Enfim, o último dia de viagem. Depois de dormir com o balanço intenso do rabo do ônibus, acordei por volta das oito da manhã com o chamado. Fui ao banheiro, ajeitei algumas coisas na minha mala e logo estávamos parando em um Graal para tomar café. Lá, comi pouco, pois, segundo o guia, em menos de quatro horas estaríamos chegando em SP. Segui então com a missão de terminar este diário.
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Esse fim da viagem é, de longe, o maior período que passamos dentro do ônibus. Começamos o deslocamento às 15 horas de segunda, dia 18/01 e chegaremos, daqui a pouco, em SP ao meio-dia de quarta-feira. Ou seja, serão quase QUARENTA E CINCO HORAS seguidas em trânsito.
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Em linhas gerais, essa foi uma das melhores viagens da minha vida. Parece clichê, mas é verdade. Conheci lugares longamente sonhados por mim, adentrei os Andes e o coração da América Andina da melhor maneira possível: POR TERRA. E era assim que eu queria que fosse. Queria sentir o povo, o chão, os lugares, as histórias, o solo onde, um dia, existiu o maior império das Américas e que, por desmandos da colonização, hoje existe e resiste um povo que habita a periferia do continente e do planeta.
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O fato de viajar sozinho também era um desafio. Tive receio de não conseguir me conectar com as pessoas, de sentir algo interno que me levasse ao isolamento, de ficar travado diante do conjunto e das milhares de coisas que poderiam me passar pela cabeça. Enfim, tive medo da solidão, mas a vibração me levou adiante e o grupo, formado, em sua maioria, por pessoas que viajavam sozinhas, estava muito disposto a se conectar. Procurei não racionalizar demais, simplesmente seguir adiante e consegui vencer minhas amarras.
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Ontem, antes de dormir, estava pensando nos diversos momentos que vivi, acabei me emocionando e chorei de saudade! Fui relembrando as semanas, o amálgama dos momentos, o fluxo das horas, a jornada que foi nos levando… Agora tudo parece, ao mesmo tempo, tão presente e tão longe. Não sei, só sei que fui me perdendo no embalo dos dias, as memórias foram ficando leves e equidistantes do agora e do passado.
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A contagem dos dias se perdeu pelo caminho, ficou tomando chuvisco na passarela das Cataratas do Iguaçu, ficou sentada nas ruas humildes de Humahuaca ou talvez esteja tomando vinho num lugar tranquilo de Cafayate. Mas isso, eu não sei…
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A contagem dos dias ficou encostada nas paredes do Anfiteatro na Quebrada das Conchas ou permanece dormindo tranquilamente, ainda em 2025, por sobre o infinito espelho d'água do Salar do Uyuni. Mas isso, eu não sei…
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Talvez a contagem dos dias tenha se perdido nas ruas milenares de Cusco, esteja comendo alguma coisa barata no Mercado San Pedro ou esperando na fila para ver o sincero e comovente espetáculo de dança no Centro Qosqo de Arte Nativa.
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Talvez ela tenha subido o Vale Sagrado, escorrido pelo rio Urubamba por entre as imensas paredes de rocha que protegem a cidade intocada e ido em direção ao mítico e colossal eldorado das Amazonas. Mas isso, eu não sei…
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A contagem dos dias também pode ter entrado numa fenda do tempo, ido parar num momento em que Machu Picchu ainda estivesse habitada ou talvez esteja tomando um banho de mar em Arica. Teria ficado a contagem dos dias encantada com o lindo pôr-do-sol que só o Pacífico é capaz de proporcionar e se elevado aos céus em direção à luz que se esvaia com mansidão?
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A contagem dos dias deve ter ficado nas Ilhas Flutuantes e ainda esteja morando com os Uros no Lago Titicaca, ou tenha ido pro Vale da Lua e subido até as estrelas no deserto do Atacama. Mas isso, eu não sei…
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Essa louca e inexata contagem dos dias pode ainda estar sentada na praça central de Salta, esperando o momento de andar no Teleférico San Bernardo, comendo alguma coisa na Churrascaria Matias e se despedindo, com nostalgia, das pessoas que também se perderam dela ao longo da viagem. Mas isso, eu não sei…
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Eu realmente não sei onde pode ter ficado a contagem dos dias, o ininterrupto das horas, o tilintar dos segundos, eu apenas sei que ela não esteve comigo e isso foi muito bom! Justo eu que tanto já fiz questão de controlar, fui vencido pelo trajeto, pela jornada, pelos encontros, pelas emoções, pelas belezas e me perdi de mim.
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Deliciosamente, eu me perdi de mim e me encontrei num lugar mais leve que meu cotidiano, menos preocupado que a minha rotina, menos fechado que a minha insistente timidez, mais amplo que as ruas do centro de SP e mais encantado que o trajeto urbano que preciso vencer em todas as manhãs.
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Eu me encontrei solto em meio ao sonho do curioso menino de Itanhandu que esperava, um dia, caminhar por aí e poder tocar o mistério dourado e silencioso que sentia existir na América Andina: o meu lugar no mundo, o berço do meu corpo, o recôncavo do meu espírito, o lugar de onde saí para poder ser reconvexo em todas as formas e paragens.
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Essa jornada foi o desaguar de um sonho antigo, alimentado, nunca desistido e que, mesmo nos momentos mais difíceis de um ex-remediado, eu não esqueci a promessa que, no fundo, havia sido feita para mim mesmo: CONHECER MACHU PICCHU. Num determinado momento, a intuição acendeu, eu observei a oportunidade, ultrapassei amarras, medos e, na hora certa, me lancei rumo à realização desse antigo desejo.
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Eu consegui e agora, terminada a jornada, posso dizer que dei o passo na direção e no instante correto. A decisão tomada, deitado na minha cama, numa noite de Outubro, desenrolou-se nessa linda e longa estrada que caminhei de mãos dadas com o meu eu-menino.
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Nessa estrada, fui levando o Wagner pequeno para ver seus sonhos e mostrei que ele sempre esteve certo em imaginar. Deitamos no berço do imenso interior da América Andina e nos esquecemos de nós, sem culpa, sem pressa, arrastando maravilhas por onde o vento rumasse, enovelando memórias leves, risadas brandas, cantorias coletivas e deixando pegadas várias pelas encruzilhadas deste continente que amamos profundamente.
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Escrevi essas palavras entrando em São Paulo, passando pela Marginal e, depois de desembarcarmos no mesmo Hotel Panamby de vinte dias atrás, peguei um transporte, fui para minha casa e, aos poucos, assentei-me de volta na rotina, mas com as energias renovadas.
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Valeu a pena! OXALÁ SABE QUE VALEU MUITO A PENA!!!
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Esse fim da viagem é, de longe, o maior período que passamos dentro do ônibus. Começamos o deslocamento às 15 horas de segunda, dia 18/01 e chegaremos, daqui a pouco, em SP ao meio-dia de quarta-feira. Ou seja, serão quase QUARENTA E CINCO HORAS seguidas em trânsito.
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Em linhas gerais, essa foi uma das melhores viagens da minha vida. Parece clichê, mas é verdade. Conheci lugares longamente sonhados por mim, adentrei os Andes e o coração da América Andina da melhor maneira possível: POR TERRA. E era assim que eu queria que fosse. Queria sentir o povo, o chão, os lugares, as histórias, o solo onde, um dia, existiu o maior império das Américas e que, por desmandos da colonização, hoje existe e resiste um povo que habita a periferia do continente e do planeta.
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O fato de viajar sozinho também era um desafio. Tive receio de não conseguir me conectar com as pessoas, de sentir algo interno que me levasse ao isolamento, de ficar travado diante do conjunto e das milhares de coisas que poderiam me passar pela cabeça. Enfim, tive medo da solidão, mas a vibração me levou adiante e o grupo, formado, em sua maioria, por pessoas que viajavam sozinhas, estava muito disposto a se conectar. Procurei não racionalizar demais, simplesmente seguir adiante e consegui vencer minhas amarras.
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Ontem, antes de dormir, estava pensando nos diversos momentos que vivi, acabei me emocionando e chorei de saudade! Fui relembrando as semanas, o amálgama dos momentos, o fluxo das horas, a jornada que foi nos levando… Agora tudo parece, ao mesmo tempo, tão presente e tão longe. Não sei, só sei que fui me perdendo no embalo dos dias, as memórias foram ficando leves e equidistantes do agora e do passado.
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A contagem dos dias se perdeu pelo caminho, ficou tomando chuvisco na passarela das Cataratas do Iguaçu, ficou sentada nas ruas humildes de Humahuaca ou talvez esteja tomando vinho num lugar tranquilo de Cafayate. Mas isso, eu não sei…
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A contagem dos dias ficou encostada nas paredes do Anfiteatro na Quebrada das Conchas ou permanece dormindo tranquilamente, ainda em 2025, por sobre o infinito espelho d'água do Salar do Uyuni. Mas isso, eu não sei…
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Talvez a contagem dos dias tenha se perdido nas ruas milenares de Cusco, esteja comendo alguma coisa barata no Mercado San Pedro ou esperando na fila para ver o sincero e comovente espetáculo de dança no Centro Qosqo de Arte Nativa.
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Talvez ela tenha subido o Vale Sagrado, escorrido pelo rio Urubamba por entre as imensas paredes de rocha que protegem a cidade intocada e ido em direção ao mítico e colossal eldorado das Amazonas. Mas isso, eu não sei…
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A contagem dos dias também pode ter entrado numa fenda do tempo, ido parar num momento em que Machu Picchu ainda estivesse habitada ou talvez esteja tomando um banho de mar em Arica. Teria ficado a contagem dos dias encantada com o lindo pôr-do-sol que só o Pacífico é capaz de proporcionar e se elevado aos céus em direção à luz que se esvaia com mansidão?
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A contagem dos dias deve ter ficado nas Ilhas Flutuantes e ainda esteja morando com os Uros no Lago Titicaca, ou tenha ido pro Vale da Lua e subido até as estrelas no deserto do Atacama. Mas isso, eu não sei…
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Essa louca e inexata contagem dos dias pode ainda estar sentada na praça central de Salta, esperando o momento de andar no Teleférico San Bernardo, comendo alguma coisa na Churrascaria Matias e se despedindo, com nostalgia, das pessoas que também se perderam dela ao longo da viagem. Mas isso, eu não sei…
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Eu realmente não sei onde pode ter ficado a contagem dos dias, o ininterrupto das horas, o tilintar dos segundos, eu apenas sei que ela não esteve comigo e isso foi muito bom! Justo eu que tanto já fiz questão de controlar, fui vencido pelo trajeto, pela jornada, pelos encontros, pelas emoções, pelas belezas e me perdi de mim.
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Deliciosamente, eu me perdi de mim e me encontrei num lugar mais leve que meu cotidiano, menos preocupado que a minha rotina, menos fechado que a minha insistente timidez, mais amplo que as ruas do centro de SP e mais encantado que o trajeto urbano que preciso vencer em todas as manhãs.
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Eu me encontrei solto em meio ao sonho do curioso menino de Itanhandu que esperava, um dia, caminhar por aí e poder tocar o mistério dourado e silencioso que sentia existir na América Andina: o meu lugar no mundo, o berço do meu corpo, o recôncavo do meu espírito, o lugar de onde saí para poder ser reconvexo em todas as formas e paragens.
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Essa jornada foi o desaguar de um sonho antigo, alimentado, nunca desistido e que, mesmo nos momentos mais difíceis de um ex-remediado, eu não esqueci a promessa que, no fundo, havia sido feita para mim mesmo: CONHECER MACHU PICCHU. Num determinado momento, a intuição acendeu, eu observei a oportunidade, ultrapassei amarras, medos e, na hora certa, me lancei rumo à realização desse antigo desejo.
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Eu consegui e agora, terminada a jornada, posso dizer que dei o passo na direção e no instante correto. A decisão tomada, deitado na minha cama, numa noite de Outubro, desenrolou-se nessa linda e longa estrada que caminhei de mãos dadas com o meu eu-menino.
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Nessa estrada, fui levando o Wagner pequeno para ver seus sonhos e mostrei que ele sempre esteve certo em imaginar. Deitamos no berço do imenso interior da América Andina e nos esquecemos de nós, sem culpa, sem pressa, arrastando maravilhas por onde o vento rumasse, enovelando memórias leves, risadas brandas, cantorias coletivas e deixando pegadas várias pelas encruzilhadas deste continente que amamos profundamente.
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Escrevi essas palavras entrando em São Paulo, passando pela Marginal e, depois de desembarcarmos no mesmo Hotel Panamby de vinte dias atrás, peguei um transporte, fui para minha casa e, aos poucos, assentei-me de volta na rotina, mas com as energias renovadas.
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Valeu a pena! OXALÁ SABE QUE VALEU MUITO A PENA!!!
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