilo Grangheia, Francisco Carvalho



FICHA TÉCNICA
Diretor: Ugo Giorgetti
Elenco: Emilio de Mello, Julia Ianina, Geraldo Rodrigues, Otávio Augusto, Walmor Chagas, Thaia Perez, Eduardo Tornaghi, Gabriela Rabelo, Helio Cícero, Juliana Galdino, Julia Feldens, Andrea Tedesco, Danilo Grangheia, Francisco Carvalho
Produção: Malu Oliveira
Roteiro: Ugo Giorgetti
Fotografia: Walter Carvalho
Duração: 110 min.
Ano: 2012
País: Brasil
Gênero: Drama
Cor: Colorido
Distribuidora: Vinny Filmes
Classificação: 12 anos



Headhunter



O filme inicia com o dia-a-dia de um Headhunter, um caçados de talentos da Noruega, baixinho, sem grandes atrativos físicos, que mantém sua vida, seu ego e sua bela e grande mulher roubando obras de arte para revendê-las.

Ele precisa encontrar um cara novo para sua empresa, mas não pode encontrar algum tão bom que ponha seu próprio cargo em perigo, desconfiando de suas outras formas de conseguir dinheiro.

Surge então um, com um currículo impecável, estatura física avantajada, sedutor e que se lança sobre sua mulher.

Até aí, só mais um filme de enredo rápido e voz em off dizendo frases bem sacadas sobre o dia-a-dia de um cara bem sucedido!

Acontece que, o talento que ele deve analisar e contratar, é um ex-oficial do exército treinado para a caça de ladrões. Então a coisa piora e dá-se início a uma trama policial das mais bem costuradas que eu já vi.

A amante do protagonista, na verdade é parceira de seu assassino em potencial, justamente o cara que ele deve analisar para contratação. Este já sabe de todas as suas tramóias como ladrão de obras de arte e mexe com pontos tentando enfraquecer sua presa.

Começa uma perseguição absurda, super complexa e muito calcada no limiar do possível, apesar da licença da arte.

Assim, o protagonista, o headhunter, foge com um quadro e se esconde. Seu parceiro de roubos teve que ser morto por ele mesmo. Assim sutilmente vão sendo adicionado elementos à trama que, ao final, vão ser os pontos solucionadores do beco sem saída no qual o protagonista se mete.

Um desses elementos é a posição da câmera que seu ajudante usava para gravar os stripes que as prostitutas contratadas por ele faziam em seu esconderijo. A câmera não focaliza a cama inteira e isso, o protagonista usa a seu favor, numa montagem final dos elementos chaves.

Outra coisa é o cabelo raspado, no qual foi grudado um micro-chip que dava a localização do protagonista. Ele foi colocado dentro de uma mala, o que ajudou na confusão que se formou e afastou o vilão, e a mala foi posicionada em outro ponto em movimento que não a cabeça do protagonista.

Outros elementos como a troca de rostos, a sua esposa que no fim o ajuda na inversão total de todos os fatos, o delegado de polícia que se atrapalha, e muitos e muitos outros, tudo, pelo menos aparentemente, se fecha num roteiro que soa sem falhas!

Enfim, é difícil detalhar todos os pontos!

Um discurso final fecha pontos lógicos da trama que por vezes possam ter passado despercebidos até aos mais atentos expectadores! Mas, isso só faz o filme ganhar mais força!

Um filme cabeçudo demaaaais!!! Pra ver mais de uma vez!


Ficha Técnica:

Headhunters (Hodejegerne) – 100 min
Noruega, Alemanha – 2011
Direção: Morten Tyldum
Roteiro: Lars Gudmestad, Ulf Ryberg – Baseado em romance de Jo Nesbø
Elenco: Aksel Hennie, Nikolaj Coster-Waldau, Synnøve Macody Lund, Eivind Sander, Julie Ølgaard



Infância – Maksim Górki



Um livro triste que retrata a dura realidade pela qual passava a Rússia nos fim do século XIX. Dura e intensa, que ajudou a forjar a história de um povo unido e glorioso de sua pátria.

Seu autor, Maksim Górki, contemporâneo de Léon Tolstoi, é reconhecido internacionalmente por este romance biográfico e também por outros que o sucederam, nos quais relata uma grande quantidade de passagens de sua vida, com enorme capacidade de descrição de detalhes.

Aliás, este é um dos pontos forte de sua literatura. O autor é reconhecido e aclamado justamente por possuir uma maneira enfática de dizer dos detalhes e de descrever os aspectos físicos dos momentos que viveu. Além deste lance, tocado ao realismo, ele mescla com freqüência uma outra característica literária que é a sua maneira de dizer sobre impressões que estes mesmos momentos despertaram em sua alma. Cheiros, gostos, vozes, luzes, paisagens se mesclam, num aglomerado de impressões e adjetivos que se intercambiam, gerando quadros sinestésicos bastante interessantes e envolventes.

Infância se inicia com a morte do pai do autor, que possuía o mesmo nome do filho, ou vice-versa, de preferência. Logo de início já temos as descrições do enterro, a posição dos pés do pai, os dedos abertos no caixão. Alongando-se no relato, a história biográfica se desenrola, mostrando-nos o que se sucedeu deste acontecimento bastante importante pro escritor.

Após a morte de seu patriarca, o menino Maksim foi levado por sua mãe até a casa dos avós para ser criado por eles. Após este acontecimento, sua mãe sai pelo mundo e se torna bastante ausente na vida do filho.

Nesta nova fase, o garoto descobre duas figuras muito marcantes para sua vida: seu avó, homem que fora rico, mas empobrecera por conta das impertinências dos dois filhos homens; e a avó, figura central na primeira formação de vida pela qual o pequeno menino iria começar a passar. A avó, uma mulher forte, benevolente, dona de uma fé fortificante, contava história do povo para o menino que a ouvia com atenção. Além disso, ela apanhava do marido, se chateava constantemente com seus dois filhos e sentia preocupações com sua filha, mãe de Maksim, que deixara seu filho e saíra pelo mundo.

É interessante uma passagem em que o autor, baseado em suas lembranças de infância, relata como os Deuses de seu avô e de sua avó eram diferentes. O Deus do avô é duro, austero, aparentemente injusto e não responde às suas questões mais profundas. Já o Deus da avó também não responde às questões como ela gostaria, mas ela, num esforço de grandeza, se propõe a se resignar e a entender os silêncios da vida de maneira alentadora.

O livro vai se desenrolando com uma série interminável de desgraças, pessoas que morrem, brigas sem fim, falcatruas, roubos, miséria crescente, trocas constantes de casa, acidentes e, em meio a tudo isso, o autor vai se formando, tomando consciência de si e se posicionando em relação a tudo aquilo, mas ainda de maneira primária, já que se trata de uma criança.

Sua mãe volta pra casa, se enrosca com homens, vai à festas, se casa de novo, perde uma criança, é traída pelo marido mais e coisas do tipo.

Nisso o menino começa a se tornar mais jovem e descobre as ruas, se torna mais independente, ganha amigos e conhece um pouco mais o gosto da liberdade que o encanta, e assim não se permite muito mais permanecer no círculo em que havia sido criado.

No fim, mais um tragédia e as frases de conclusão, iniciando pelo que seu avô lhe disse:

“– Bem, Leksiei, você não é medalha para ficar pendurado no meu pescoço, aqui não tem lugar para você, então vá ganhar o seu pão e ser gente...”

E o autor responde:

“E eu fui ser gente.”

FIM

Dando a entender que a partir desse ponto, se encerrava sua Infância e começava uma nova fase de suas histórias.

Além deste aspecto pessoal das palavras deste livro, o autor, também por conseqüência da natureza de seus relatos, mas não só por isso, vai tecendo um denso painel da Rússia daquela época e, por vezes, ele se debruça mesmo sobre esta intenção, como no capítulo 10, página 213:

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“Muito mais tarde, compreendi que os russos, em razão da indigência e da penúria de sua vida, em geral adoram distrair-se com a própria desgraça, brincam com ela como crianças e raramente se envergonham de ser infelizes.”

“Na monotonia interminável dos dias úteis, até a desgraça é um feriado, e até um incêndio é uma distração; num rosto vazio, até um arranhão é um enfeite.”

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No entanto, ele também demonstra momentos de nacionalismo otimista, exaltando as qualidades do povo ao qual fazia parte, como na página 271, nos últimos dois parágrafos do penúltimo capítulo:

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“E há razão, mais positiva, que me força a descrever essas coisas sórdidas. Apesar de elas serem repugnantes, apesar de nos oprimirem, esmagando até a morte uma multidão de espíritos excelentes, o homem russo é jovem e sadio de espírito o bastante para superá-las, e vai superá-las.

Nossa vida não é só espantosa por haver nela uma camada tão fecunda e gorda de toda sorte de canalhice bestial, mas por, mesmo assim, conseguir germinar através dessa camada algo claro, saudável e criador, cresce o bem – o humano, que desperta uma esperança invencível em nossa regeneração para uma vida clara, humana.”

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Um livro intenso e rico, como qualquer livro de uma pessoa que se propõe a escrever uma obra sobre sua própria vida.