segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Infância – Maksim Górki



Um livro triste que retrata a dura realidade pela qual passava a Rússia nos fim do século XIX. Dura e intensa, que ajudou a forjar a história de um povo unido e glorioso de sua pátria.

Seu autor, Maksim Górki, contemporâneo de Léon Tolstoi, é reconhecido internacionalmente por este romance biográfico e também por outros que o sucederam, nos quais relata uma grande quantidade de passagens de sua vida, com enorme capacidade de descrição de detalhes.

Aliás, este é um dos pontos forte de sua literatura. O autor é reconhecido e aclamado justamente por possuir uma maneira enfática de dizer dos detalhes e de descrever os aspectos físicos dos momentos que viveu. Além deste lance, tocado ao realismo, ele mescla com freqüência uma outra característica literária que é a sua maneira de dizer sobre impressões que estes mesmos momentos despertaram em sua alma. Cheiros, gostos, vozes, luzes, paisagens se mesclam, num aglomerado de impressões e adjetivos que se intercambiam, gerando quadros sinestésicos bastante interessantes e envolventes.

Infância se inicia com a morte do pai do autor, que possuía o mesmo nome do filho, ou vice-versa, de preferência. Logo de início já temos as descrições do enterro, a posição dos pés do pai, os dedos abertos no caixão. Alongando-se no relato, a história biográfica se desenrola, mostrando-nos o que se sucedeu deste acontecimento bastante importante pro escritor.

Após a morte de seu patriarca, o menino Maksim foi levado por sua mãe até a casa dos avós para ser criado por eles. Após este acontecimento, sua mãe sai pelo mundo e se torna bastante ausente na vida do filho.

Nesta nova fase, o garoto descobre duas figuras muito marcantes para sua vida: seu avó, homem que fora rico, mas empobrecera por conta das impertinências dos dois filhos homens; e a avó, figura central na primeira formação de vida pela qual o pequeno menino iria começar a passar. A avó, uma mulher forte, benevolente, dona de uma fé fortificante, contava história do povo para o menino que a ouvia com atenção. Além disso, ela apanhava do marido, se chateava constantemente com seus dois filhos e sentia preocupações com sua filha, mãe de Maksim, que deixara seu filho e saíra pelo mundo.

É interessante uma passagem em que o autor, baseado em suas lembranças de infância, relata como os Deuses de seu avô e de sua avó eram diferentes. O Deus do avô é duro, austero, aparentemente injusto e não responde às suas questões mais profundas. Já o Deus da avó também não responde às questões como ela gostaria, mas ela, num esforço de grandeza, se propõe a se resignar e a entender os silêncios da vida de maneira alentadora.

O livro vai se desenrolando com uma série interminável de desgraças, pessoas que morrem, brigas sem fim, falcatruas, roubos, miséria crescente, trocas constantes de casa, acidentes e, em meio a tudo isso, o autor vai se formando, tomando consciência de si e se posicionando em relação a tudo aquilo, mas ainda de maneira primária, já que se trata de uma criança.

Sua mãe volta pra casa, se enrosca com homens, vai à festas, se casa de novo, perde uma criança, é traída pelo marido mais e coisas do tipo.

Nisso o menino começa a se tornar mais jovem e descobre as ruas, se torna mais independente, ganha amigos e conhece um pouco mais o gosto da liberdade que o encanta, e assim não se permite muito mais permanecer no círculo em que havia sido criado.

No fim, mais um tragédia e as frases de conclusão, iniciando pelo que seu avô lhe disse:

“– Bem, Leksiei, você não é medalha para ficar pendurado no meu pescoço, aqui não tem lugar para você, então vá ganhar o seu pão e ser gente...”

E o autor responde:

“E eu fui ser gente.”

FIM

Dando a entender que a partir desse ponto, se encerrava sua Infância e começava uma nova fase de suas histórias.

Além deste aspecto pessoal das palavras deste livro, o autor, também por conseqüência da natureza de seus relatos, mas não só por isso, vai tecendo um denso painel da Rússia daquela época e, por vezes, ele se debruça mesmo sobre esta intenção, como no capítulo 10, página 213:

.................................

“Muito mais tarde, compreendi que os russos, em razão da indigência e da penúria de sua vida, em geral adoram distrair-se com a própria desgraça, brincam com ela como crianças e raramente se envergonham de ser infelizes.”

“Na monotonia interminável dos dias úteis, até a desgraça é um feriado, e até um incêndio é uma distração; num rosto vazio, até um arranhão é um enfeite.”

.................................

No entanto, ele também demonstra momentos de nacionalismo otimista, exaltando as qualidades do povo ao qual fazia parte, como na página 271, nos últimos dois parágrafos do penúltimo capítulo:

.................................

“E há razão, mais positiva, que me força a descrever essas coisas sórdidas. Apesar de elas serem repugnantes, apesar de nos oprimirem, esmagando até a morte uma multidão de espíritos excelentes, o homem russo é jovem e sadio de espírito o bastante para superá-las, e vai superá-las.

Nossa vida não é só espantosa por haver nela uma camada tão fecunda e gorda de toda sorte de canalhice bestial, mas por, mesmo assim, conseguir germinar através dessa camada algo claro, saudável e criador, cresce o bem – o humano, que desperta uma esperança invencível em nossa regeneração para uma vida clara, humana.”

.................................

Um livro intenso e rico, como qualquer livro de uma pessoa que se propõe a escrever uma obra sobre sua própria vida.



Nenhum comentário: