segunda-feira, 8 de outubro de 2012

SER MINAS TÃO GERAIS





Por indicação de uma amiga de infância, fiquei sabendo deste espetáculo que reunia coisas que eu gosto demais da conta!!!

Sabia que ia ter Milton Nascimento, Crianças, Minas Gerais, Cultura Popular, Vale do Jequitinhonha, Teatro, Música, Poesia, Carlos Drummond de Andrade...Tudo junto!!!

Enfim, eu não poderia deixar de ir...

Então, eu fui!

E foi simplesmente uma das coisas mais lindas que já vi na minha vida! Uma energia clara, de felicidade de todos aqueles que estavam envolvidos pela arte ali no palco!

Senti uma legitimidade profunda naqueles artistas, coisa cada vez mais rara de se ver!

Sei que estavam ali também pela grana, que são conhecedores, pelo menos os adultos ali envolvidos, do apelo artístico que a reunião dos elementos compositores desta obra é capaz de gerar e, por conseqüência, atrair público e ampliar temporadas. Sei de tudo isso! Sei que é uma super sacada ligar músicas do Milton com trechos de poesias do Drummond, colocar crianças de uma região pobre no palco e chamar tudo isso pelo cativante título de: Ser Minas Tão Gerais!!!

Mas isso não tirou a intensidade do meu encanto, já que tudo vibrava com uma beleza mais ampla do que a simples conveniência dos elementos ali reunidos.

Foi uma viagem, um sonho que eu não queria que acabasse!!!

Foi um dos espetáculos que mais me emocionaram, senão o que mais me emocionou em toda minha vida! Chorei de emoção pela beleza de tudo aquilo, desde o início até o fim! Tinha horas que eu imaginava que eu já tinha chorado o suficiente, mas daí acontecia uma coisa nova, começava alguma nova música, ou eu via algo comovente no palco e pronto, eu recomeçava meu pranto!

Mas não chorei de tristeza, de lamentação por tudo aquilo ser um sonho cultural num país pobre de educação, que não valoriza sua cultura, que não dá espaço para tantos artistas belíssimos que temos por aí espalhados!

Nada disso!

Chorei pela beleza daquelas coisas todas reunidas que já listei aqui!

Posso dizer que não foi a maior produção que já vi, ou que este foi o espetáculo mais elaborado que assisti. Não foi nada disso!

O que me emocionou muito foi justamente e reunião dos elementos que me levaram a ir ver!

As músicas do Milton, o coro dos Meninos do Araçuaí, uma cidade pobre que fica no norte de Minas, na região do Vale do Jequitinhonha e redondezas. A simplicidade e a veracidade da cultura popular, os cânticos tradicionais do norte do estado onde nasci, a trupe de teatro idealizadora do espetáculo, o grupo “Ponto de Partida”, uma reunião de guerreiros da arte, que resolveram fazer algo por sua cidade, Barbacena, então cresceram, apareceram, mas nunca abandonaram seu local de origem!

Milton Nascimento estava no palco como ator, mas, na verdade era simplesmente ele mesmo no meio do palco, como ele sempre é!

A estória conta sobre um grupo de loucos, figuras que toda cidadezinha tem. Este grupo fala aos ventos sobre um homem, uma lenda que dizem ter engolido um passarinho quando criança, e este bichinho parou em sua garganta, por isso quando ele canta, traz a esperança e tem uma voz lindíssima!

Daí todos estes loucos ficam perguntando uns aos outros, procurando onde está este homem, quando que ele vai voltar pra cantar pra eles?!

Aos poucos vai se entendendo que este homem é o Milton Nascimento que eles não reconhecem logo de cara, até que uma mulher, com alma de menina pequena, desconfia que ele tenha voltado e pede a Milton que cante alguma coisa, daí ela o reconhece e chama todos para vê-lo.

Nisso eles condecoram Milton com um cajado enfeitado com elementos de folia de reis, e uma espécie de xale marrom. Daí se iniciam outras muitas canções, toque de tambores, sapateado. Uma coisa lindíssima!

Eram umas 60 pessoas no palco, dançando e cantando músicas do Milton. Crianças e adultos num ritual para festejar o retorno do tal homem que trazia a alegria! Além disso, o espetáculo comemorava os 70 anos de vida e os 50 de carreira deste mestre da MPB, inovador em tantos pontos e imprescindível para a música brasileira!

Houve também brincadeiras com versos do Drummond. Já em outras partes são recitadas coisas sérias deste mesmo escritor. E nesse mar de coisas tão bonitas, o espetáculo foi chegando ao fim, num crescente de forças, justamente com estes elementos que citei: os tambores, o sapateados, os cantos em coro, abrindo vozes, e todos no palco, tendo Milton ao fundo, como se fossem o exército da alegria e seu comandante!

A parte instrumental estava belíssima! Cinco músicos: violão, baixo, sopros, bateria e percussão, colocados junto da platéia, que tiravam um som muito bem ensaiado, regulado! Todos no palco tinham microfones, acho que menos as crianças! A sonorização e o equilíbrio de volumes estava muito bem feita!

Como foi lindo! Foi tão lindo que eu não queria que acabasse nunca mais! O único ponto menos tocante do espetáculo é que há pouca estória. Os elementos, músicas e poemas, são jogados com ganchos de enredo bastante fracos. Pareceu um pouco que os elementos estavam meio dispersos. Por qualquer pretexto já se iniciava uma nova música, ou um novo poema. Acredito que a proposta seja mesmo essa: um musical despretensioso neste sentido. Mas, com um pouco mais de esforço, conseguiria-se uma coesão maior entre as passagens, o que ajudaria a engrandecer o todo e a envolver mais o público.

No fim, depois de cantarem Coração Civil (São José da Costa Rica, coração civil / Me inspire no meu sonho de amor Brasil / Se o poeta é o que sonha o que vai ser real / Vou sonhar coisas boas que o homem faz / E esperar pelos frutos no quintal), todos aplaudiram de pé. Muita gente se emocionou, adultos e crianças!

E, a pedido de uma das senhoras integrantes do “Ponto de Partida”, todos nós cantamos com Milton Nascimento a música “Nos Bailes da Vida”.

Foi DEMAIS!!! Uma noite inesquecível!!!


EQUIPE:

Concepção . Ponto de Partida 

Roteiro, pesquisa musical e direção geral . Regina Bertola 

Assistente de direção . Lido Loschi 

Direção de vídeo . Éder Santos 

Direção de fotografia . Evandro Rogers 

Direção musical e arranjos . Gilvan de Oliveira 

Preparação vocal e pesquisa . Babaya 

Iluminação . Jorginho de Carvalho 

Assistente de iluminação . Rony Rodrigues 

Figurinos . Alexandre Rousset e Tereza Bruzzi 

Confecção de figurinos . Vera Viol 

Preparação corporal . Wagner Moreira 

Coreografias . Wagner Moreira e Ponto de Partida 

Sonorização de palco . Murillo Corrêa e Cia 

Projeto gráfico . Gutt Chartone 

Fotos . Rodrigo Dai 

Produção executiva do DVD . Camisa Listrada e Ponto de Partida 

Assistente de produção . Fátima Jorge 

Direção de produção . Cristina Lima 

Parceria . CPCD 

Produção geral e realização . Ponto de Partida 




Roteiro

Cais (instrumental) - Milton Nascimento e Ronaldo Bastos 

Notícias do Brasil (Os Pássaros) - Milton Nascimento e Fernando Brant 

Ainda bem não cheguei - Dom. púb. da região do Vale- recolhido por Frei Chico e Lira
Marques 

Circo Marimbondo - Milton Nascimento e Ronaldo Bastos 

Cidadezinha qualquer - Carlos Drummond de Andrade 

Roupa Nova - Milton Nascimento e Fernando Brant 

Uma pedra no meio do caminho - Carlos Drummond de Andrade 

Itamarandiba - Milton Nascimento e Fernando Brant    

Beira mar - Dom. público da região do vale recolhido por Frei Chico e Lira Marques 

Fragmentos de poemas - Carlos Drummond de Andrade 

Encontros e despedidas - Milton Nascimento e Fernando Brant 

O cio da terra - Milton Nascimento e Chico Buarque 

O vôo sobre as igrejas - Fragmentos Carlos Drummond de Andrade 

Boi Janeiro - Domínio público da região do Vale 

Coisas de Minas - Milton Nascimento e Wilson Lopes 

Maria solidária - Milton Nascimento e Fernando Brant 

O amor bate na aorta - Fragmentos. Carlos Drummond de Andrade 

Paula e Bebeto - Milton Nascimento e Caetano Veloso 

Brincadeiras de roda - Região do Vale 

Canção para Ninar Mulher - Carlos Drummond de Andrade 

Sentinela - Milton Nascimento e Fernando Brant 

Congadas - Festa do rosário 

Veveco, panelas e canelas - Milton Nascimento e Fernando Brant 

Bola de meia, bola de gude (vinheta) - Milton Nascimento e Fernando Brant 

Nosso Tempo, Companheiros escutai-me e Medo - Frag. Carlos Drummond de Andrade 

O Rouxinol (The Nightngale) - Milton Nascimento 

Canção Amiga - Milton Nascimento sobre poema de Carlos Drummond de Andrade 

O vendedor de sonhos - Milton Nascimento e Fernando Brant 

Ponta de areia - Milton Nascimento e Fernando Brant 

Canto ao homem do povo - Charles Chaplin - Frag. Carlos Drummond de Andrade 

A primeira estrela - Milton Nascimento, Tavinho Moura e Túlio Mourão 

Os tambores de Minas (Minas drums) - Milton Nascimento e Márcio Borges 

Raça - Milton Nascimento e Fernando Brant 

Louva a Deus (The praying mantis) - Milton Nascimento e Fernando Brant 

Visões - Fragmentos. Carlos Drummond de Andrade 

Coração civil - Milton Nascimento e Fernando Brant



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