sexta-feira, 1 de abril de 2011

Quaresma - Ivan Lins


.

Acabou toda essa brincadeira

Não há jeito de ser diferente

Como sempre chegou quarta-feira

E a praça não é mais da gente

.

Andam soltos fantasmas e bruxas

Lobisomem em noites de lua

O saci dança em noites escuras

E ninguém tá seguro nas ruas

.

Tudo se repete, oh maninha

Como antigamente

E o diabo gosta, oh maninha

Arrepia a gente

.

As igrejas de portas trancadas

Já não entra, nem sai mais milagre

As pessoas de boca fechada

Vão fazer o jejum que lhes cabe

.

Clareando a sexta-feira santa

Segue a fila de velas acesas

Vêm cantando e o som se agiganta

Orações pra quem não tem defesa

.

Tudo se repete, oh maninha

Como antigamente

E o diabo gosta, oh maninha

Arrepia a gente

.

Procissão de bastões e vassouras

Estilingues, bodoques e pedras

Canivetes, facões e tesouras

Aleluia! É o quebra-quebra

.

É a dança do queira-ou-não-queira

É vingança, é um Deus-nos-acuda

É o malho, é o fogo, a fogueira

É o povo na pele de Judas

.

Tudo se repete, oh maninha

Como antigamente

E o diabo gosta, oh maninha

Arrepia a gente

.


.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Hipóteses para o amor e a verdade



.
Texto: Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez.
.
Direção: Rodolfo García Vázquez.
.
Assistente de direção: Fábio Penna.
.
Cenário e Figurino: Marcelo Maffei.
.
Iluminação: Rodolfo García Vázquez e Fábio Cabral.
.
Elenco: Esther Antunes, Gustavo Ferreira, Leo Moreira, Maria Casadevall, Paulinho Faria, Phedra De Córdoba, Tânia Granussi e Tiago Leal.
.
Realização: Os Satyros.
.
Direção de produção: Erika Barbosa.
.
Quando: Sexta, sábado e domingo, 21h30.
.
Onde: Espaço dos Satyros Um – Praça Franklin Roosevelt, 214.
.
Quanto: R$ 30,00; R$ 15,00 (Estudantes, Classe Artística e Terceira Idade); R$ 5,00 (Oficineiros dos Satyros e moradores da Praça Roosevelt).
.
Lotação: 70 lugares.
.
Duração: 90 min.
.
Classificação: 18 anos.
.
.
Moradores do centro se São Paulo, prostitutas, transexuais, travestis, lésbicas, solitários, nerds, todos em cena, discutindo a solidão, o amor, interagindo com a platéia, telefonando realmente para celulares e/ou Disk Pizza para falar de suas carências, entrando em sites de relacionamentos. Há cenas de nudismo, manipulação, assassinato, prostituição.
.

127 horas


.
Ando com uma preguiça de escrever resenhas. Não tenho preguiça de escrever, em geral, mas é que tenho que escrever outras coisas mais importantes, e daí resta pouco pique pra falar do que eu andei assistindo.
.
Por isso, aqui vai algumas considerações bem sucintas sobre o filme 127 horas.
.
Ficha técnica:
.
Título original: 127 Hours
Lançamento: 2010 (Reino Unido, EUA)
Direção: Danny Boyle
Atores: James Franco, Lizzy Caplan, Treat Williams, Kate Burton.
Duração: 93 minutos
Gênero: Drama
.
Minha primeira pergunta sobre esse filme, antes de assisti-lo era:
.
Como fazer com que um filme sobre um homem preso num mesmo lugar por 127 horas não se torne uma coisa chata?
.
O diretor de “Quem quer ser um milionário?” é fera em contar histórias de jeitos diferentes. E no 127 horas ele acertou de novo. Digressões, visões fantasiosas e coisas do tipo enriqueceram a trama. Uma edição fora dos padrões de Hollywood pode causar estranheza no início, mas faz sentido dentro da proposta geral do filme.
.
Só achei que às vezes o ator principal deixou a desejar, um pouco. Não que ele não estivesse bem, mas é que precisava estar um pouco mais convincente nas cenas fortíssimas e dificílimas que se passaram.
.
Mas gostei bastante!
.
Só mais uma coisa:
.
Seria James Franco (nascido em 1978) a reencarnação de James Dean (morto em 1955)? Bobagem!!! Mas que parece, parece!
.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Maaaara!

.
Como dizer pra uma pessoa que sua fase boa acabou?
.
.
.
.
.
.
- Stevie Wonder, agora não estou mais!!!
.

sexta-feira, 18 de março de 2011

quinta-feira, 3 de março de 2011

Oito contos de amor – Lygia Fagundes Telles



.
São eles:
.
As cerejas
.
Pomba enamorada ou uma história de amor
.
As pérolas
.
Herbarium
.
A chave
.
Apenas um saxofone
.
O encontro
.
A estrutura da bolha de sabão
.
.
Já havia lido este livro há mais de 10 anos atrás, pro colégio. Fazia parte das leituras do primeiro ano colegial. Na época, lembro-me que não gostei muito. Achei difícil, enfezei com tudo aquilo, achei muito hermético, chato, umas frases que pulavam sem sentido. Por isso havia deixado ele na pilha dos que eu ainda iria ler e não na pilha dos já lidos.
.
E minha visão, neste segundo, super espaçado, contato, foi outra, afinal, mais três anos e eu terei o DOBRO da idade que eu tinha quando li pela primeira vez. 15 x 2 = 30 (TRINTA)...
.
Achei muito gostoso!
.
Contos de no máximo 10 páginas, muitíssimo bem escritos. Lygia Fagundes Telles é fantasticamente sensível, sabe trabalhar as quebras de frases muito bem, as aspas, os poucos travessões. Uma agilidade cativante e, por vezes, perigosa. A autora também trabalha muito com aquilo que não se diz e se deixa subentendido no entre palavras, num gesto que se faz ou num olhar que não houve, mas que, mesmo assim, coube sua inexistência no canto de um parágrafo preciso. Também trabalha precisamente o que é nuclear no de repente do espaço de um relâmpago, e faz-se então a traição revelada no meio instante da noite. São coisas assim, um palavrão rasgando esquivo na mente e que acaba por transformar toda a percepção que temos de um personagem, um linguajar desigual que basta para sabemos se aquilo está sendo falado ou simplesmente pensado.
.
Por tudo isso, pode-se afirmar ser uma mulher de inteligência rara, com muita certeza!
.
Sobre os contos, Sônia Régis afirmou:
.
“O passado fantasia o encadeamento do presente, o presente é carregado de transcendência, tudo exposto nos tensos nervos dos signos. A palavra é a consciência da vida se construindo, já que, como afirmou Clarice Lispector, “atrás do pensamento não há palavras: é-se” (Água viva)”.
.
Aliás, falando em Clarice, arrisco, não sem insegurança, colocar Lygia Fagundes Telles no mesmo patamar dela.
.
Acredito que Lygia trabalhe melhor as sutilezas, o não revelar de tudo. Ela tem menos necessidade de explicar o mundo. Tenho essa impressão! Seus contos são mais concisos, mais diretos. Ela aceita melhor as coisas como são. Deixa-as no ar.
.
Já Clarice é mais dolorida, esmiúça incessantemente, cansativamente os mistérios do humano, revelando e revelando sempre mais e mais aquelas tantas coisas que ela sentia e escrevia num volume grandioso. Mesmo seus contos, que são, por natureza, mais enxutos, não praticam a arte do menos dizer como os da autora do livro desta resenha.
.
Precisaria ler então um romance da Lygia pra poder ver cada uma delas naqueles que me parecem seus terrenos dominantes!
.
Lygia me parece mais feliz, mais leve, mais cirúrgica, mas nunca menos profunda ou menos sábia! Clarice é mais pesada, densa, mas também, nem por isso, mais brilhante!
.
Acho que são modos diferentes de serem escritorAs!
.
É interessante pensar na personalidade que está por detrás das palavras. Pensar naquele ou naquela que pensou em tudo aquilo e que possui o contexto interno suficiente para fazer real todo aquele mundo literário pós-posto no papel!
.
Os contos, como diz o título da obra, falam de amor, amor de diversas maneiras: amor de adolescente, amor de mulher, amor de homem, amor de menina, amor mais jovem, amor mais maduro, amor que não aconteceu, amor que aconteceu mas terminou, amor descartado, amor eterno. Destes amores, os amantes são: personagens xucros, personagens intelectuais, cientistas, aposentados, estudantes, curiosos, ajudantes de cabeleireira. Uma riqueza por qualquer ângulo que se olhe!
.
Dos oito totais, já listados no início, os melhores, para mim, são:
.
- Apenas um saxofone – um doce de estória sobre uma prostituta e um homem sem ambições. Juras e desafios de amor. Um sax que dizia o indizível e uma entrega demasiada de uma alma póstuma.
.
As cerejas – o clarão, uma revelação, uma traição e sua visão fez de uma mocinha alguém um pouco mais mulher ou um pouco menos menina. O desencanto de um amor platônico!
.
O encontro – impressionante viagem de um episódio vívido e desolador onde uma mulher se vê naquilo que antecede seu fim em outros tempos.
.
A estrutura da bolha de sabão – denso conto de apenas cinco páginas, onde as quebras de narrativa são intensas e as nuances ainda mais presentes. Algo mais que uma amizade, o fim de tudo. A estrutura da bolha de sabão é como o amor: nem sólido, nem líquido, nem mesmo gasoso. Reflete milhares de olhos em sua superfície, mas, por vezes não consegue enxergar. As bolhas, como o amor, devem ser criadas aos poucos, soprando aos poucos a matéria da qual se constrói, pois são frágeis, singelas. Assim também é o amor!
.
.
Adorei o livro! Pequeno, mas gigante profundo!


.

Incêndios



.
Domingo resolvi ir ao cinema e ver uma coisa bem leve. Subi a Consolação, entrei na Paulista e fui olhar pelos cinemas às cegas, já que o site Guia da Semana não estava entrando aqui na internet lenta da minha casa! Aliás, este site entra quando quer, não tem outra explicação. Desconfio que meu computador tenha vontade própria!
.
Enfim, fui, olhei, olhei e acabei parando no Espaço Unibanco. Comprei meia-entrada para ver um filme que nunca tinha ouvido falar: Incêndios, do diretor Denis Villeneuve numa produção franco-canadense. Filme em francês geralmente é muito bom, mas o critério desta vez não foi a qualidade que eu esperava da película. Escolhi este pela conveniência. Não queria ficar esperando muito tempo rodando pela rua. Queria algo leve, rápido, que logo começasse, para que logo terminasse e que me valesse o acaso!
.
Em vinte minutos seria o início. Enrolei, comprei uma Coca, vi uns CD’s numa loja ali perto, terminei o refrigerante. Às oito e cinqüenta e cinco deixei que a mulher rasgasse meu bilhete. Às oito e cinqüenta e sete sentei na poltrona. Nove horas estava marcado.
.
Mas nove e vinte ainda estava passando propagandas de filmes e anunciantes diversos. Ou seja, minha vontade de começar rápido já estava sendo vencida! Depois desta última olhada no relógio, começou o tão desconhecido: Incêndios.
.
Olha, se eu estava à procura de um filme leve, esse não serviria nunca! A risada mais gostosa de todos os 130 minutos de película foi dada por um estuprador, mas quando percebi isso, já era tarde demais.
.
Primeiro que começa com a morte da mãe de dois gêmeos, um rapaz e uma garota. Ou seja, uma maneira muito branda de começar um filme... A mãe, interpretada pela atriz Lubna Azabal, escreve um testamento contanto que seus filhos tinham um irmão e um pai que ainda estavam vivos. Os dois recebem a incumbência de entregar duas cartas, uma escrita para cada um dos dois personagens que ainda seriam desvelados. Após este primeiro passo, uma terceira carta seria entregue aos dois.
.


.
Caso isto não fosse cumprido, a mãe gostaria de ser enterrada numa vala comum, enrolada num pano simples e de costas para a saída. Se tudo fosse feito, ela, só então, aceitaria ser enterrada normalmente.
.
O rapaz, interpretado pelo ator Maxim Gaudette não queria realizar nenhum dos pedidos da mãe, ou seja, nem entregar cartas e nem enterrá-la de costas e etc. Já a filha, interpretada pela atriz Mélissa Désormeaux resolve organizar tudo e parte para a terra natal da mãe, lá no Oriente Médio, atrás de suas raízes suas (sim!).
.


.
O filme é completamente não linear. Cenas do presente e do passado vão se permeando. Estão lá passagens da adolescência da mãe, as coisas horríveis que ela passou. Cenas da procura pelo irmão e pelo pai desconhecidos mostram que o enigma seria de difícil solução, então a filha resolve chamar seu irmão gêmeo para ajudá-la. Eles descobrem que a mãe não é bem quista em sua aldeia natal. Há cenas numa prisão horrível, uma cela ensangüentada, massacre de pessoas inocentes, morte de crianças, começa uma guerra religiosa, há cenas de assassinato, gritos de um estupro, tortura ordinária em piedade, tiros a queima roupa, fogo sobre corpos desprotegidos, loucura de uma mulher que é obrigada a parar de cantar, mas que mantém seu canto como forma de pirraça frente às desmazelas e horrores que lhe batem à cara, desconstrução de muitas almas, a descrença generalizada, mulheres sendo rudimentarizadas, puritanismo dos mais fortes, população desmantelada, intolerância para com o próximo ser-humano, ódio contra uma condição de vida subjugada, pobreza esparramando-se a todos os cantos que se olha, sangue em solo sagrado, fundamentalismo de um conflito sem começo nem fim, violência desmedida, machismo antiquado, caos social e político, coisas e mais coisas e mais coisas e tudo isso vai avolumando e pintando um painel macabro que culmina na frase, dita pelo irmão à sua gêmea:
.
- Um mais um são dois, né?! Um mais um não pode ser um!
.
Caraaaalho!!!
.


.
O susto que a irmã leva a gente também leva... Esta frase é a primeira confirmação de uma suspeita leve é muitissimamente destestável que vai se germinando com o passar das cenas!
.
Vale lembrar que partes do filme recebem nomes específicos, ou seja, subtítulos que contextualizam pedaços da trama.
.
No fim, depois de tudo isso, eles conseguem entregar as cartas ao irmão e ao pai e enfim abrem a mensagem escrita para eles...
.
Nela há palavras de amor de uma mãe que muito sofreu e que aconselha seus filhos a encerrarem o ciclo do ódio iniciado frente ao amor que ela sentiu por um homem e que fez com que toda sua vida fosse destruída compulsivamente, trazendo desgraça encima de desgraça até levá-la a um patamar de fastio e latência insossa perante o mundo.
.
Realmente a mulher, ao fim da vida, estava um bagaço! Coitada!
.
Agora vou falar o segredo do filme de uma maneira cifrada... Se alguém descobrir, me conte. É difícil escrever no limiar do entendível, e pensar no que poderia estar passando na cabeça daquele que lê. Procurei fazer algo que quase mostrasse a resposta.
.
.
O ciclo de ódio só poderia ser totalmente revelado se auto-revelado já que contado seria inacreditável e explosivo. Ainda seguindo esta lógica, o desvelar homeopático era necessário e assim foi feito para que enfim fossem capazes de quebrá-lo exatamente pela busca executada pelos gêmeos atrás do pai e do irmão perdido. Mas isto não bastava... Além de pausadamente relevado, este deveria ser sublimado e isto viria da própria capacidade deles de perdão, perdão necessário para abrandar aquele fundo de trama que, culminando na cena da piscina em que a mãe tem uma visão de uma tatuagem e de um semblante torturante, isto a paralisa e leva-a a ir ainda mais fundo quando ela pensava que seu vazio doloroso não poderia ser quebrado por mais nada. Mas foi, de qualquer maneira, por aquilo que ela lembrava ter sido seu ventre contrito e desgarrado pintado, sendo que dentro dela se fez amor e se fez o querer dos anos vívidos e levados a ferro e fogo e muito ferro recíproco, num oposto cíclico teórico-psicanalítico daquele que, expulsado, seria tão expulsante que, capaz do ato, ainda que sem saber do fato, vociferou horrorosamente o desconserto final da personagem principal.
.
.
.
Um simbolismo do ventre da água que guarda o silêncio dentro de si para emergir no fogo que circunda os personagens nos muitos “incêndios” da vida.
.
A cena final, diante do túmulo da mãe, recebe, enfim, o nome de “Incêndio”, no singular, revelando, portanto, o título da trama, após os muitos subtítulos apresentados ao longo das duas horas e dez minutos de estória. É deixado então que o silêncio da imaginação de cada um construa aquilo que seria os desdobramentos de um fogo interno eterno a ruir uma alma assassina e maléfica acostumada a matar desde pequeno...
.
É um filme impressionante! Quando comecei a desvendar a trama, a primeira coisa que me passou na cabeça foi: não é possível que seja isso! Isso seria demais!
.
Saí do cinema bem pela beleza da montagem apresentada, apesar de tudo que aqui foi narrado. Não vi o filme leve e rápido que queria, mas talvez tenha sido melhor ver estes tantos incêndios para apagar o incêndio que eu estava dentro de mim depois do final de semana...
.



O discurso do rei

.
Há duas semanas, fui assistir ao tão falado, e agora quatro vezes coroado (Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original): O discurso do rei.
.
Antes mesmo de ver, tinha a impressão de que seria um filme meio paradinho, cultzinho, aristocrático. E realmente foi!
.
Por um bom tempo, dentro da sala do cinema, a postura daquele que ainda seria o George VI, sua respectiva esposa, mesmo o terapeuta da fala e sua família estereotipada além de outros personagens; todo aquele climazinho “reação-mínima-contida-na-atuação-da-menor-grandeza” somado ao “não-me-toque-não-se-misture” da Grã-Bretanha da primeira metade do século XX estavam me enchendo bastante.
.
Era o reizinho travado, sua mulher chata e o terapeuta finamente irônico em ação...
.
Mas a amizade tão singela que foi se construindo entre o rei e o ex-ator, o esforço tão verdadeiro de um homem para ser capaz de passar palavras de consolo e animosidade a uma nação às portas de uma grande guerra foram me comovendo.
.
No final me envolvi com tudo aquilo e achei bastante interessante a forma como toda a trama e o próprio discurso final do rei foi coerente com as dificuldades do protagonista apresentadas ao longo das cenas.
.
Ou seja, uma nuance tão delicada de se trabalhar na ficção como a “melhoria da gagueira de um personagem” foi, durante o decorrer do filme, tão bem desenvolvida que me convenceu de que realmente foi o rei que, com ajuda e com seu próprio esforço, conseguiu dizer tudo aquilo. Não houve saltos, um tempo que passasse e de repente o rei estava falando bonito ou coisas do tipo.
.
Mais uma coisa... Rolou uma crítica de que “O discurso do rei” teria sido feito pra agradar a academia e ganhar Oscar. Acho que isso é verdade! Se era isso mesmo, eles alcançaram seus objetivos.
.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O Mago (Biografia de Paulo Coelho) – Fernando Morais

.
Há uns dois anos atrás, estava passando em frente à livraria Saraiva do Shopping Higienópolis, foi quando vi a capa da biografia do Paulo Coelho, escrita por Fernando Morais, autor de outras biografias de personalidades importantes como: Olga Benário e Assis Chateaubriand.
.
Parei, li as frases da capa e achei interessante. Dizia coisas assim: um menino que nasceu morto, teve indícios suicidas, ficou internado em um manicômio, usou diversos tipos de drogas, praticou diversas formas de sexos, presenciou manifestações estranhas que atribuiu ao Diabo, foi preso político, marcou época no rock brasileiro com suas composições com Raul Seixas e a Sociedade Alternativa, sofreu mudanças radicais e se tornou um dos escritores mais lidos de toda a história.
.
Fiquei impressionado!
.
Depois disso, fui pro cinema, vi algum filme que não me lembro, e, voltando com um amigo, mostrei pra ele a capa. Ele leu e também achou bastante interessante a chamada.
.
Depois de muito tempo, estava eu num sebo, com dinheiro no bolso, passei por uma estante e vi a biografia novamente. Estava barata, daí pensei: “vou comprar”.
.
Comprei.
.
Ficou alguns meses aqui em casa, até que, por conselho de outro amigo, comecei a ler...
.
A trajetória descrita na capa é pequena perto de tudo que as mais de 620 páginas do livro mostram.
.
Quem não gosta de resenha descritiva, não leia a partir desse ponto porque eu começo a listar fases da vida do autor. Deixo claro que me restrinjo a simplesmente reproduzir o que está no livro.
.
.
.
.
Paulo Coelho sempre teve vontade de ser um escritor lido no mundo todo, desde pequeno. Lamentava por não conseguir isso. Escrevia diários e mais diários falando da vida, às vezes lamentando, às vezes analisando, às vezes fabulando razões diversas para os acontecimentos.
.
Era um ótimo inventor de histórias. Sabia contar mentiras de criança e fazia traquinagens diversas, algumas um pouco macabras, como: fazer corrida de pintinhos e matar aqueles que perdiam.
.
Levou choques em algumas das vezes que esteve no manicômio. Fugiu de lá, foi parar num lugar muito distante. Namorou Renata Sorrah e dividiu o palco com diversos grandes atores brasileiros, entre eles: José Wilker. Foi diretor e escritor de peças teatrais, principalmente para o público infantil. Chegou a ganhar um dinheiro com isso.
.
Levou Raul Seixas para a bebida e as drogas, segundo conta.
.
Trabalhou como executivo de grandes gravadoras brasileiras. Numa delas, a CBS, foi expulso porque subiu muito encima do tamanco e, movido possivelmente por arrogância, despediu pessoas, acabou com departamentos e foi gerando inimizades até que seu chefe simplesmente o despediu sem justificativas, como é narrado na biografia.
.
Tinha uma forte tendência a ser Bipolar, alternando fases de extrema euforia e outras de profunda tristeza e paranóias. Hoje em dia, parece que isto está mais abrandado.
.
Em algumas partes da vida, usou-se de métodos não muito éticos para conseguir o que queria. Um de seus livros não foi escrito por ele: Manual prático do Vampirismo, mas sim por Toninho Buda, outro parceiro nas explorações da magia oculta. Pagou jabá pra divulgar seu livro em rádios do Nordeste. Traia suas namoradas, sendo que algumas aceitavam isso. Mentiu sobre supostas conversas com John Lennon e outras coisas mais...
.
Fez sexo com homens, por três vezes, até se certificar de que não era gay. Foi estudante de vampirismo, satanismo, teve relações com mulheres em cemitérios. Chegou a propor para uma das namoradas que queria pegar alguns gigolos na Cinelândia para fazerem uma suruba.
.
Se coisas assim foram relatadas, fico imagino aquelas que não foram pro livro ou nem sequer pro próprio diário pessoal.
.
Aprofundou-se na O.T.O fundada por Aleister Crowley, mago inglês que influenciou bandas de rock como: os Beatles, Led Zepelling, Ozzy Osborne, além da própria fundação da Sociedade Alternativa.
.
Quando ainda pequeno, matou uma cabra para saciar o que ele entendeu ser o anjo da morte que havia sido invocado.
.
Presenciou manifestações estranhas no seu apartamento. Acordou de manhã para ir fazer caminhada na praia. De repente, começou a sentir cheiro de velas, parecido com aquele que ele sentia nas catacumbas do colégio católico que estudou, ou como aquele cheiro que sentia quando ia contar os mortos para escrever o obituário que saia nas edições dos jornais. Sentindo o cheiro muito forte, notou que o ambiente tornava-se mais escuro e esfumaçado. De repente sua namorada entra pela porta em prantos dizendo que estava se sentindo mal. Outra amiga que eles telefonaram estava também em prantos e sentindo coisas estranhas. Eles entraram em pânico. Não conseguiam sair do apartamento. Começaram a rezar e tudo foi se abrandando.
.
Depois disso, sua vida começou a mudar completamente, entrando num ciclo ainda mais intenso
.
Ele é preso pelos militares, sofre um seqüestro inexplicável. Os dados sobre esta passagem são bem confusos. Sai do Brasil, pois estava com muito medo. Acho que foi esta a vez que ele e Raul Seixas estavam para lançar o CD “Eu nasci a dez mil anos atrás”. Foram os dois e suas namoradas para Nova York. Presenciou a alegria dos americanos quando Nixon renunciou. Sendo que, depois de fazer parte da manifestação popular, entrou no quarto e viu Raul Seixas completamente acabado pela bebida e pela cocaína.
.
Neste instante, ele decide nunca mais cheirar.
.
Já era o início da transformação... Pelo menos é o que parece pelas histórias contadas...
.
Passou-se mais tempo. No entanto, ele não conseguia se desvencilhar do pânico causado pelo seqüestrou feito pelos militares.
.
Conhece sua companheira, Christina Oiticica...
.
O pânico do seqüestro é tão grande que, ela resolve tomar uma iniciativa e propõe que eles saiam do Brasil sem rumo certo e só voltem quando quiserem. Paulo leva 72.000 dólares da época e promete voltar quando acabasse o dinheiro. Viajam muito e, num campo de concentração da Alemanha, ele tem sua primeira epifania: viu um homem que não estava fisicamente lá, lembrou-se de uns dizeres de um poeta que fazia referência a uns sinosque tocavam por uma pessoa e, realmente soavam sinos naquele instante... Sentiu que algo diferente estava acontecendo ali...
.
Passados alguns dias, encontrou com aquele mesmo homem num pub. Achando que ele era uma entidade materializada, chegou com cuidado e cutucou. O homem, por incrível que pareça, falava português. Era Jean, aquele que se tornaria seu mestre num novo caminho a ser percorrido por ele para fazer parte de uma organização espiritual, a: R.A.M (Rigor, Amor e Misericórdia).
.
Ele começou a passar por provações, fez rituais em partes do mundo, inclusive um deles acontece perto das Agulhas Negras, dentro do Parque Nacional de Itatiaia, em Itamonte, Minas Gerais. Neste ritual ele quase ganha a espada de mestre da R.A.M, mas Jean o repreende, pois ele não deveria ter aceitado o presente, em sinal de humildade.
.
Depois disso, sua mulher recebe a missão de esconder a espada em algum lugar do caminho de Santiago de Compostela que tem mais de 700 quilômetros. Vendo assim, parece uma tarefa impossível, mas ele consegue guiado por um cordeiro que o leva até uma capela onde está Jean.
.
Daí as coisas vão fluindo.
.
O caminho percorrido dá inspiração para escrever o “Diário de um mago”, seu primeiro grande sucesso de vendas.
.
Depois ele recebe uma nova missão no Egito.
.
Lá ele presencia outra manifestação perto da Esfinge e das pirâmides de Quéops, Quéfren e Miquerinos. Vê uma moça que, desta vez, não lhe pareceu somente uma visão, mas uma materialização. Passado um tempo escreve “O Alquimista”, seu maior sucesso, lançado em 1988 e que hoje já foi traduzido em mais de 56 línguas, vendendo mais de 65.000.000 de cópias em mais de 150 países, segundo dados da Internet. É um dos livros mais vendidos da história. Lido, segundo curiosidades contidas na biografia, por terroristas da Al Qaeda, presos de Guantânamo, chefes de estado europeu e variações destes tipos, além de, é claro, pessoas comuns.
.
Outra missão é dada e ele conhece Brida, que seria a personagem de seu terceiro livro de sucesso. Depois disso as coisas foram crescendo vertiginosamente. O fenômeno ultrapassa o Brasil e ganha muitos e muitos recantos do mundo.
.
Em Agosto de 2007, Paulo Coelho bateu a marca das 100 milhões de cópias. Tem diversos prêmios de vendagens em muitos países espalhados pelo mundo. Ganhou casa de um Sheik do Oriente Médio. Mora na França, perto do santuário de Nossa Senhora de Lourdes. É membro da Academia Brasileira de Letras e outras coisas.
.
Uma pessoa que viveu algumas passagens meio estranhas e condenáveis, mas que sempre teve coragem de ir atrás dos seus sonhos. Aliás essa é a mensagem contida no livro “O Alquimista”.
.
.
.
.
Nossa, li tão rápido o livro que achei que não iria lembrar dos detalhes. Mas é interessante como a memória, conforme a gente vai percorrendo as coisas, outras associadas vão surgindo. E a escrita é uma ótima forma de ativar esses caminhos de maneira mais pontuada.
.
Pra terminar, copiei um trecho que me fez rir muito...
.
André Midani, presidente da gravadora Philips, uma das maiores do Brasil na década de 70, resolveu formar um conselho executivo com pessoas de diversas áreas para discutirem, primeiro entre si, e depois com o artista analisado, algumas mudanças na imagem, no estilo, nas composições de cada um, com o intuito de alavancar as vendas.
.
Alguns não gostavam do que ouviam. Certa vez, Rita Lee, ao ser aconselhada sobre alguma coisa, se irritou, levantou da cadeira e disse em alto e bom som:
.
“– Enquanto vocês decidem se devo ou não usar uma peruca Black Power, vou ali no banheiro tomar um ácido.”
.
Mas, os artistas analisados desta vez eram: Raul Seixas e Paulo Coelho.
.
Numa reunião em que Raul Seixas não pode comparecer, Paulo Coelho teve de responder sobre o que era a Sociedade Alternativa, já que os analistas gostariam de concluir se aquilo era um elemento que poderia ser melhor explorado.
.
Segundo Paulo Coelho, ele não estava chapado na ocasião, mas, mesmo assim, sua resposta, gravada numa fita cassete, para ser depois ouvida por Raul Seixas, e depois transcrita na biografia, foi a seguinte:
.
.
.
“A Sociedade Alternativa atinge o nível político, o nível social, a camada social de um povo, estão me entendendo? E ela atinge, porra, a camada intelectual de um povo que está saindo de uma curtição, que está sendo mais exigente... Tanto é que houve uma discussão lá em São Paulo sobre a revista Planeta. Eu acho que a Planeta vai falir daqui a um ano porque todo mundo que lê Planeta aprende e começa a achar Planeta uma revista boba, feito faliu na França, inventaram o Le Noveau Planet, depois o Le Noveau Noveau Planet, estão me entendendo? Acabaram fechando a revista. Assim vai acontecer também com todo esse povo que atualmente curte macumba. Não, não, não! Não o proletário, hein? Mas aquilo que a gente chama de classe média. A burguesia que, de repente, resolveu se interessar, sabe, intelectualmente? É claro, existe outro aspecto da questão que é o aspecto da fé, de você ir lá e conseguir fazer uma promessa, conseguir ganhar um terreno, enfim, outras coisas. Bom, mas em termos culturais vai haver uma mudança, entende? E essa mudança vai vir de fora, do jeito que sempre veio, tão me entendendo? E ela nunca vai ser filtrada por um produto brasileiro chamado espiritualismo. Isso, agora, já discutindo num plano espiritual, porque no plano político acho que eu fui bem claro, né?”
.
Fernando Morais faz um adendo:
.
“Clareza evidentemente não fora sua principal virtude, mas o grupo de trabalho parecia habituado a personagens assim. Paulo engatou uma segunda e prosseguiu:
.
Então... Nem estou querendo defender colocações, nem nada. Então, vai haver essa filtragem. Na minha opinião, não é filtragem, mas nunca o sujeito vai deixar de curtir Satã, que é um negócio altamente fascinante: “Pó, Satã?” É um tabu como... Como a virgindade, tão me entendendo? Então, quando todo mundo começa a falar de Satã, mesmo que você tivesse medo do Demônio e detestasse ele, você efetivamente quer curtir essa, entende? Porque é agressão, agressão do Sistema contar si mesmo, agressão de repressões, entende? Aparece uma série de coisas dentro desse esquema e você passa a curtir essa... É uma onda que vai durar pouquíssimo, mas que ainda não pintou, a do Satã. Mas ela é um fenômeno. É resultado da agressão, da mesma coisa do amor livre, do tabu sexual que os hippies abriram.
.
[...] Isso que eu dei não foi um panorama de Sociedade Alternativa. Coloquei algumas coisas mas eu procurei dar um panorama de tudo aquilo que nós concebíamos, a visão geral da coisa, certo? Bom, então, agora colocando Raul Seixas nisso tudo... A Sociedade Alternativa serve a Raul Seixas, e não se deixa influenciar porque a gente conversou dois dias sobre Sociedade Alternativa, que a gente só fala em Sociedade Alternativa, entende? A Sociedade Alternativa serve pra Raul Seixas na medida em que Raul Seixas catalisa esse tipo de movimento, entende? Ela tem sido julgada por um mito. Ninguém explica o que é Sociedade Alternativa.
.
Estão me entendendo?”
.
.
.
O que é a didática, não é minha gente?!
.
Deve ser legal ouvir essa gravação!!!
.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Num fumódromo

.
Sentado num vaso de planta:
.
- Às vezes é invasiva essa coisa de olhar pras pessoas e percebê-las além da casca. Tem horas que isso se torna uma avalanche de impressões. Sufoca um pouco!
.
Silêncio de música ao longe...
.
Prossegui:
.
- Mas é assim mesmo, né?!
.
Dei mais um trago e continuei:
.
– E eu que antes tinha medo de sair da cama, medo de quase tudo, medo de pensar que eu ainda tenho, talvez, mais 50 anos pra viver... É foda! De tempos em tempos, vejo que preciso ser ainda mais forte... Sempre mais!
.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Doutor Fausto – Thomas Mann

.
Depois de colocar aqui tantas frases retiradas do livro, chegou a hora de postar a resenha do Doutor Fausto.
.
Respondendo as perguntas:
.
Abner, Doutor Fausto não é o Fausto de Goethe. Os dois são baseados no mesmo mito de Fausto, o médico que vende a alma pro diabo, mas são obras diferentes e contêm desdobramentos bem diferentes.
.
E Luciana, esse Fausto não é violinista, mas compositor.
.
.
.
.
Vamos lá...
.
.
.
.
Obra máxima e última deste que é considerado o mais alemão dos autores.
.
Thomas Mann nasceu em Lübeck, norte daquele país, perdeu o pai, rico funcionário do governo e empresário, aos 16 anos de idade. Por conta deste ocorrido, muda-se com sua família para Munique, localizada no sul, onde experimenta um estilo de vida mais cosmopolita e moderno.
.
Considerado um dos maiores da literatura do século XX, conquistou uma boa repercussão já no seu primeiro romance: Os Buddenbrook, repetindo e ampliando o êxito em outras obras seqüentes, como a Montanha Mágica, que, com certeza, ainda vou ler!
.
Era, até antes da Primeira Grande Guerra, nacionalista, conservador, defendendo a monarquia, o espírito alemão e mesmo o embate bélico do Império Guilhermino. Essas convicções mudam com o desenrolar dos fatos mundiais, como ainda será dito.
.
Escritor dedicado, possui uma extensa obra, contendo livros enormes, tratados políticos, ensaios, uma tetralogia em tributo ao povo judeu (José e seus irmãos) e mais de 100.000 páginas de cartas e diários escritos ao longo de 60 anos de produção.
.
Em viagem, no ano de 1933, para participar de congressos, foi aconselhado a não voltar a seu país de origem, devido à ascensão de Hitler. Negou-se a isso. No entanto, mal sabia que só pisaria novamente em solo germânico no ano de 1949 para a comemoração do bicentenário de Goethe.
.
Firmou, então, residência nos Estados Unidos, continuou produzindo e foi contra a ideologia Nazista. No entanto, nunca mais morou lá. Quando retornou a Europa, instalou-se na Suíça, tamanho seu descontentamento com aquele regime que só caiu do poder quando o próprio país ruiu, fato que o autor não acreditava que fosse acontecer, pois considerava desnecessário.
.
E é essa negação do Nazismo, casado a uma defesa das raízes germânicas, que está como cenário geral do engajamento político presente em partes do romance Doutor Fausto.
.
Mais uma coisa... O que pouca gente sabe, e que agora cabe dizer, é que o autor é filho de uma BRASILEIRA, Julia da Silva Bruhns, nascida nas proximidades de Paraty. Esta influência da América do Sul está presente na figura da borboleta Hetaera Esmeralda, um dos elementos simbólicos presentes no livro.
.
Vamos à estória...
.
Obra ficcional que contém o registro da vida de Adrian Leverkühn narrada por seu amigo Serenus Zeitblom.
.
Em plena Segunda Grande Guerra Mundial, Zeitblom, educador e homem muito culto, talvez um alter-ego do próprio Thomas Mann, resolve registrar a vida do compositor dodecafônico Adrian Leverkühn, do qual foi amigo por mais de 40 anos.
.
Suas vidas se cruzaram em diversos pontos, desde a infância, passando pela faculdade, casamento, carreira profissional e assim por diante. Sendo assim, Serenus compreendeu ser ele o mais adequado para imortalizar a história intrincada daquela famosa e sombria figura da música contemporânea feita na Alemanha na primeira metade do século passado.
.
De família ligeiramente abastada, Adrian, filho de pais camponeses, mostra, desde pequeno, ser detentor de uma inteligência acima da média. Aliado a isso, está um comportamento de atitudes resguardadas, excentricidade e secura por vezes exagerada.
.
Era extremamente habilidoso no trato matemático e elaborava teoremas diversos sobre conjuntos, encontrando simetrias entre pontos aparentemente dispersos, analogias formais e numerológicas entre elementos vagos.
.
Aliado a isso, começa, quando pequeno, seus estudos de música com um professor gago que ele considerará seu mestre por toda a vida. Infelizmente não consegui achar o nome deste personagem aqui no livro.
.
Está formada, assim, a base lógica para a formação de um compositor cerebral revolucionário. Eis um princípio de construção da realidade ficcional presente!
.
É isto que vai sendo alimentado...
.
Vem das narrativas das aulas deste senhor (que aqui fica sem nome) as primeiras grandes belezas deste livro, e os primeiros fomentos artísticos de Leverkühn. Pela escrita de um livro onde um educador narra a vida de um compositor moderno, Thomas Mann, pela voz do professor de música, dá vida a uma extensíssima reflexão sobre a história da música ocidental, que no fundo, servem de elemento de coesão para aquilo que virá. Dotado de extrema sensibilidade e um conhecimento de causar inveja, as páginas vão ganhando volume e a obra vai recebendo um peso teórico de beleza estonteante.
.
Camuflada numa narrativa de aulas de teoria musical, o autor alemão pôde colocar o volume absurdo do seu repertório sobre música nesta obra.
.
E, aliás, este recurso não se limita a apenas este campo. Quando da ida de Adrian à faculdade de Teologia, que resolve seguir apesar de seus avanços na música, Thomas Mann novamente destrincha um cabedal de informações filosóficas sobre Deus e os teóricos da disciplina em questão que é impressionante. Esta aí mais um elemento constitutivo do universo interno do personagem principal.
.
Também há passagens sobre ciências naturais, como o episódio da gota, protagonizado pelo pai do compositor.
.
Realmente é um livro com trechos de extrema dificuldade.
.
Não é necessário conhecer os assuntos, mas, na parte de música, quem não entende um mínimo de teoria, pode sentir um pouco frustrado em alguns momentos. No entanto, o grosso das elucubrações do literato pode ser acompanhado, não sem esforço.
.
Este livro é conhecido também por isso. As conversas dos personagens, sempre pertencentes aos meios artísticos e intelectualizados das cidades por onde Adrian Leverkühn passava, são elaboradas com brilhantismo e as ciências vão se permeando num mar de teorias e considerações profundas sobre os mais diferentes assuntos.
.
É considerado o livro mais rico de informações escrito por Thomas Mann.
.
E é neste meio rico de conhecimentos que Serenus e Adrian vão levando uma amizade muito mais alimentada pelo biógrafo que pelo biografado.
.
Adrian é fechado, se abrindo com alguns poucos. Esquivava-se sempre de maiores aproximações, possuía dores de cabeça intensas que, depois de um tempo, descobriu ser por tédio e por motivos taciturnos.
.
Por falar em taciturno, há o capeta, como em tudo que tem o inócuo núcleo de Fausto como base.
.
Escrita pelo próprio Adrian e entregue a Serenus por ele mesmo, a passagem do pacto, meio que já selado pelo desenrolar de uma vida (e isso eu achei genial), é apresentado numa conversa registrada numa carta. Sentado na sua sala de trabalho, Fausto percebe uma figura observando-o no canto do cômodo. Vira-se e, mostrando-se extremamente habilidoso com as palavras, o Diabo destrincha uma série de argumentações racionais sobre o porquê da escolha do compositor para ser seu escravo eterno.
.
É um dos pontos altos do livro!
.
A destreza das explicações, a clareza e até mesmo a honestidade do contratante são exemplares, resgatando mesmo experiências passadas de Adrian para amarrar sua vítima que, em verdade, amarrou-se voluntariamente com o passar dos anos.
.
Mudando de feição conforme dizia, sentado naquela poltrona escura no canto, Mephistopheles, numa nova aparição literária, passa seu recado, sela o contrato sem volta e some, deixando a promessa de êxito e dores que iriam se alternar em épocas da vida do solitário compositor nos próximos 20 anos.
.
E assim acontece...
.
Tudo muda e o prometido vai se desenrolando...
.
Adrian alterna-se em épocas de extremo brilhantismo, compondo óperas, concertos, sinfonias num ritmo alucinante, inovando as regras harmônicas, sendo por vezes aclamado e por vezes incompreendido. No entanto, passadas estas fases, caia na cama, fechava-se no quarto escuro, recebia poucos amigos para conversas naquele ambiente sem luz e agonizava sua enxaqueca por semanas e meses a fio.
.
Com o passar dos anos, este vai se fechando, se fechando, tornando-se mais e mais corcunda, de semblante escuro, sempre acometido de doenças, vai ganhando notabilidade, tem suas obras executadas em diversas casas de show da Europa, vai envelhecendo e, porque não dizer, tornando-se um pouco menos esquivo e seco. Chega até a esboçar uma intenção de casamento...
.
Os personagens são muito bem construídos. O autor consegue pensar pela cabeça daquela sua criação e esmiuçar as razões de cada para tomar determinadas atitudes ao longo da obra. Personagens diversos, dos mais sérios, aos mais brincalhões, dos mais corretos aos mais estranhos, drogados, instrumentistas, galãs, senhoras ricas e fúteis, descontentes da vida, vão passando pela vida social de Serenus e de seu amigo compositor.
.
Trata-se de uma obra realmente grandiosa. Thomas Mann constrói um universo social de artistas e intelectuais de muita esfericidade. Impressionou-me bastante a quantidade de informações colocadas, a capacidade narrativa do escritor, sua sensibilidade no trato com as figuras inseridas na obra e a coerência destas figuras que vão se desenvolvendo ao longo do tempo, fazendo sentido seu amadurecimento, os caminhos traçados por cada um bem como seu passado remoto.
.
É a ruína de um artista encarnando a própria ruína de um país em guerra. Sendo assim, Hitler seria o próprio demônio!
.
Mais de 700 páginas que valem o quanto pesam! E realmente pesam bastante!
.








terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O turista

.
Vi com minha mãe, no domingo de noite.
.
Ela gostou e eu também!
.
Angelina Jolie e Johnny Depp estão muito bem! Concorreram a Globo de Ouro e tudo mais.
.
A surpresa do fim é colocada numa hora interessante e faz a trama ter modificações em pontos passados e muito sutis, dando mais brilho pro filme! Um brilho que a gente mesmo tem que voltar e intensificar pela memória dos acontecimentos já apresentados.
.

Para gostar de ler – Vol. 9

.
Tinha a impressão de que já havia lido este livro, mas, por falta de certeza, acabei lendo de novo.
.
Um livro curto, de contos bem humorados, em sua maioria, com caricaturas dos autores na contracapa, entrevistas com cada um deles e rápida biografia. No caso de Clarice Lispector e Machado de Assis, que já haviam morrido quando da formulação da obra, as respostas foram construídas com base em outras declarações suas.
.
São 13 contos divididos em 4 temáticas...
.
O esquema geral fica assim:
.
Encontros:
- Cem anos de perdão – Clarice Lispector (sobre roubar rosas)
- A armadilha – Murilo Rubião (um cara cai numa cilada “eterna”)
- Trabalhadores do Brasil – Wander Piroli (diálogo entre um desenhista de rua e uma mulher)
.
Desencontros:
- Cego e amigo Gedeão à beira da estrada – Moacir Scliar (um cego conta lorotas)
- Dezembro no bairro – Lygia Fagundes Telles (uma turma arranjando dinheiro pro Natal)
- Conto de escola – Machado de Assis (palmatórias e meninos desbravando a vida)
.
Fantasias:
- Teleco, o coelhinho – Murilo Rubião (bicho que vira outros bichos)
- Nós, o pistoleiro, não devemos ter piedade – Moacyr Scliar (um duelo faroeste)
- Um apólogo – Machado de Assis (conversa entre uma linha e uma agulha)
.
Descobertas:
- Macacos – Clarice Lispector (filhos e macacos)
- Natal na barca – Lygia Fagundes Telles (uma mãe, seu filho e Deus)
- Festa – Wander Piroli (um negro e seus dois filhos famintos comendo)
- Meninão do caixote – João Cândido (guri campeão de sinuca)
.
3 contos me chamaram mais atenção:
.
Macacos – Clarice Lispector
.
O ritmo da narrativa é estranho, as frases não parecem terem sido escritas umas após as outras. Às vezes, dá a impressão de que houve pulos, quebras leves de ritmo. E o fim, aliás, a frase do fim é muito bem colocada. Pelo que entendi, passa uma mensagem meio cômica e, porque não, frustrante!
.
Natal na barca – Lygia Fagundes Telles
.
A própria escritora se coloca numa barca, na véspera de Natal, e conversa com uma mãe que já havia perdido um filho e carregava o outro doente no colo. O incômodo, por vezes inexplicável, da autora-personagem, é estranho e incomoda também o leitor que não entende o porquê dela se doer tanto em cada mínima passagem. Isso se torna um recurso muito interessante. O final é lindo, lembrando-nos que tudo aquilo se passou no Natal!
.
Meninão do caixote – João Cândido
.
O que mais me marcou neste conto é a linguagem, muito próxima da de Guimarães Rosa. Um jeito simples de dizer as coisas, a sabedoria popular, as relações de um adolescente com o sub-mundo das jogatinas, os personagens da boemia, as apostas narradas num tom rasteiro e ingênuo, com paixão e pesar; o clímax próximo do desfecho e o final singelo daquela cena indo à distância, numa tarde de domingo. Lindo!
.

Cisne negro



.
Vi este filme, por acaso, no domingo retrasado. Tinha aqui no computador uma lista com as películas que concorreram ao Globo de Ouro de melhor filme e, depois de ver um que estava num horário e local convenientes, fui.
.
Quando estava chegando no cinema, passei por outro e vi um cartaz com a Natalie Portman e pensei: “Olha, a Natalia “Portland”, deve ser um filme bom!” - Chegando no destino, percebi que já estava a caminho de ver o filme do referido cartaz.
.
Cisne Negro conta a história de Nina, uma bailarina super dedicada de uma companhia em ligeira decadência. Exageradamente perfeccionista, mas não por isto, ela é escolhida para substituir Beth MacIntyre, assumir o posto de primeira dama da companhia e protagonizar uma diferente montagem d’O Lago dos Cisnes, onde uma só dançarina iria dar vida ao Cisne Branco e ao Cisne Negro. Nina, no entanto, não possuía o peso e o envolvimento sedutor necessários para encarnar a vilania. Custava-lhe entender que a perfeição, tão almejada por ela, não era atingida somente pela técnica.
.
Dá-se, então, início a uma série de conflitos internos, já anteriormente latentes, que levam Nina a beira da loucura.
.
Conflitos externos também permeiam a trama, envolvendo outras bailarinas que a invejam e gostariam de estar no seu lugar. Também são mostrados conflitos com sua mãe, Erica que, se num primeiro momento pareceu dedicada à filha, adiante, mostra-se obcecada, castradora e frustrada enquanto bailarina.
.
O diretor da companhia, Thomas Leroy, sedutor, resolve trabalhar e envolver Nina além da fronteira do profissional, o que traz um misto de cenas simpáticas e nojentas. No fim, achei este personagem um dos mais interessantes de todos.
.
Logo no início, tem-se uma seqüência ótima onde a câmera segue a bailarina enquanto dança. Este recurso é usado outras vezes. É realmente envolvente sentir-se participante dos movimentos de uma dança!
.
Aliás, efeitos especiais estão colocados em momentos oportunos do filme, não se tornando exagerados, construindo sutilmente uma tensão crescente que quase sempre é alimentada pela cara de tristeza de Nina.
.
Natalie Portman está muito bem, como sempre! A cena em que ela entra no banheiro, liga pra mãe e conta a notícia da escolha é comovente! A câmera focada bem no seu rosto, ela encosta na parede e chora de felicidade com tanta verdade que não tem quem não se toque!
.
O crescente de sustos, tragédias e paranóias vai num acúmulo absurdo, culminando nas cenas finais onde a beleza e a tensão são alimentadas por uma trilha sonora magnífica.
.
Nina entra, dança como cisne branco, troca-se num misto de brilhantismo e esquizofrenia, incorpora magicamente a vilã negra (Que maquiagem!) numa das partes mais fortes dos 108 minutos de duração, e retorna para a cena final, novamente como o cisne branco.
.
Entregando-se totalmente ao personagem, ela realiza os atos finais: olha para o vilão, para seu amor inconquistado, olha a todos e despenca, como era previsto no roteiro da peça.
.
Thomas Leroy, o diretor da companhia, encantado com a performance, aproxima-se, o público ovacionando tudo aquilo e então ela diz aquela frase que faz tudo se encaixar dentro dos porquês divinos da arte:
.
- “That was perfect!”
.
Ou seja, tudo se justificava pela tentativa alucinante de um artista em busca da perfeição, do ápice da arte, da proposta exata, da intenção sob medida, do sublime!
.
Isso pra mim arrebentou!
.
Se não fosse por isso eu até teria gostado menos de toda aquela confusão assustadora montada, mas, por este fim e por esta frase, eu comprei totalmente a idéia do filme...
.
É arte nos levando a entender seus motivos mais nucleares! A nervura da obra, o corte do ventre no acaso inebriante, o acaso encharcado de loucura aterradora, a loucura da catarse totalmente inquestionável!
.
Quem seria digno de dizer: “Não valeu a pena”?!
.
Além de todo este conteúdo, a forma, o bailado da câmera, os efeitos, a maquiagem, a trilha do filme e do próprio Lago dos Cisnes, todos estes elementos que vai dando força às idéias centrais, estão muito bem colocados.
.
Aconselho 100%, e de preferência no cinema e não em DVD, já que o impacto da tela grande ajuda muito no envolvimento com a ficção.
.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O vencedor (The fighter)

.
Filme muito comovente, de atuações muito naturais, vívidas.
.
As tramas bem montadas, onde são envolvidos membros de uma família. Há também diálogos profundos espaçados, apesar de ser um filme de poucas palavras.
.
O que não está dito explicitamente tem grande peso sobre os personagens.
.
Achei interessante, pois é um filme onde realmente não existem vilões. Há aqueles que atrapalham e enriquecem o andar da trama, mas, o conflito se passa inteiramente dentro de um círculo familiar, onde o amor é presente, mas, ao mesmo tempo estão a inveja, as crises, as relações de irmandade e suas conseqüências.
.
Não é um filme sobre Boxe, é um filme sobre família!
.
Ainda assim, é narrada a história real de um boxeador, "Irish" (Micky Ward - Mark Wahlberg) que quase desistiu da carreira, mas insistiu e chegou a ser campeão mundial.
.
Está indicado para sete Oscars, contendo: melhor filme, melhor diretor e roteiro original, três das estatuetas consideradas as mais importantes. Mas é sempre assim, os grandes prêmios sempre circundam entre algumas poucas mãos.
.
Já venceu dois troféus no Globo de Ouro de melhor atriz coadjuvante, para Melissa Leo, a mãe, e ator coadjuvante, Christian Bale, o viciado irmão que quase afunda a carreira do vencedor.
.
Aliás, este ator está PERFEITO no personagem. É um dos pontos altos da película. Uma atuação que, desde o início, já impacta pela paranóia estampada na cara dele. Em todas suas nuances, está comovente pela veracidade com que a perdição e a loucura do Crack são incorporadas pelo irmão.
.
Mas é um filme de superação e, depois de uma descida muito íngreme que leva um membro da família à cadeia, outros a brigarem e outro a ter sua cara toda machucada, todos se reerguem, aos poucos.
.
Junto a isso, dá-se o desenrolar de uma história de amor, entre o boxeador e uma garçonete de bar. O casal idealizado está muito bem conjugado!!!
.
Repetindo e ampliando, os atores são o grande show! Estão muito bem, naturais, fluidos pelas cenas, o que traz um clima de intimidade com os acontecimentos. Parece que está-se observando o cotidiano de pessoas normais e não de atores interpretando com veemência o cotidiano de pessoas normais.
.
É o conceito do (des)atuar, que existe no teatro...
.
Gostei!
.
Antes desse vi Cisne Negro, mas to com preguiça de escrever sobre ele.
.
E também já acabei Doutor Fausto, desde sexta da semana passada, mas também estou com preguiça de escrever. Não é tanto só preguiça, mas é que estou fazendo muita coisa e daí eu fico adiando!
.
Mas logo logo estarão aqui...
.
Agora estou lendo O Mago, biografia de Paulo Coelho.
.
Acho que será mais rápido que Doutor Fausto, pelo menos as passagens são bem mais fáceis de entender.
.
Vou dormir, estou morrendo de sono e nem sei por que me prolonguei até agora.
.
.
.

Turma de Preto (Vídeo)

.
.
Lindo demais!!!
.
Chorei de novo!!!
.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O banqueiro anarquista – Fernando Pessoa


.
Livro de Fernando Pessoa que li no intercâmbio.
.
Conta a conversa de um homem comum com um banqueiro que se diz anarquista.
.
Na verdade, tudo circunda em torno de uma pequena idéia de que, a única maneira de se ver livre do dinheiro, é tendo muito.
.
Só então pode-se considerar uma pessoa livre das amarras financeiras, um verdadeiro anarquista.
.
Este é o conceito central que levou Fernando Pessoa a escrever este conto.
.
O banqueiro fez, de si, aquele que ele julgava ser o único verdadeiro anarquista da Terra, por ter se libertado pela acumulação.
.
Só assim, julgava o protagonista, é que se pode deixar de ser escravo da moeda.
.
Polêmicas a parte, é isto!
.


A grande arte – Rubem Fonseca


.
Li este livro para uma disciplina da ESPM. Depois, como era da exigência do professor, fizemos uma apresentação que demonstrasse alguma essência que retiramos da obra.
.
Na verdade, acho que não consegui captar muito bem o principal de tudo aquilo e escrevi um texto que o professor não gostou muito. Notei pelo seu entusiasmo!
.
Pra falar a verdade, eu também não gosto desse texto hoje em dia.
.
Ele está nesse endereço:
.
http://viajantesdoinfinito.blogspot.com/2005/11/mandrake.html
.
Enfim, esta obra conta a estória de um detetive, meio advogado, o Mandrake, que investiga casos, gosta de facas, mulheres, noitadas. Um sujeito meio machão!
.
Dentro do cenário meio submundo, acontecem assassinatos, traições e coisas do tipo.
.
Este foi o livro responsável por lançar este personagem famoso da literatura brasileira.
.
Não é o estilo de livro que eu mais gosto! Romance policial não me agrada muito, apesar deste ser bem escrito.
.


Amar, verbo intransitivo (Idílio) – Mario de Andrade


.
Este título sempre me deixava curioso. Como poderia o verbo amar - que sempre é transitivo, afinal, quem ama sempre ama algo ou alguma coisa – ser intransitivo, ou seja: ama e ponto final.
.
Seria como o verbo chover. Não se pergunta se chove alguma coisa, se chove a alguma coisa. O amar seria o amar em si, e mais nada. Daí “Amar, verbo intransitivo”.
.
É um título bem interessante e chamativo! Cativante!
.
Conta a história de Fräulein, uma senhora contratada para cuidar de um garoto que entra na adolescência.
.
Seu intuito é ser a mulher perfeita para que o garoto se apaixone por ela e a ame.
.
Não me lembro se, além de iniciar o garoto na arte do amor, ela também estava incumbida de iniciá-lo no sexo. Não me lembro mais disso!
.
É um livro tranqüilo, pequeno, mais parece uma novela que um romance. Não é de difícil leitura.
.
.
Essas minhas resenhas estão ficando mais corridas do que de costume porque faz tempo que li estes livros.
.
Quem quiser saber mais sobre o livro, tem coisas interessantes neste link:
.
http://www.jayrus.art.br/Apostilas/LiteraturaBrasileira/Modernismo22/Mario_de_Andrade_Amar_Verbo_Intransitivo_resumo.htm
.

Baía dos Tigres – Pedro Rosa Mendes


.
Livro que me acompanhou por todo o intercâmbio, em 2002.
.
Carreguei-o comigo pra todo canto, lendo devagar e calculando pra ele acabar junto com a minha volta pro Brasil.
.
É um misto de ficção e realidade, uma narrativa fantasiosa e jornalística sobre a travessia que Pedro Rosa Mendes fez pelo centro do continente africano, de Angola a Moçambique, enfrentando campos minados, guerras civis, seca, fome, doenças e outras mazelas que se fazem ainda mais presentes naquele mundo.
.
O autor consegue um ritmo impressionante de narração, uma linguagem nada banal que, em muito, ultrapassa a simples narrativa linear e factual, fiel à realidade.
.
Constantemente são colocadas observações críticas sobre as situações. Fatos e histórias ouvidas na viagem tomam conta da dos momentos, sendo colocadas lado a lado com as passagens vividas pelo próprio autor em sua travessia.
.
Este caminho, que cruza a África pelo meio, foi escolhido por ele por ser aquele trilhado pelos exploradores, marinheiros portugueses (o jornalista também é português) Hermenegildo Carlos de Brito Capelo e Roberto Ivens 100 anos antes. Esta travessia ficou famosa e ajudou a levantar dados sobre as colônias portuguesas.
.
Ganhou o prêmio Pen Club 2000 e foi muitíssimo elogiado pela crítica.
.
Foi deste livro que tirei a frase que ficava encima da porta do meu quarto: “O desespero é o reflexo mais fútil nos caminhos sem apelo.”
.
Este frase foi bem importante em algumas passagens daquele ano!
.
Mais uma coisa, Baía dos Tigres é o nome de um lugar de Angola e, se não me engano, a travessia teve seu início lá.
.
É um livro foda, bem difícil, mas muito inteligente e profundo!
.
O autor, como se pode notar, tem uma cara de louco e isso é um bom sinal!
.


Conto da ilha desconhecida – José Saramago


.
Li este no intercâmbio.
.
Já tinha ouvido dizer da qualidade de Saramago e de sua fama de ser difícil, então comprei este que é um livro bem pequeno, pra começar aos poucos. Tem umas 50 páginas, talvez!
.
Um homem pede, para um rei, um barco, no intuito de descobrir uma ilha desconhecida. Mas, naquela altura da história na estória, todos sabiam que não havia mais ilhas a serem descobertas.
.
Mesmo assim o homem insiste e consegue o que quer.
.
Enche o barco de sementes, alimentos, bebidas e sai para o mar.
.
Depois de muito navegar, enfrentar chuvas, dias ensolarados, aquele barco começa a tomar vida própria.
.
As sementes, os mantimentos começam a se tornar um ecossistema e então, a ambição daquele homem se torna realidade, quando seu próprio barco se torna a ilha desconhecida que ele tanto queria encontrar.
.
Uma bonita idéia!
.


Diário Noturno – Gabriel, o pensador

.
Li este livro no intercâmbio!
.
Coleção de textos avulsos que o rapper “Gabriel, o pensador” escreveu em suas divagações noturnas, guardava em gavetas e baús, até que resolveu publicá-los.
.
Lembro-me de ter lido bem rápido, pois as palavras eram bem colocadas e fluidas.
.
São textos sobre a condição social do homem, sobre o que ele sentia quando pensava no mundo, o racismo, a revolta que lhe causava o conformismo das outras pessoas, bem como palavras românticas sobre amor e mulheres.
.
Gostei bastante de um trecho em que é narrado um episódio de um protesto que ele fez sozinho na faculdade de Comunicação Social na PUC-RJ, onde estudava.
.
É um livro difícil de achar! Li um que a minha prima tinha, mas depois não achei mais em lugar nenhum.
.
Fica na lembrança, então!
.


Mais Doutor Fausto

.
"O passado seria tolerável tão-somente para quem se sentisse superior a ele, ao invés de ter de admirá-lo estupidamente, sob a noção da importância atual."
.

Osmose de não ser


.
Às vezes se perdia num eterno não-eu, não ele mesmo. Não era conclusão operante que se fechava constantemente. Não era verdade em nenhum instante de sua vida. Era sinceramente uma eterna arte de ser alguma coisa, uma beleza que se convencia de si, sem nunca, no entanto, ser ele mesmo. Um vácuo constante entre o ser e o tempo. Uma irrealidade irretocável que circundava todo seu corpo num mantra viscoso que o impedia de vigorar como profundamente queria. Estava sempre atrasado em relação ao seu querer. Era um segundo, um terceiro num segundo, em dois segundos apenas, um primeiro calado e desconhecido. Nunca reconhecia em si, no momento de ser, aquele ser mais profundo. Nenhum instante bastava para encadear sua alma. Era sempre razoável. Não era raso, apenas razoável, presumível de um saber ser aquilo que acreditava ser o ideal.
.
Um toque e já não estava tão tocando. Um sorriso e já não estava mais nele sorrindo, uma lágrima e todo o lamento se esvaia constritamente por entre o pulsar de seu corpo, que novamente se alegrava para novamente flutuar a outro sentimento. Tinha a máxima sede até o momento de tomar o primeiro gole. Tinha frio até calçar as meias. Tinha sono até recostar sobre o travesseiro por alguns instantes apenas. O primeiro pedaço, o mais gostoso, nunca mais estaria consigo. O segundo já tinha seu gosto alterado pelo tempo, pelo simples fato de não ter sido o primeiro. Seria a espera a única forma plena de sentir? Seria a saudade gostosa somente total na latência do primeiro beijo? O perfume mais gostoso somente enquanto estava no ar, antes de tocar a pele? A música mais bonita somente no ato de ouvi-la com os ouvidos corretos para aquele som, e nunca mais resgatar aquele instante perfeito? Seria a palavra mais viva somente no limiar consciente do escritor?
.
Talvez no fundo todos sejamos assim. Uma eterna transfiguração de vicissitudes, de expressão suprimida de uma alma que, em seu seio, é explosão inócua. É desvario cintilante, arrebentando singelamente os quatro cantos de nossos cantos. Seriamos no fundo, um fluir sem destino, desembestado, extravagante sem um foco, um fluxo sem margens. Seríamos poros de sentimentos numa constante osmose dentro-fora. A osmose de nunca realmente ser.
.

OITOCENTÉSIMA POSTAGEM - ZEITGEIST


.
Qual é o espírito do nosso tempo?
.
Qual o espírito deste tempo que, por vezes, nem é nosso? Nem é dos outros. Não é de ninguém, não cabe em ninguém, nem cabe em todos juntos, talvez.
.
Talvez!
.
O espírito do tempo seria a coletividade exacerbada? A individualidade velada, sob uma constante afronta de multidões?
.
Ou o espírito do tempo seria a mesma coletividade exacerbada pela mesma individualidade velada, sob uma constante afronta de multidões?
.
O espírito do tempo seria jogar-se no rodamoinho da vida sem se importar consigo mesmo? Ou seria o velar de si, numa quimera de proteção pelo conjunto?
.
As gangues? Os bandos?
.
Como os peixes que andam em cardumes como forma de protegerem-se dos predadores maiores?
.
E o predador maior dos oceanos da vida seria o próximo, ou a própria pessoa?
.
O espírito do tempo são aquelas gangues ou um apartamento vazio num fim de semana de alívio solitário? Um drink arredio e enclausurado tomado num canto de um bar superlotado? O diálogo corrido, de respostas e perguntas em seqüência, num bi-monólogo de cinco minutos?
.
É este o espírito de nosso tempo?
.
Seriam as crianças que parecem jovens adultos? Os adultos que insistem em ser jovens ainda? Os jovens que insistem em não ser nada?
.
Os emos, os coloridos?
.
Justin Bieber e seus milhões de acessos e fãs de uma geração que vem? Lady Gaga e sua atualização do pop?
.
A música é a imagem, e a imagem é a música.
.
Será isto mesmo?
.
Seria Amy Winehouse em sua volúpia suicida e condenável, mas ao mesmo tempo deliciosa? Seria o consumo mercadológico de uma genialidade, exaurida de suas belezas, culminando na morte do rei do Pop em 2009?
.
Ou seria o espírito do tempo, o seu próprio oposto, ou seja, o corpo? Seria o intangível do tempo, o tangível da matéria? A ditadura da beleza? O silicone que rompe a pele? O homem que se depila? A mulher que tem músculos? Um transexual no maior Reality Show do país?
.
Seria a desconstrução final da arte? Um cocô num pedestal? Um urubu na bienal? Ou a própria chatice do IBAMA que proibiu a expressão de um conceito artístico por achar que os bichinhos estavam se estressando?
.
E se tivessem colocado uma pessoa? Se tivessem transferido um preso de Bangu pra dentro do pavilhão no Ibirapuera? Qual seria a reação dos direitos humanos?
.
Faria parte, enfim, deste nosso espírito do tempo, a conclusão final de que a arte é, em primordial instância, a sensação construída dentro da pessoal por ela mesma, ao tomar contato com uma obra exterior que, não impõe, mas a convida a sublimar nossas condições pequeninas? Seria o espírito do tempo, múltiplo, como estas sensações causadas?
.
Seria este espírito, o espetáculo do canal fechado? A série que inebria por sua irrealidade, realmente paralela, real somente em sua fantasia? A fantasia irremediável de nunca se colocar? Seria o esquivar-se de tudo? Uma esgrima contra o vácuo do horizonte futuro?
.
Seria o espírito do tempo o escracho maquiando a carência? O humor dos palhaços conscientes do cotidiano, usando do stand-up para colocar em vitrines mais aceitáveis suas obsessões em criticar antes de serem criticados? Ou criticar para fortalecerem suas imagens na tentativa de não serem jamais tocados? Os intocáveis por ninguém, a irretocável jovialidade esperta e burlesca, truanesca numa pose auto-suficiente?
.
Seria isto? Seria também isto? Ou nada disto?
.
Seria a fome em seu imperativo que perpassa os séculos e os séculos? Seria a fome no seio da humanidade que, ao mesmo tempo, gasta milhares de cifrões com drogas e medicamentos para esquecer daquilo, que dentro de cada, sente fome?
.
Seria o espírito do tempo a ditadura do estômago?
.
Seria a vontade de ajudar ao próximo como forma de se esquivar da auto-crítica severa?
.
Seria a negação de tudo, a negação da negação? O movimento de revolução individualista, ou a passividade fingida num olhar sem brilho?
.
Seria o amor o espírito do nosso tempo? Mas não teria sido este mesmo amor a tentativa frustrada dos espíritos de outros tempos?
.
Seriam as multinacionais e a pró-atividade calcada, sufocante, empurrada goela abaixo dos colarinhos fechados por gravatas compradas em lojas de departamentos? Seriam os grandes conglomerados e suas formas de maximização por minimalização da animalização natural do ser-humano-animal?
.
Seria o mínimo homem, no máximo ser vivente serviente? A domesticação dos instintos? A extinção dos instintos? A morte daquilo que é intrínseco? A colocação constante da objetividade, o velar ininterrupto contra a subjetividade, tendo como fundo, a vitória do eu-sozinho? O bloco do Eu-sozinho vociferando numa avenida vazia? Do eu e só, do só eu só?
.
Seria isso? Seria, ao menos, se fosse, uma parte disso? Um mínimo átomo contido no que há de comum a tudo isso?
.
Eu não sei!

.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Post 799 - 90 QUILOGRAMAS

.
Pela primeira vez na vida passei a barreira dos 90 quilos. Pesei ontem e estou com 90,7, quase 91 quilos!
.
É isso mesmo, eu tenho mais de 90.000 miligramas. Mais 10 quilos e já intero os 100 (CEM)...
.
Nunca estive tão pesado como estou agora.
.
Mas nem tudo se resume a barriga e banha. Acho que estou mais fortinho. E fortinho, aqui, não entra necessariamente como um adjetivo eufemístico para substituir o amigável: “gordinho”! rsss

.

Enfim, vou fechar a boca!!!

.