Um livro triste que retrata a
dura realidade pela qual passava a Rússia nos fim do século XIX. Dura e intensa,
que ajudou a forjar a história de um povo unido e glorioso de sua pátria.
Seu autor, Maksim Górki,
contemporâneo de Léon Tolstoi, é reconhecido internacionalmente por este
romance biográfico e também por outros que o sucederam, nos quais relata uma
grande quantidade de passagens de sua vida, com enorme capacidade de descrição
de detalhes.
Aliás, este é um dos pontos forte
de sua literatura. O autor é reconhecido e aclamado justamente por possuir uma
maneira enfática de dizer dos detalhes e de descrever os aspectos físicos dos
momentos que viveu. Além deste lance, tocado ao realismo, ele mescla com
freqüência uma outra característica literária que é a sua maneira de dizer
sobre impressões que estes mesmos momentos despertaram em sua alma. Cheiros,
gostos, vozes, luzes, paisagens se mesclam, num aglomerado de impressões e
adjetivos que se intercambiam, gerando quadros sinestésicos bastante
interessantes e envolventes.
Infância se inicia com a morte do
pai do autor, que possuía o mesmo nome do filho, ou vice-versa, de preferência.
Logo de início já temos as descrições do enterro, a posição dos pés do pai, os
dedos abertos no caixão. Alongando-se no relato, a história biográfica se
desenrola, mostrando-nos o que se sucedeu deste acontecimento bastante
importante pro escritor.
Após a morte de seu patriarca, o
menino Maksim foi levado por sua mãe até a casa dos avós para ser criado por
eles. Após este acontecimento, sua mãe sai pelo mundo e se torna bastante
ausente na vida do filho.
Nesta nova fase, o garoto
descobre duas figuras muito marcantes para sua vida: seu avó, homem que fora
rico, mas empobrecera por conta das impertinências dos dois filhos homens; e a
avó, figura central na primeira formação de vida pela qual o pequeno menino
iria começar a passar. A avó, uma mulher forte, benevolente, dona de uma fé
fortificante, contava história do povo para o menino que a ouvia com atenção.
Além disso, ela apanhava do marido, se chateava constantemente com seus dois
filhos e sentia preocupações com sua filha, mãe de Maksim, que deixara seu
filho e saíra pelo mundo.
É interessante uma passagem em
que o autor, baseado em suas lembranças de infância, relata como os Deuses de
seu avô e de sua avó eram diferentes. O Deus do avô é duro, austero, aparentemente
injusto e não responde às suas questões mais profundas. Já o Deus da avó também
não responde às questões como ela gostaria, mas ela, num esforço de grandeza,
se propõe a se resignar e a entender os silêncios da vida de maneira
alentadora.
O livro vai se desenrolando com
uma série interminável de desgraças, pessoas que morrem, brigas sem fim,
falcatruas, roubos, miséria crescente, trocas constantes de casa, acidentes e,
em meio a tudo isso, o autor vai se formando, tomando consciência de si e se
posicionando em relação a tudo aquilo, mas ainda de maneira primária, já que se
trata de uma criança.
Sua mãe volta pra casa, se
enrosca com homens, vai à festas, se casa de novo, perde uma criança, é traída
pelo marido mais e coisas do tipo.
Nisso o menino começa a se tornar
mais jovem e descobre as ruas, se torna mais independente, ganha amigos e
conhece um pouco mais o gosto da liberdade que o encanta, e assim não se
permite muito mais permanecer no círculo em que havia sido criado.
No fim, mais um tragédia e as
frases de conclusão, iniciando pelo que seu avô lhe disse:
“– Bem, Leksiei, você não é
medalha para ficar pendurado no meu pescoço, aqui não tem lugar para você,
então vá ganhar o seu pão e ser gente...”
E o autor responde:
“E eu fui ser gente.”
FIM
Dando a entender que a partir
desse ponto, se encerrava sua Infância e começava uma nova fase de suas
histórias.
Além deste aspecto pessoal das
palavras deste livro, o autor, também por conseqüência da natureza de seus
relatos, mas não só por isso, vai tecendo um denso painel da Rússia daquela
época e, por vezes, ele se debruça mesmo sobre esta intenção, como no capítulo
10, página 213:
.................................
“Muito mais tarde, compreendi que
os russos, em razão da indigência e da penúria de sua vida, em geral adoram
distrair-se com a própria desgraça, brincam com ela como crianças e raramente
se envergonham de ser infelizes.”
“Na monotonia interminável dos
dias úteis, até a desgraça é um feriado, e até um incêndio é uma distração; num
rosto vazio, até um arranhão é um enfeite.”
.................................
No entanto, ele também demonstra
momentos de nacionalismo otimista, exaltando as qualidades do povo ao qual
fazia parte, como na página 271, nos últimos dois parágrafos do penúltimo
capítulo:
.................................
“E há razão, mais positiva, que
me força a descrever essas coisas sórdidas. Apesar de elas serem repugnantes,
apesar de nos oprimirem, esmagando até a morte uma multidão de espíritos
excelentes, o homem russo é jovem e sadio de espírito o bastante para
superá-las, e vai superá-las.
Nossa vida não é só espantosa por
haver nela uma camada tão fecunda e gorda de toda sorte de canalhice bestial,
mas por, mesmo assim, conseguir germinar através dessa camada algo claro,
saudável e criador, cresce o bem – o humano, que desperta uma esperança
invencível em nossa regeneração para uma vida clara, humana.”
.................................
Um livro intenso e rico, como
qualquer livro de uma pessoa que se propõe a escrever uma obra sobre sua
própria vida.