domingo, 13 de dezembro de 2009

Ângulo reto

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Voltando a isto...
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Observei a terceira face do ângulo e recomecei.
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- Me permitir um pouco de solidão e segredo nessa grande vitrine chamada vida. Eu gosto disso. Apago as luzes, ligo o som, sento em silêncio num canto para ficar à toa e passar despercebido. Ali fico. Aqui fico bem, me escondendo de mim, dos barulhos de mim, dos vitupérios e, no canto encantado, me sinto pequeno e sossegado. Recostado e acabado, sem exigir demais. Assim pequeno, assim fico. Criança? Não posso mais. Chegou-se sem licença algumas verdades doloridas e, esquecer, nem por uma boa cachaça.
- E você sempre volta a isto, não?!
- Escrevi isso no trabalho. O almoço estava ruim e voltei pra mesa mais cedo.
- Imaginei. Continue...
- Pequeno desprovido, singular vivido. Há uma continuação...
- Chega. Não quero ouvir mais.
- Por que?
- Acho você muito ruim com as palavras.
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Saí. Logo caí na realidade da multidão. Falei pra alguém:
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- Noutro dia, olhei a torre do meu prédio. Era ligeiramente familiar. Saí do foco, voltei outra hora naquele terraço. Era como se nunca saísse de verdade. Resguardava a entrada com os olhos. Saí. Nunca saí. Olhava ligeira para a torre, voltava à porta. Não era bem o que eu imaginei na minha infância.
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- Por que você está me dizendo isso?
- Por que você está aqui...
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Saí...
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Observei a terceira face do ângulo e recomecei.
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- Cada um sabe muito de si, ainda que não seja o suficiente. Cada um tem seu caminho e deve sempre ser respeitado. Condenar não nos cabe com facilidade. O passo ninguém pode dar pelo outro. Se resguardares o passado com muito afinco, seu futuro pode torturar. A tortura constante do futuro mutante, que, sempre, sou eu. Nenhuma dor dói realmente como no peito do dono da dor. Somos profundamente sós e barbaramente exaurido de divisões. Divisões físicas, limites da carne. Divisões internas, limites da razão, da alma, conjunto dos argumentos, do modo de pensar que se faz a cada pequena novidade do velho pensar assim, desta velha maneira, naquele fato, naquela hora que sempre permanecerá inédita.
- Não gostei!
- A vida é um conjunto inalcançável de desvalidos semblantes em potencial.
- Hum...
- O que acha dessa?!
- Não acho nada. Talvez um pouco melhor.
- Vou reunir essas partes numa colagem.
- Acho que não deve fazer isso.
- Por que?
- Porque tenho medo da solidão.
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Saí. Encarei a realidade social. Há um peso qualquer nela que sempre é constante. A realidade é uma fotografia congelada pelo meu estágio de ver.
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Observei a terceira face do ângulo e recomecei.
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- Posso continuar?!
- Não!
- Aquele não visto, o percebido em demasia, no de menos, no do outro, no mesmo em mim, no descaso, no acaso, no platônico. O platônico defasado, mas incessante. Sempre platônico, sempre defasado, sempre eu. Eu platônico, numa caverna de ossos craniais. Os olhos não são suficientes. Os lábios pendentes de vontade. O silêncio pequenino no primeiro instante da alvorada, até que me lembro que eu sou eu. Então resgato minha forma de ser, de ver, de pensar, de sentir. Uma memória onde se aloja um ser-humano na sua natural esfericidade.
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- Das 8 as 8.
- É mesmo?!
- Sim.
- Mas isso é abuso!
- Não posso abusar. Comprei um novo exemplar daquilo.
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- A vida é um conjunto inalcançável de desvalidos semblantes em potencial.
- Nossa, que bonito isso!
- A terceira face não gostou.
- Que terceira face?
- Ela – gaguejou pela primeira vez em toda sua vida – ela é... Ela fica lá em casa.
- Acho que ela não te faz muito bem.
- Ela gosta de mim.
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Saí. Voltei resgatado para dentro. Hoje não estava bem para seres-humanos.
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Então, observei a terceira face do ângulo e recomecei.
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- Rodando pelos sinais, pelos avulsos muros pixados de uma metrópole estanque: a mesma metrópole interna e vazia. Apática. Mal cheirosa. Calada a metrópole, noto o pequeno murmúrio que de mim sai, como que ressonando um lamento. Não me lembro bem o porquê dele estar assim. Estou calado, caminhando, e este pequeno aviso vindo sem demora, faz companhia pelos diversos cruzamentos que enfrento. O cruzamento é quando se deve ter forças para levantar a cabeça. O cruzamento exige demais do meu mimado ressoar. Prendo a respiração e nunca ele pára. Não vem de mim. Não pertence, não controlo. Não nada nunca novamente.
- Observo descompasso.
- Onde?
- Já não te disse para parar de escrever esse texto?
- Não.
- Eu gosto do azul que você me pintou.
- Eu gosto de você
- Hum...
- Vou falar sobre você na continuação.
- Não quero.
- Mas vou.
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Observei a terceira face do ângulo e recomecei.
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- Vou falar de ti.
- Não quero. Já disse. Quero uma tinta amarela
- Gosto da noite.
- Gosto de você.
- Então, fico aqui observando a terceira face do ângulo desta parede, e reparo que ela é compatível a mim. Uma amiga sem permissão. Como se estivesse tendendo à inexistência, querendo vir me visitar, um monólogo sentimental se inicia. Ouço ligeiro. Desato a correr para a lavanderia. A terceira face também está lá. Um pouco menor, mas seu discurso é extenso. Seria sem fim, senão eu mesmo.
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Saí
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Voltei.
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- Não faço monólogos.
- Na minha história sim.
- Você mente.
- Você também.
- Eu gosto de você.
- Eu também.
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Saí. Dessa vez não voltei nunca mais. Senti sufocante proximidade. Passei 7 anos sem voltar àquele canto. Mas um...
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- Voltei.
- Já faz mais de 7 anos que você não vem aqui.
- Mas eu voltei. Não gostei do seu abraço.
- Eu gosto de você.
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Quase saí correndo.
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Esperei.
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Saí...
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Mas, continuei...
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Observei a terceira face do ângulo e recomecei.
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- Impeço impetuoso e reinicio as palavras que deixei sem fim na noite passada. A terceira face se cala e balbucia concordância, sem muito saber se compreende o que digo. Ela ressona agora. Disse que não gostaria de deixar de lado meu emprego. Minhas dívidas não são abduzidas com facilidade. Disse que era necessário uma boa dose de quebranto e arrependimento posterior para conseguir algumas horas sem dívidas.
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- Minhas dívidas são como você, inexistente!
- Eu gosto de você e meu gostar existe.
- Você gosta dele porque ele te faz existir.
- Eu gosto de existir.
- Você me mata de medo.
- Eu gosto de você.
- Vou sair e não volto nunca mais.
- Daqui a sete anos voltarás.
- Não fale como profeta.
- Sou inexistente. Você mesmo disse.
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Com essa fase saí. Caí na realidade do ser social e experimentei alguns passos como que olhando pro chão.
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- Por que você olha tanto pro chão?
- Não gosto de pisar em merdas.
- Também teme que eu pise?
- Não...
...
- Então por que olha pro meus pés?
- Eu olho.
- Eu sei.
- Fiz um texto. Posso ler?
- Claro!
- Cruzou a 23 correndo. Gostava daquela buzina que variava conforme o carro vinha e ia. Procurava melodias naquele vai e vem. Procurava uma música nova. Incitava a morte em tom de sorrisos e correrias. Ele e os seus. Depois de alcançadas algumas idéias, subiam na árvore da esquina e observavam a terceira face da esquina. Juntavam pedaços no abstrato da música que se faz por entre ruídos e perseverança, e discriminavam uma letra. Não era nada digno, mas, pelo menos, beirar o ridículo, ali, fazia o ridículo do despertador matutino menos doloroso.
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- Por que você sempre sai de casa de preto?
- Eu não saio de preto.
- Sai sim.
- Eu não estou de preto.
- Seus olhos estão.
- Hum.
- E você sempre temendo que eu pise numa merda de um cachorro.
- Há cachorros muito pequenos.
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Observei a terceira face do ângulo e recomecei.
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- Fui na 23 hoje. Fiz uma canção!
- Eu sei... Sempre sei!
- Eu voltei.
- Eu disse que voltaria. Eu sempre sei. Exatos 7 anos depois.
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Saí. Gostaria de ter provocado seu primeiro erro. Mas não tive essa capacidade mínima.
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Observei a terceira face do ângulo e recomecei.
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- Nesta ânsia de atribuir significado e entendimentos às coisas, às vezes caímos em desmandos cabais que nos colocam sensações bruscas em todos os pequenos pormenores do dia-a-dia. Este é o modo de funcionamento das mentes. Elas mentem, talvez por isso assim a chamam. Tocar papéis esbeltos e sentir o áspero aspergir de dor a imaginação, ouvir sons e derramar dor por dentro. Dor. As coisas, muitas delas, não trazem sentidos e entendimentos intrínsecos a elas. Nós é que, no descomando natural, tratamos de concluir, de sentir, de nos trazer aquilo que distante está, que independente é. É o modo de pensar construído ao longo do tempo. Há formas comuns entre diversos de nós, travados no combate social diário ou vindos de estruturas biológicas anteriores aos nossos pais e pais dos nossos pais e pais e mais.
- Mas o que se há de fazer se estruturas nos estruturam sem que possamos realmente rearranjá-las?!
- Você está fora do limite, não pode questionar o que me pertence!
- Devemos vivê-las sem medo.
- Eu tenho medo da perdição da razão mal feita, do sentimento escuso, escuro, aquele que não se quer.
- Eu sei.
- Vou acrescentar isso.
- Não acho uma boa... Eu gosto de você.
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Saí
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Observei a terceira face do ângulo e recomecei.
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- Vim trazer seu desfecho.
- Eu gosto de você.
- Eu preciso dormir, já está tarde e meus pais estão dormindo na sala.
- Eu sei. Eu gosto de você.
- Pára de falar isso. Não posso prolongar esse diálogo. Ainda tenho que tomar café. Já passam das 5 da manhã.
- Amanhã você volta?
- Não prometo. Mas, acho que não vou sentir saudade.
- Eu sei. Eu gosto de você.
- Não quero saber. Vou continuar.
- Você não é tão mal assim.
- Talvez se eu gostasse mais da simplicidade poderia passar a me doer menos. Mas não é bem assim que funciono. Tenciono o limite, aquela procura sufocante que enterra entendimentos passados, trocando-os por qualquer coisa que pareça mais completa, sem que, às vezes, realmente seja.
- Eu não gostei disso.
- Eu sei. Você nunca gosta do que eu escrevo.
- Eu sei. Mas eu gosto de você.
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Saí e nunca mais voltei. Precisava dormir e não havia mais espaço pra si naquela madrugada que se encerrava.
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- O dia sempre vem...
- Eu sei. Eu sempre sei.
- Eu te odeio por isso.
- Eu sei, eu gosto de você.
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