sexta-feira, 10 de novembro de 2006

Diário de Bugrinha (Excertos)

Mais uma do Manoel de Barros (1925)
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22.1
O nome de um passarinho que vive no cisco é joão¬ninguém. Ele parece com Bernardo.
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23.2
Lagartixas têm odor verde.
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2.3
Formiga é um ser tão pequeno que não agüenta nem neblina. Bernardo me ensinou: Para infantilizar formigas é só pingar um pouquinho de água no coração delas. Achei fácil.
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23.2
Quem ama exerce Deus — a mãe disse. Uma açucena me ama. Uma açucena exerce Deus?
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2.3
Eu queria crescer pra passarinho...
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5.3
A voz de meu avô arfa. Estava com um livro debaixo dos olhos. Vô! o livro está de cabeça pra baixo. Estou deslendo.
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5.6
O frio se encolheu nos passarinhos. Ó noite congelada de jacintos! Eu estou transida de pétalas.
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7.8
O pai trouxe do campo um filhote de urubu. Ele é branco e já fede.
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12.8
As garças descem nos brejos que nem brisas. Todas as manhãs.
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10.9
Um sapo feneceu 3 borboletas de uma vez atrás de casa. Ele fazia uma estultícia?
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13.9
A mãe bateu no Mano Preto. Falou que eu não apanhava porque não dei motivo. Subi no pico do telhado para dar motivo. Aqui de cima do telhado a lua prateava. A mãe disse que aquilo não era motivo.
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19.9
Uma égua iniciava meu irmão. O pai ralhou com ele. Meu irmão foi entrando para inseto até desaparecer. Ficou dentro do mato até amanhã.
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1.1
O Bernardo fala com pedra, fala com nada, fala com árvore. As plantas querem o corpo dele para crescer por sobre. Passarinho já faz poleiro na sua cabeça.
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2.2
A mãe disse que Bernardo é bocó. Uma pessoa sem pensa.
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5.2
Sem chuvas, já reparei, as andorinhas perdem o poder de voar livres.
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29.2
Hoje o Lara morreu picado de cobra. Fizeram seu caixão de costaneiras. Meu avô encostou no caixão. Ué, eu que morri e quem está no caixão é o Lara! Meu avô enxergava mal.
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2.1.1926
Catre-Velho é um ser confortável para moscas. Ele nem espanta algumas.
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12.1
Choveu de noite até encostar em mim. O rio deve estar mais gordo. Escutei um perfume de sol nas águas.
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1.3
As árvores me começam.
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1.4
Uma violeta me pensou. Me encostei no azul de sua tarde.
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10.4
Os patos prolongam meu olhar... Quando passam levando a tarde para longe eu acompanho...
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21.4
Pensar que a gente cessa é íngreme. Minha alegria ficou sem voz.
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22.4
Hoje completei 10 anos. Fabriquei um brinquedo com palavras. Minha mãe gostou. É assim:
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De noite o silêncio estica os lírios.
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Extraído do "Livro Sobre Nada" (Arte de Infantilizar Formigas), Editora Record - Rio de Janeiro, 1996, pág. 29.
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Um comentário:

Anônimo disse...

"Choveu de noite até encostar em mim. O rio deve estar mais gordo. Escutei um perfume de sol nas águas."
"Pensar que a gente cessa é íngreme. Minha alegria ficou sem voz."

Dentro da Psicanálise isso tudo que ele escreveu tem um nome...
Ótimo este escritor de Cuiabá.
Gisele