quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Dia 07 - 01-01 - Quinta-feira

Levantamos às 3:30 da manhã para começarmos um longo deslocamento de mais de 25 horas em direção a Cusco, no Peru e fiquei novamente impressionado com a pobreza do interior da Bolívia. Todos os lugares que passamos eram extremamente precários, muitas ruas sem calçamento, praticamente todas as casas não tinham reboco e as cidades eram um grande amontoado de construções marrons inacabadas. As pessoas também aparentavam ser muito pacatas e desacreditadas. Pareciam viver aquela situação como algo normal, uma sentença de vida da qual seus pais tinham vivido, elas também e seus filhos também iriam viver. Já visitei alguns países da América do Sul, mas a Bolívia foi o que mais me chocou nesse sentido. 
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Ao longo do dia de deslocamento, passamos perto de La Paz, mas não fomos até a cidade. Os guias preferiram nos levar até o aeroporto da capital para almoçarmos, alegando que as opções eram melhores mas, mesmo o aeroporto, não tinha tantas possibilidades. Era um lugar pequeno, com uma praça de alimentação contendo umas cinco opções de lanchonete e só. Isso porque estamos falando do principal aeroporto do país. Comi um misto-quente com suco e logo voltamos para continuarmos a jornada. Depois de mais um tempo de estrada, conseguimos ver um grande lago, perguntei ao guia se era o Titicaca e ele confirmou. 
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Os Andes de mil detalhes, os diferentes solos, as paisagens semiáridas, os animais característicos, enfim, tudo aquilo que se passava em frente aos olhos era, justamente, o cenário imaginado por mim durante décadas. Sonhei, ao longo de muitos anos, com o momento de poder estar em meio a tudo aquilo que naquele instante eu estava vivendo. Parei, então, de ler e comecei a ouvir algumas músicas que achei que iriam ser a trilha sonora certa para aquela ocasião. Escutei temas como: Sueno con Serpientes (Milton e Mercedes), Los Hermanos, Gracias a la vida (Elis) e, após muito lago Titicaca na paisagem da direita, chegamos, enfim, na aduana entre Bolívia e Peru. 
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Preenchemos as declarações, levamos os passaportes e todos os quase 50 integrantes foram passando. O frio do lado de fora era intenso, estávamos numa altitude muito grande e era possível sentir algumas alterações no corpo, na cabeça e nos ouvidos. Depois dessa burocracia chata, continuei ouvindo mais músicas. Ouvi Liniker, Pink Floyd, mais Milton Nascimento, mais Elis Regina e a noite foi caindo por sobre os Andes. Paramos na rodoviária da cidade de Puno para jantarmos numa senhora muito simples e caprichosa que nos agradou bastante. Comi um omelete bem feito, tomei um suco e aproveitei o tempo restante para andar pelo lugar. 
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Caminhando sem rumo pela estação, reparei numas flores que estavam espalhadas pelo chão. Parei, quase sem querer, na frente de uma moça muito simpática e perguntei o que seriam aquelas pétalas amarelas que faziam o contorno dos estabelecimentos comerciais presentes na rodoviária. A mulher me abriu um franco sorriso, eu senti uma sensação muito boa e ela me disse que aquilo era uma forma de reverenciar a querida Pachamama. Então, eu questionei se era uma forma de agradecer pelo ano que passou ou se aquelas pétalas tinham o intuito de pedir graças pelo novo ano que estava se iniciando? Ela sorriu novamente e disse só se deve agradecer a Pachamama, pois ela já nos dá tudo aquilo que precisamos para viver. Fiquei impressionado com a sensação que aquela mulher me transmitiu. Ela me pareceu realmente inspirada a dizer aquelas palavras.
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Andei mais um pouco e comprei um gorro azul e preto com o nome da cidade escrito na frente. A noite prometia ser fria, então, coloquei várias roupas, arranjei mais uma coberta, peguei outro travesseiro que não estava sendo usado e consegui me ajeitar. Fomos avisados que passaríamos por um ponto muito alto na divisão entre as cidades de Puno e Cusco e, coincidentemente, eu acordei no meio da noite, na hora em que estávamos passando por ele. Levantei sem querer, com vontade de ir ao banheiro e, por estar com uma sensação estranha nos ouvidos, resolvi abrir o Maps e lá estávamos nós a mais de 4.800 metros de altitude. Acho que nunca havia estado num ponto de terra tão alto. Voltei pro meu assento no fundo do ônibus e logo já estava dormindo novamente.
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Adendo de narrativa repetida: quando estava ouvindo as músicas, é claro que não era poderia faltar o tema Machu Picchu que já cantei diversas vezes com meu tio Zé Nilton. Essa música sempre foi um dos inúmeros motivos de eu querer fazer essa viagem. Ela fala sobre atravessar os Andes de mil detalhes e era justamente isso que eu estava fazendo enquanto ouvia a gravação. Baita momento bonito!
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Segue a letra da canção:
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Faço a mala depressa
Uma promessa
Não vou quebrar
Sigo pela avenida
Aeroporto, vou viajar
Atravessando os Andes de mil detalhes
Me sinto bem
Vou para Machu-Picchu
Ouvir as flautas
De muito além
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Uma desilusão
No meu coração
Se fez de repente
No meio da montanha
Um Hotel enorme
Cheio de gente
Fotos, chiclets, coca
Uma massaroca
Prá lá e prá cá
Nem um Deus
Uma prece
Era o progresso
Chegando lá
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Ah! meu Machu-Picchu
Ninguém segura
Esse meu delírio
Ah! olhos vermelhos
Cuca cansada
De mil colírios
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Volto pra casa
E esquento o café no fogão
Tomo um café brasileiro
E vejo o futebol na televisão
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