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Depois de colocar aqui tantas frases retiradas do livro, chegou a hora de postar a resenha do Doutor Fausto.
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Respondendo as perguntas:
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Abner, Doutor Fausto não é o Fausto de Goethe. Os dois são baseados no mesmo mito de Fausto, o médico que vende a alma pro diabo, mas são obras diferentes e contêm desdobramentos bem diferentes.
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E Luciana, esse Fausto não é violinista, mas compositor.
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Vamos lá...
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Obra máxima e última deste que é considerado o mais alemão dos autores.
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Thomas Mann nasceu em Lübeck, norte daquele país, perdeu o pai, rico funcionário do governo e empresário, aos 16 anos de idade. Por conta deste ocorrido, muda-se com sua família para Munique, localizada no sul, onde experimenta um estilo de vida mais cosmopolita e moderno.
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Considerado um dos maiores da literatura do século XX, conquistou uma boa repercussão já no seu primeiro romance: Os Buddenbrook, repetindo e ampliando o êxito em outras obras seqüentes, como a Montanha Mágica, que, com certeza, ainda vou ler!
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Era, até antes da Primeira Grande Guerra, nacionalista, conservador, defendendo a monarquia, o espírito alemão e mesmo o embate bélico do Império Guilhermino. Essas convicções mudam com o desenrolar dos fatos mundiais, como ainda será dito.
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Escritor dedicado, possui uma extensa obra, contendo livros enormes, tratados políticos, ensaios, uma tetralogia em tributo ao povo judeu (José e seus irmãos) e mais de 100.000 páginas de cartas e diários escritos ao longo de 60 anos de produção.
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Em viagem, no ano de 1933, para participar de congressos, foi aconselhado a não voltar a seu país de origem, devido à ascensão de Hitler. Negou-se a isso. No entanto, mal sabia que só pisaria novamente em solo germânico no ano de 1949 para a comemoração do bicentenário de Goethe.
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Firmou, então, residência nos Estados Unidos, continuou produzindo e foi contra a ideologia Nazista. No entanto, nunca mais morou lá. Quando retornou a Europa, instalou-se na Suíça, tamanho seu descontentamento com aquele regime que só caiu do poder quando o próprio país ruiu, fato que o autor não acreditava que fosse acontecer, pois considerava desnecessário.
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E é essa negação do Nazismo, casado a uma defesa das raízes germânicas, que está como cenário geral do engajamento político presente em partes do romance Doutor Fausto.
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Mais uma coisa... O que pouca gente sabe, e que agora cabe dizer, é que o autor é filho de uma BRASILEIRA, Julia da Silva Bruhns, nascida nas proximidades de Paraty. Esta influência da América do Sul está presente na figura da borboleta Hetaera Esmeralda, um dos elementos simbólicos presentes no livro.
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Vamos à estória...
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Obra ficcional que contém o registro da vida de Adrian Leverkühn narrada por seu amigo Serenus Zeitblom.
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Em plena Segunda Grande Guerra Mundial, Zeitblom, educador e homem muito culto, talvez um alter-ego do próprio Thomas Mann, resolve registrar a vida do compositor dodecafônico Adrian Leverkühn, do qual foi amigo por mais de 40 anos.
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Suas vidas se cruzaram em diversos pontos, desde a infância, passando pela faculdade, casamento, carreira profissional e assim por diante. Sendo assim, Serenus compreendeu ser ele o mais adequado para imortalizar a história intrincada daquela famosa e sombria figura da música contemporânea feita na Alemanha na primeira metade do século passado.
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De família ligeiramente abastada, Adrian, filho de pais camponeses, mostra, desde pequeno, ser detentor de uma inteligência acima da média. Aliado a isso, está um comportamento de atitudes resguardadas, excentricidade e secura por vezes exagerada.
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Era extremamente habilidoso no trato matemático e elaborava teoremas diversos sobre conjuntos, encontrando simetrias entre pontos aparentemente dispersos, analogias formais e numerológicas entre elementos vagos.
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Aliado a isso, começa, quando pequeno, seus estudos de música com um professor gago que ele considerará seu mestre por toda a vida. Infelizmente não consegui achar o nome deste personagem aqui no livro.
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Está formada, assim, a base lógica para a formação de um compositor cerebral revolucionário. Eis um princípio de construção da realidade ficcional presente!
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É isto que vai sendo alimentado...
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Vem das narrativas das aulas deste senhor (que aqui fica sem nome) as primeiras grandes belezas deste livro, e os primeiros fomentos artísticos de Leverkühn. Pela escrita de um livro onde um educador narra a vida de um compositor moderno, Thomas Mann, pela voz do professor de música, dá vida a uma extensíssima reflexão sobre a história da música ocidental, que no fundo, servem de elemento de coesão para aquilo que virá. Dotado de extrema sensibilidade e um conhecimento de causar inveja, as páginas vão ganhando volume e a obra vai recebendo um peso teórico de beleza estonteante.
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Camuflada numa narrativa de aulas de teoria musical, o autor alemão pôde colocar o volume absurdo do seu repertório sobre música nesta obra.
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E, aliás, este recurso não se limita a apenas este campo. Quando da ida de Adrian à faculdade de Teologia, que resolve seguir apesar de seus avanços na música, Thomas Mann novamente destrincha um cabedal de informações filosóficas sobre Deus e os teóricos da disciplina em questão que é impressionante. Esta aí mais um elemento constitutivo do universo interno do personagem principal.
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Também há passagens sobre ciências naturais, como o episódio da gota, protagonizado pelo pai do compositor.
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Realmente é um livro com trechos de extrema dificuldade.
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Não é necessário conhecer os assuntos, mas, na parte de música, quem não entende um mínimo de teoria, pode sentir um pouco frustrado em alguns momentos. No entanto, o grosso das elucubrações do literato pode ser acompanhado, não sem esforço.
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Este livro é conhecido também por isso. As conversas dos personagens, sempre pertencentes aos meios artísticos e intelectualizados das cidades por onde Adrian Leverkühn passava, são elaboradas com brilhantismo e as ciências vão se permeando num mar de teorias e considerações profundas sobre os mais diferentes assuntos.
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É considerado o livro mais rico de informações escrito por Thomas Mann.
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E é neste meio rico de conhecimentos que Serenus e Adrian vão levando uma amizade muito mais alimentada pelo biógrafo que pelo biografado.
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Adrian é fechado, se abrindo com alguns poucos. Esquivava-se sempre de maiores aproximações, possuía dores de cabeça intensas que, depois de um tempo, descobriu ser por tédio e por motivos taciturnos.
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Por falar em taciturno, há o capeta, como em tudo que tem o inócuo núcleo de Fausto como base.
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Escrita pelo próprio Adrian e entregue a Serenus por ele mesmo, a passagem do pacto, meio que já selado pelo desenrolar de uma vida (e isso eu achei genial), é apresentado numa conversa registrada numa carta. Sentado na sua sala de trabalho, Fausto percebe uma figura observando-o no canto do cômodo. Vira-se e, mostrando-se extremamente habilidoso com as palavras, o Diabo destrincha uma série de argumentações racionais sobre o porquê da escolha do compositor para ser seu escravo eterno.
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É um dos pontos altos do livro!
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A destreza das explicações, a clareza e até mesmo a honestidade do contratante são exemplares, resgatando mesmo experiências passadas de Adrian para amarrar sua vítima que, em verdade, amarrou-se voluntariamente com o passar dos anos.
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Mudando de feição conforme dizia, sentado naquela poltrona escura no canto, Mephistopheles, numa nova aparição literária, passa seu recado, sela o contrato sem volta e some, deixando a promessa de êxito e dores que iriam se alternar em épocas da vida do solitário compositor nos próximos 20 anos.
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E assim acontece...
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Tudo muda e o prometido vai se desenrolando...
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Adrian alterna-se em épocas de extremo brilhantismo, compondo óperas, concertos, sinfonias num ritmo alucinante, inovando as regras harmônicas, sendo por vezes aclamado e por vezes incompreendido. No entanto, passadas estas fases, caia na cama, fechava-se no quarto escuro, recebia poucos amigos para conversas naquele ambiente sem luz e agonizava sua enxaqueca por semanas e meses a fio.
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Com o passar dos anos, este vai se fechando, se fechando, tornando-se mais e mais corcunda, de semblante escuro, sempre acometido de doenças, vai ganhando notabilidade, tem suas obras executadas em diversas casas de show da Europa, vai envelhecendo e, porque não dizer, tornando-se um pouco menos esquivo e seco. Chega até a esboçar uma intenção de casamento...
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Os personagens são muito bem construídos. O autor consegue pensar pela cabeça daquela sua criação e esmiuçar as razões de cada para tomar determinadas atitudes ao longo da obra. Personagens diversos, dos mais sérios, aos mais brincalhões, dos mais corretos aos mais estranhos, drogados, instrumentistas, galãs, senhoras ricas e fúteis, descontentes da vida, vão passando pela vida social de Serenus e de seu amigo compositor.
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Trata-se de uma obra realmente grandiosa. Thomas Mann constrói um universo social de artistas e intelectuais de muita esfericidade. Impressionou-me bastante a quantidade de informações colocadas, a capacidade narrativa do escritor, sua sensibilidade no trato com as figuras inseridas na obra e a coerência destas figuras que vão se desenvolvendo ao longo do tempo, fazendo sentido seu amadurecimento, os caminhos traçados por cada um bem como seu passado remoto.
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É a ruína de um artista encarnando a própria ruína de um país em guerra. Sendo assim, Hitler seria o próprio demônio!
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Mais de 700 páginas que valem o quanto pesam! E realmente pesam bastante!
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3 comentários:
De uma ótica geral, o contexto me deixou curioso. Sinto que você conseguiu passar informações claras, precisas e, em certos momentos, um pouquinho de quero mais.
Entretanto, não consegui compreender a entrada de Fausto no desenrolar da resenha. Após o pacto este trecho ficou meio confuso para entender a relação de Adrian com FAusto: "Escrita pelo próprio Adrian e entregue a Serenus por ele mesmo, a passagem do pacto, meio que já selado pelo desenrolar de uma vida (e isso eu achei genial), é apresentado numa conversa registrada numa carta. Sentado na sua sala de trabalho, Fausto percebe uma figura observando-o no canto do cômodo. Vira-se e, mostrando-se extremamente habilidoso com as palavras, o Diabo destrincha uma série de argumentações racionais sobre o porquê da escolha do compositor para ser seu escravo eterno."
Depois disso a curiosidade aperta para entender as 700 páginas ditas por você.
Gostei do que li, só resalto esse ponto.
Abraços.
Então, foi uma jogada de nomes que eu fiz.
Neste momento eu chamo o proprio Adrian de Fausto, por ele estar selando um pacto com o Diabo. E o próprio Diabo eu chamo, depois, de Mephistopheles.
Eu fiz isso só pra fazer uma ponte com o Fausto do Goethe e o mito do Fausto. Ele é o Adrian, mas, só neste ponto, eu chamei ele por outro nome, apesar de ser o mesmo personagem.
Eu poderia ter dito "Sentado na sua sala de trabalho, ADRIAN percebe uma figura observando-o no canto do cômodo".
Foi só uma jogada de nomes pra ligar contextos relacionados!
Abrs, Wagner.
Entendi. PArabéns pela colocação. Agora ficou claro.
Gostaria muito de ler esse livro.
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