.Nem sei direito o que dizer sobre este livro. Um livro profundo, louco, com páginas e mais páginas de pensamentos e devaneios que por vezes se contradizem, cortados por pequenas ações físicas às vezes banais e, se jogadas soltas, não fariam sentido. Como é o caso de frases ditas em voz alta numa situação que, depois de muitas páginas, se repetem num contexto que já estaria além. Os que ouvissem pensariam que o dono da voz estaria louco, mas, o que leu, e se deixou levar, também entendeu que o mais fútil era a ação de dizer, já que o pensar se fazia absoluto e maravilhoso por toneladas de palavras magistrais. Por isso falar era o de menos. É um livro metafísico, mas não pela beleza e inexatidão desta palavra. É um livro metafísico por desconstruir o tempo da ação em meio à própria ação. O tempo não é relevante na trama e, se caso ele se passasse no tempo que o tempo tem, o livro se tornaria impossível. E, como a possibilidade existe, ao contrário da realidade, quando apenas se vislumbra, este livro inventa um mundo com diferentes leis físicas e por isso é metafísico. Não é exagero comparar a literatura de Clarice a uma espécie de feitiço. Porque o feitiço literário pode-se fazer pela beleza sufocante, pelo sentir-se transcrito, pelo temor constante de ler ali um segredo guardado, em si mesmo, de si mesmo. Temor por saber ser possível se pensar como se pensava nos momentos de perdição. O temor e a maravilha de se ver não inédito. Ainda nunca inédito e, talvez, jamais. Clarice registra, nunca inaugura, mas registra uma gama imensa de possibilidades e, dentro desse pensamento, podemos dizer que ela faz bem aos homens. Ela deixa marcado um pouco da grande amplidão que é ser humano e, caso alguém algum dia se esqueça ou duvide, basta ler que um pouco muito lá estará. A amplidão no livro também se mostra como perdição, afinal, autora e, conseguintemente (ou não), personagens se distorcem e se deformam nesse mundo de tempo elástico. O mundo do tempo do pensamento. Mas não vamos ser injustos dizendo simplesmente que a autora se perdeu dentro da própria criação. Ela se perdeu sim, mas sabia-se neste estado e, portanto, menos nele. Por isso avisa que entender não é fundamental, já que o viver vai além disso. E, complementando, o criar, dependendo da beleza, se basta pela que contem. Talvez apenas um sobre-humano criasse criaturas tão complexas, sem se perder no meio delas. Para criar como foi criado o criado, é necessário, antes de tudo, doação, despudor de si e, obviamente, coragem e disciplina na procura de se indisciplinar para encontrar o novo. E ela teve. Os diálogos, aqueles que acontecem muito pouco, quando acontecem, são impressionantes. Bem cortados por observações do narrador, eles mostram uma riqueza exageradamente humana. É de se ler e pensar: Meu Deus, é assim mesmo que os ricos diálogos acontecem!!! O livro tido como mais louco da autora mais louca do Brasil não desapontou, pois, multiplicando todos esses elogios e considerações, estão as 321 páginas da obra. Ou seja, se, por um acaso, pareceu, por esse pequeno texto, que a coisa é das ferrenhas, imagine isso multiplicado e habitando constantemente os muitos papéis que se vira. É loucura... Cada nova frase é um novo e bom susto, um convite para reiniciar a sensação de surpresa e, às vezes, até mesmo, de êxtase. Outra coisa que me passou pela cabeça, é que, depois de ler o que li, eu não duvido que um bom autor, como Clarice, possa inverter tramas, alterar a lógica e se utilizar maquiavelicamente do perigosíssimo poder da dialética. Por sorte ou sadismo, esse poder tende a ter como sua principal vítima a própria pessoa, pois, a quem muito é dado muito será cobrado. Clarice Lispector que o diga, afinal, ela morreu cansada de si, triste e, talvez, temendo a loucura. Talvez por isso duvidasse tanto das conclusões, se limitava ao pouco e deixava os devaneios para a arte, o lugar permitido e reservado para tanto. Talvez, talvez e talvez nada mais definitivo que um talvez. Assim como nada é mais presente que a certeza de que se sente fome quando se sente fome. E nada é mais irredutível que “esse modo instável de pegar no escuro uma maçã – sem que ela caia.” O refúgio no que é simples, pois nele está o átomo da sanidade.
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Um comentário:
Boa Noite, Wagner
"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro."(Clarice Lispector)
Por isso eu disse: Entrega seu caminho ao Senhor, confia n'Ele e o resto Ele Fará, pois só Ele sabe o que, em nós, é defeito ou virtude.
Um abençoado domingo para você,
Fique com Deus,
Beijos,
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