terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Um início de despedida (à moda)

.
Oh obra de grande valor
Que por tantos anos passastes aos cantos
Esperando o momento certo de seres lida
.
Ficastes em gavetas
Demorando sôfrega de pertencer
Resguardando ávida de desflorar
O cancioneiro imprescindível
Da criatividade artística
Da labuta solitária
De outrem ido
Mas por a cá
Vindoura
.
És vencedora
Do todo poderoso
Chronos
Senhor da verdade
.
Há de se transpassar
A exígua mediocridade
Para de tão poderoso Deus
Serdes dominante
.
E assim fostes e estás
.
Uma capa cândida
De vermelho e dourado discretos
De peso ínfimo
E massa descomunal
.
Fonte de linguagem brilhante
Que engrandece e diz com exatidão
As mais formosas companhias
Do engenho humano
.
Estás no cume
Da fidalguia literária
Estás no epicentro
Da cavalaria quimérica
Conténs o sem igual
Cavaleiro da Triste Figura
Cavaleiro dos Leões
.
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
.
Destes vida e chão
Ao sonho do homem franzino
De poucas carnes
De grandes sonhos
De nobre coração
De doiradas sandices
E cômicas burlas
Contra moinhos
Contra rebanhos
E nigromantes incólumes
Posto que inexistentes
.
Oh, obra intrínseca à humanidade
Como outras grandes
Que de ti tão filhas são
E netas
E bisnetas
E mães
E avós
.
Fazes jus a grandes Ilíadas e Odisséias
De Shakespeares, Homeros e Dantes
Grécias e Romas
Édipos Reis de Sófocles
Teogonias de Hesíodos
Medéias de Eurípides
.
Embasas Kafkas, Victors
Virgínias e Edgars
Flauberts, Ovídios e Dostoiévskis
Joyces e seus Ulísses
Pousts e suas buscas por tempos perdidos
Balzacs, Dickens, Becketts
Assis, Rosas, Drummonds
Lispectors, Calvinos
E Kerouacs
.
És colocada no cerne do romance
O conjunto inaugural
Do romanceiro humano
Que transcende séculos e séculos
Num tempo aprisionado libertário
Do imaginário desvario
A que convidas os que de ti se aconchegam
.
Assim fiz
Assim foi
Assim fui
.
E
Agora
Que perto estás de restringires
Ao passado dos olhos
Digo-te que caminharás convicta
Na morada dos meses
Que de ti me recostei
E por teus versos reversos em prosas singulares
Maestrinas da flor primeira da cavalaria
Caminhei
Levado pelos disparates
De tão nobre personagem
.
Oh obra criadora
Tenaz abdutora
Sorumbática reversa
Macambúzia dispersa
Esguia serpente de prazer romanesco
Devaneadora de multidões
Impelidas ao ócio deleitoso
Das travessuras estáticas
De uma mente furtiva
.
Despeço-me aos poucos
Dos longínquos
E desditosos Tebosos
De Ricote e Quixote
De Sancho
.
Oh incrível e nobre Sancho
De ti guardarei grande admiração
Pela simplicidade
Que por vezes exercia crivos
Por vezes disparates ortográficos
Sem nunca cair no desmando
Do homem sem chão
.
Peso eu, sim, a falta
De Pança e andanças
Onde vislumbrei tanta areia e andei
Assim, da lua cheia, eu sei
Sentirei uma saudade imensa
.
Dos versos encantados que li
Das passagens sem igual onde ri
Olhando a lua mansa a se derramar
Vindo de longes léguas
Para em meu peito cantar
.
Também sinto por
Sanchica e Tereza singelas
Camila, Anselmo, Clóris
Clara de Viedma
O cônego, o barbeiro
A venda feito palácio
O cavalo feito sagitário
.
MIGUEL DE CERVANTES SAAVEDRA
.
Faltam pouco mais de 40 páginas
Justo
As restingas de Quixote
Começam a esvaírem-se pelos cantos
Recolherem-se frondosas
No campo iniciático
A fim de dormirem novamente
Num melancólico espaço confiscado
.
Porém
Por ti
Será recanto prateado
Honroso rincão
Daquele que ousou-se lançar
Ao sonho cristal
Na grandeza
De um tempo esvaído
Para nunca mais
.
Quixote é tão eterno
Quanto o sonho humano!!!
Quanto o próprio homem!!!
.
Enquanto houver sonho
Haverá
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA................
.
E tenho dito!!!
.
.
.
.
.
.
.

Nenhum comentário: