segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Balé da Cidade de São Paulo





Sempre tive o sonho de entrar no Theatro Municipal. E sempre tive o sonho de ver um espetáculo de dança contemporânea.

Um sábado de Julho, encontrava-me aqui em casa pensando onde poderia levar meus pais e minha professora de piano que estavam aqui em São Paulo. Queria fazer algo diferente, que não fosse cinema, afinal já tínhamos ido ao cinema na sexta de noite.

Procurei o Theatro São Pedro, na Sala São Paulo e nada que se encaixasse nos nossos horários e expectativas!

Lembro-me que no primeiro não havia nada acontecendo de noite, apenas um recital pela tarde. Já na Sala São Paulo, não me lembro o porquê de eu não ter escolhido nada que aconteceria naquele local. Talvez tenha sido pelo mesmo motivo, um concerto de tarde e nada de noite.

Resolvi então ver a programação do Theatro Municipal e tive uma surpresa quando vi que aconteceria lá um espetáculo do Balé da Cidade de São Paulo.

Telefonei pra saber se ainda havia lugares disponíveis, a pessoa me garantiu que sim, então partimos para lá a fim de comprar quatro cadeiras.

Logo que as luzes se apagaram, deu-se uma música futurista, com outras luzes diferentes e bailarinos entraram vestidos de terno e gravata, as mulheres com trajes finos e um emaranhado de gestos começaram a traçar um panorama não-verbal do homem no mundo atual, seus encontros e principalmente desencontros, suas múltiplas tarefas, confusões, brigas e elementos da coreografia chamada: Cidade Incerta. A coreografia, feita para o BCSP em 2011 e assinada por André Mesquita, é baseada nO Livro do Desassossego de Bernardo Soares, um dos heterônimos de Fernando Pessoa. A trilha é desconcertante!




Após o intervalo, deu-se início a segunda dança: “Paraíso Perdido”.

Para compor esta coreografia, Andonis Foniadakis buscou inspiração na obra do pintor holandês Hieronymus Bosch. Nesta, pareceu-me que estava sendo encenado uma passagem sobre a lógica da natureza e do homem. No início os dançarinos entraram vestindo máscaras de animais e simularam danças copulais, numa multiplicação aparentemente desordenadas de instintos, que trazia muito do tempo natural de acontecimento dos ciclos biológicos. Se bem entendi, num determinado momento, havia a intervenção do homem, que também adentrava e modificava este universo, perpetuando e alterando as leis já presentes ali. Depois um processo de dissolução do humano diante de forças naturais maiores, foi sendo colocado, novamente as regras animais, que ganharam nova intensidade, talvez de maneira um pouco remodeladas e assim, a companhia iniciava um longo processo de retirada e afastamento, levando embora, fazendo-nos perder o Paraíso Perdido, e lançando-nos numa ligeira sensação de abandono, enquanto toda aquela beleza e harmonia ia se encaminhando para fora da cena.




A trilha, desta vez, ainda mais distante dos padrões musicais, retratava uma atmosfera caótica, porém dotada de suas próprias leis organizadoras, os instintos, a sobrevivência, a troca ampla e perfeita que cerca tudo que é natural. As luzes e os efeitos, telas transparentes sobrepostas, eram armados de uma maneira que por vezes parecia que estávamos olhando um filme de ficção científica. O palco não estava ali, os dançarinos não estavam ali, nós não estávamos ali. Efeitos impressionantes, de uma estética que, mesmo quando se absorvia o mecanismo técnico, a essência não perdia sua magia.

Acredito que somente a dança poderia retratar tão profundamente o desenrolar dos biomas naturais, os padrões sutis de um sistema que transcende o, por vezes, estreito, mundo humano. O homem pode ser medíocre, a natureza nunca é, pois nela não há espaço para deslizes.

Não haveria, a meu ver, maneira melhor de traduzir o invisível e indizível da biosfera. Acredito que, o molde da dança é o melhor para retratar esta natureza de informações tão transcendentes em todos nós!


Balé da Cidade de São Paulo

“Cidade Incerta”
André Mesquita – coreografia
Eduardo Agni – trilha sonora
Soraya Kölle – cenografia
Cássio Brasil – figurinos 
Wagner Freire – desenho de Luz
Duração: 30 minutos

Intervalo 15’

"Paraíso Perdido"
Coreografia - Andonis Foniadakis
Música e Partitura Original - Julien Tarride
Design de luz - Guilherme Bonfanti
Concepção Cenográfica e Vídeo - Andonis Foniadakis e Julien Tarride
Figurinos - João Pimenta
Máscaras - Igor Alexandre Martins
Duração - 50 minutos




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