Sempre
tive o sonho de entrar no Theatro Municipal. E sempre tive o sonho de ver um
espetáculo de dança contemporânea.
Um
sábado de Julho, encontrava-me aqui em casa pensando onde poderia levar meus
pais e minha professora de piano que estavam aqui em São Paulo. Queria fazer
algo diferente, que não fosse cinema, afinal já tínhamos ido ao cinema na sexta
de noite.
Procurei
o Theatro São Pedro, na Sala São Paulo e nada que se encaixasse nos nossos
horários e expectativas!
Lembro-me
que no primeiro não havia nada acontecendo de noite, apenas um recital pela
tarde. Já na Sala São Paulo, não me lembro o porquê de eu não ter escolhido
nada que aconteceria naquele local. Talvez tenha sido pelo mesmo motivo, um
concerto de tarde e nada de noite.
Resolvi
então ver a programação do Theatro Municipal e tive uma surpresa quando vi que
aconteceria lá um espetáculo do Balé da Cidade de São Paulo.
Telefonei
pra saber se ainda havia lugares disponíveis, a pessoa me garantiu que sim,
então partimos para lá a fim de comprar quatro cadeiras.
Logo
que as luzes se apagaram, deu-se uma música futurista, com outras luzes
diferentes e bailarinos entraram vestidos de terno e gravata, as mulheres com
trajes finos e um emaranhado de gestos começaram a traçar um panorama
não-verbal do homem no mundo atual, seus encontros e principalmente
desencontros, suas múltiplas tarefas, confusões, brigas e elementos da
coreografia chamada: Cidade Incerta. A coreografia, feita para o BCSP em 2011 e
assinada por André Mesquita, é baseada nO Livro do Desassossego de Bernardo
Soares, um dos heterônimos de Fernando Pessoa. A trilha é desconcertante!
Após
o intervalo, deu-se início a segunda dança: “Paraíso Perdido”.
Para
compor esta coreografia, Andonis Foniadakis buscou inspiração na obra do pintor
holandês Hieronymus Bosch. Nesta, pareceu-me que estava sendo encenado uma
passagem sobre a lógica da natureza e do homem. No início os dançarinos entraram
vestindo máscaras de animais e simularam danças copulais, numa multiplicação
aparentemente desordenadas de instintos, que trazia muito do tempo natural de
acontecimento dos ciclos biológicos. Se bem entendi, num determinado momento,
havia a intervenção do homem, que também adentrava e modificava este universo,
perpetuando e alterando as leis já presentes ali. Depois um processo de
dissolução do humano diante de forças naturais maiores, foi sendo colocado, novamente
as regras animais, que ganharam nova intensidade, talvez de maneira um pouco
remodeladas e assim, a companhia iniciava um longo processo de retirada e
afastamento, levando embora, fazendo-nos perder o Paraíso Perdido, e
lançando-nos numa ligeira sensação de abandono, enquanto toda aquela beleza e
harmonia ia se encaminhando para fora da cena.
A
trilha, desta vez, ainda mais distante dos padrões musicais, retratava uma
atmosfera caótica, porém dotada de suas próprias leis organizadoras, os
instintos, a sobrevivência, a troca ampla e perfeita que cerca tudo que é
natural. As luzes e os efeitos, telas transparentes sobrepostas, eram armados
de uma maneira que por vezes parecia que estávamos olhando um filme de ficção
científica. O palco não estava ali, os dançarinos não estavam ali, nós não estávamos
ali. Efeitos impressionantes, de uma estética que, mesmo quando se absorvia o
mecanismo técnico, a essência não perdia sua magia.
Acredito
que somente a dança poderia retratar tão profundamente o desenrolar dos biomas
naturais, os padrões sutis de um sistema que transcende o, por vezes, estreito,
mundo humano. O homem pode ser medíocre, a natureza nunca é, pois nela não há
espaço para deslizes.
Não
haveria, a meu ver, maneira melhor de traduzir o invisível e indizível da
biosfera. Acredito que, o molde da dança é o melhor para retratar esta natureza
de informações tão transcendentes em todos nós!
Balé
da Cidade de São Paulo
“Cidade
Incerta”
André
Mesquita – coreografia
Eduardo
Agni – trilha sonora
Soraya
Kölle – cenografia
Cássio
Brasil – figurinos
Wagner
Freire – desenho de Luz
Duração:
30 minutos
Intervalo
15’
"Paraíso
Perdido"
Coreografia
- Andonis Foniadakis
Música
e Partitura Original - Julien Tarride
Design
de luz - Guilherme Bonfanti
Concepção
Cenográfica e Vídeo - Andonis Foniadakis e Julien Tarride
Figurinos
- João Pimenta
Máscaras
- Igor Alexandre Martins
Duração
- 50 minutos




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