I
.
Oh Camões, que em si personificou,
Na figura de um homem sem sombra,
Uma quase divindade fantasmagórica e agônica
Que, na Literatura em Língua Portuguesa,
Fez sua morada humana num passado sem tempo.
.
Oh Camões, que em tua vida errante,
Desfez-se em aventuras por onde pouco se sabe,
Sangrou teu semblante num olhar perdido,
Naufragou tuas criaturas nas correntes oceânicas
Mas sustentou teu brado desesperado,
Aguerrindo-se à tua obra magnânima
Para salvá-la do sal sem fundo que a quis devorar.
.
Oh Camões, que em teu coração ferido,
Vivificou de poética teu amor frustrado
E deixou cantar tua vasta educação e cultura
Que, mesmo nos descompassos das paragens de além,
Fizeram brotar as formas perfeitas de um homem culto
Em teu estilo puro de encharcar as coisas com belezas
Mesmo soterrado nas contradições dolorosas
Que tanto te testaram em assombrosa desumanidade.
.
Oh Camões, tu foste nosso homem-verbal mor
E, para nós, vossos tantos compatriotas de língua,
Tu conquistaste, por tua pena, a coroa do respeito,
Inscrevendo, no cancioneiro das grandes obras,
Uma criação proferida em nosso amado idioma,
Pátria talhada por ti, magnificente e predestinado serviçal
Que carregou a dura missão de moldar o fardo do ser-escritor!
.
Oh Camões, tudo, em ti, tão errático,
Tudo, em ti, tão errado, tão submundano,
Mas, ao mesmo tempo, tão sublime,
Tão divinamente além de nós, pobres homens,
Tão perfeitamente além do pântano dos sentidos.
Por isso tu foste aquele que suplantou a história,
Transpassou e venceu o tempo, o espaço e o além.
.
Oh Camões, foste um ser sem canto,
Sem documentação sobre tuas trajetórias,
Foste um homem sem parada, sem estadia,
Sem acento em local único de nomenclatura eurocêntrica
Mas, mesmo assim, neste tanto desgarrado que permeaste,
Perseguiste o impalpável, por tantos e tantos horizontes,
Sem descanso, sem alegria e sem morada.
.
Oh Camões, tu, sendo o contraponto do absurdo,
Vivificou o brotamento do infinito açambarcante,
Pulsando nesta mesma incólume alma inócua,
Espírito sem começo, sem meio e sem fim
Que fez o parto das múltiplas grandiosidades verbais
E das nascentes intempestivas de fluxos inspirados
Por meio da labuta metrificante de trabalhadas Elegias.
.
Oh Camões, tu cultivaste como poucos teus Sonetos,
Irrigaste bem o transcontinental solo de tuas Redondilhas,
Paragens virtuosas onde brotaram impressionantes Sextinas
E inspiradíssimas Églogas de enormidade criativa.
Por ti se fizeram Oitavas edificantes da literatura universal,
Maravilhoso Ode único de tão melodioso compasso,
Cintilantes Canções com musicalidade afinadíssima,
Além de teu mui conhecido Épico lusitano,
Magna Obra do infinito mundo da portuguesa linguagem.
.
Oh Camões, tu foste o pai e a mãe de um novo tempo
Tecendo inimagináveis palavreados e rimas incríveis,
Vocabulários vastos germinados nas paragens sem nome.
Creio poder ter sido o sem fim horizonte oceânico
Que te fez querer aquilo que nem mesmo tu sabias o que era,
Mas que se fez, em teus decassílabos, tão bem colocado,
Eximiamente articulado e tão superior a estilos literários.
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Oh Camões, que em si personificou,
Na figura de um homem sem sombra,
Uma quase divindade fantasmagórica e agônica
Que, na Literatura em Língua Portuguesa,
Fez sua morada humana num passado sem tempo.
.
Oh Camões, que em tua vida errante,
Desfez-se em aventuras por onde pouco se sabe,
Sangrou teu semblante num olhar perdido,
Naufragou tuas criaturas nas correntes oceânicas
Mas sustentou teu brado desesperado,
Aguerrindo-se à tua obra magnânima
Para salvá-la do sal sem fundo que a quis devorar.
.
Oh Camões, que em teu coração ferido,
Vivificou de poética teu amor frustrado
E deixou cantar tua vasta educação e cultura
Que, mesmo nos descompassos das paragens de além,
Fizeram brotar as formas perfeitas de um homem culto
Em teu estilo puro de encharcar as coisas com belezas
Mesmo soterrado nas contradições dolorosas
Que tanto te testaram em assombrosa desumanidade.
.
Oh Camões, tu foste nosso homem-verbal mor
E, para nós, vossos tantos compatriotas de língua,
Tu conquistaste, por tua pena, a coroa do respeito,
Inscrevendo, no cancioneiro das grandes obras,
Uma criação proferida em nosso amado idioma,
Pátria talhada por ti, magnificente e predestinado serviçal
Que carregou a dura missão de moldar o fardo do ser-escritor!
.
Oh Camões, tudo, em ti, tão errático,
Tudo, em ti, tão errado, tão submundano,
Mas, ao mesmo tempo, tão sublime,
Tão divinamente além de nós, pobres homens,
Tão perfeitamente além do pântano dos sentidos.
Por isso tu foste aquele que suplantou a história,
Transpassou e venceu o tempo, o espaço e o além.
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Oh Camões, foste um ser sem canto,
Sem documentação sobre tuas trajetórias,
Foste um homem sem parada, sem estadia,
Sem acento em local único de nomenclatura eurocêntrica
Mas, mesmo assim, neste tanto desgarrado que permeaste,
Perseguiste o impalpável, por tantos e tantos horizontes,
Sem descanso, sem alegria e sem morada.
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Oh Camões, tu, sendo o contraponto do absurdo,
Vivificou o brotamento do infinito açambarcante,
Pulsando nesta mesma incólume alma inócua,
Espírito sem começo, sem meio e sem fim
Que fez o parto das múltiplas grandiosidades verbais
E das nascentes intempestivas de fluxos inspirados
Por meio da labuta metrificante de trabalhadas Elegias.
.
Oh Camões, tu cultivaste como poucos teus Sonetos,
Irrigaste bem o transcontinental solo de tuas Redondilhas,
Paragens virtuosas onde brotaram impressionantes Sextinas
E inspiradíssimas Églogas de enormidade criativa.
Por ti se fizeram Oitavas edificantes da literatura universal,
Maravilhoso Ode único de tão melodioso compasso,
Cintilantes Canções com musicalidade afinadíssima,
Além de teu mui conhecido Épico lusitano,
Magna Obra do infinito mundo da portuguesa linguagem.
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Oh Camões, tu foste o pai e a mãe de um novo tempo
Tecendo inimagináveis palavreados e rimas incríveis,
Vocabulários vastos germinados nas paragens sem nome.
Creio poder ter sido o sem fim horizonte oceânico
Que te fez querer aquilo que nem mesmo tu sabias o que era,
Mas que se fez, em teus decassílabos, tão bem colocado,
Eximiamente articulado e tão superior a estilos literários.
.
II
.
Um dia, vi um lindo documentário sobre Arthur Rubinstein e, dentre as belíssimas declarações a respeito da arte e da vida, Arthur dizia que Mozart não era romântico. Mozart era puro. Beethoven é que era romântico.
.
Entendi que o pianista não se baseou simplesmente em estudos e leituras de teóricos para traçar esses dois comentários. Arthur se utilizou de um conhecimento mais sutil e sublime para chegar a esse entendimento. Arthur estava falando do que ele, por aquilo que sentia emanando das obras e trajetórias de vida de cada um, soube em relação a alma desses compositores.
.
Era como se Mozart estivesse além de estilos musicais. Mozart vibrava profundamente a música nela mesma. Mozart era a própria personificação da música. A encarnação da inspiração, a humanização dos sons, a materialização das melodias, dos arranjos, das instrumentações, das Sinfonias. Uma divindade musical colocada na Terra por algum privilegiado ventre feminino.
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Um dia, vi um lindo documentário sobre Arthur Rubinstein e, dentre as belíssimas declarações a respeito da arte e da vida, Arthur dizia que Mozart não era romântico. Mozart era puro. Beethoven é que era romântico.
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Entendi que o pianista não se baseou simplesmente em estudos e leituras de teóricos para traçar esses dois comentários. Arthur se utilizou de um conhecimento mais sutil e sublime para chegar a esse entendimento. Arthur estava falando do que ele, por aquilo que sentia emanando das obras e trajetórias de vida de cada um, soube em relação a alma desses compositores.
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Era como se Mozart estivesse além de estilos musicais. Mozart vibrava profundamente a música nela mesma. Mozart era a própria personificação da música. A encarnação da inspiração, a humanização dos sons, a materialização das melodias, dos arranjos, das instrumentações, das Sinfonias. Uma divindade musical colocada na Terra por algum privilegiado ventre feminino.
.
III
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Oh Camões, tu és isso na Literatura.
Tu foste puro como também Mozart puro foi.
Em ti, nota-se o escritor de alma inteira,
Espírito inteiriço que profundamente se confunde
Com a dolorosa arte que defendeste em vida,
Personificando a literatura pura, impoluta, sobre-humana.
.
Oh Camões, tu não te encaixas em estilos,
Nem em épocas, tu sempre serás homem sem margens.
Tu passaste por entre nós feito espírito incalculável,
Grandeza extinta dos grandes sábios de outras eras
E tua produção foi a arte poética nela mesma:
A palavra feita no cuidado do artesanato minucioso,
A literatura como ela mesma é, em si, em tudo de si,
A poesia quando nenhum homem faz poesia,
O verso nele mesmo, quando nenhum homem o tocou
E ele apenas existe enquanto realidade a ser concretizada.
.
Oh Camões, tu retiraste do platônico mundo
O fraseado divino em notação sobre-humana,
O verso perfeito em sua forma mais exata,
O mais verso dentre todos os versos de nossa língua
Encaminhado ao orbe encarnado pelo humano
Que, ao tomar contato, se inspiraria deveras
Fluindo consequentes multiplicações vocabulares,
Possibilidades que seus filhos de arte e ofício fariam vingar.
.
Oh Camões, tu esmiuçaste as cercanias do próprio Deus
Trazendo de lá toneladas verbais de ulterior gestação,
Proto-substantivos do misterioso começo de todas as coisas,
Prolíficos vocábulos anteriores à história da humanidade,
Cintilantes belezas que aguardaram milênios
Até o momento de te terem em Terra
Para poderem desaguar no oceano da realidade
Transcritos, enfim, por tua iluminada pena:
Impoluto objeto mágico manuseado também por Homero,
Mago angular que de tua encarnação consciência tinha.
.
Oh Camões, e pela última vez, Oh Camões,
Tu conquistaste a pureza primeira da infância do verso,
Tu foste o mais poético poeta dentre todos nós,
Tu conquistaste a perfeição total da forma impoluta,
O estilo nuclear de escrever as coisas que existem
Simplesmente pela arte de escrever as coisas existem
Simplesmente pela arte de escrever as coisas existem
Simplesmente pela arte...
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Oh Camões, tu és isso na Literatura.
Tu foste puro como também Mozart puro foi.
Em ti, nota-se o escritor de alma inteira,
Espírito inteiriço que profundamente se confunde
Com a dolorosa arte que defendeste em vida,
Personificando a literatura pura, impoluta, sobre-humana.
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Oh Camões, tu não te encaixas em estilos,
Nem em épocas, tu sempre serás homem sem margens.
Tu passaste por entre nós feito espírito incalculável,
Grandeza extinta dos grandes sábios de outras eras
E tua produção foi a arte poética nela mesma:
A palavra feita no cuidado do artesanato minucioso,
A literatura como ela mesma é, em si, em tudo de si,
A poesia quando nenhum homem faz poesia,
O verso nele mesmo, quando nenhum homem o tocou
E ele apenas existe enquanto realidade a ser concretizada.
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Oh Camões, tu retiraste do platônico mundo
O fraseado divino em notação sobre-humana,
O verso perfeito em sua forma mais exata,
O mais verso dentre todos os versos de nossa língua
Encaminhado ao orbe encarnado pelo humano
Que, ao tomar contato, se inspiraria deveras
Fluindo consequentes multiplicações vocabulares,
Possibilidades que seus filhos de arte e ofício fariam vingar.
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Oh Camões, tu esmiuçaste as cercanias do próprio Deus
Trazendo de lá toneladas verbais de ulterior gestação,
Proto-substantivos do misterioso começo de todas as coisas,
Prolíficos vocábulos anteriores à história da humanidade,
Cintilantes belezas que aguardaram milênios
Até o momento de te terem em Terra
Para poderem desaguar no oceano da realidade
Transcritos, enfim, por tua iluminada pena:
Impoluto objeto mágico manuseado também por Homero,
Mago angular que de tua encarnação consciência tinha.
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Oh Camões, e pela última vez, Oh Camões,
Tu conquistaste a pureza primeira da infância do verso,
Tu foste o mais poético poeta dentre todos nós,
Tu conquistaste a perfeição total da forma impoluta,
O estilo nuclear de escrever as coisas que existem
Simplesmente pela arte de escrever as coisas existem
Simplesmente pela arte de escrever as coisas existem
Simplesmente pela arte...
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